segunda-feira, 21 de junho de 2010

Macaco sem pêlo

Para quem vai começar as dificuldades são terríveis, olha para os quatro cantos e não vê em que se pegue, principalmente para quem quer escrever um conto e não é versado em letras como no meu caso. Mas temos que considerar que, as palavras foram feitas para narrar acontecimentos e não para enfeitar, e é porisso que tudo que está contado aqui foi escrito de um modo muito natural. Onde tudo está narrado em uma linguagem falada em uma época e em uma região onde tudo aconteceu, usando termos simples que mostra como nós, pessoas do interior, se expressvam naquele lugar e naquele período, no qual eu vivi a minha meninice.
Em alguns destes contos eu estive envolvido, e em outros eu presenciei os seus acontecimentos. Tudo aqui foi escrito de um modo todo próprio, talvez até confuso para alguns letrados, por ter um estilo único e sem pretensão às letras, pois nunca tive acesso ao meio dos donos delas.
Também não vou munir-me de noções que não as tenho, do contrario arrisco-me a usar expressões desconhecidas de mim mesmo, porque outros conhecimentos que tenho são inúteis neste gênero.
Tenciono contar a minha historia com pseudônimo para não ser abordado na rua e ridicularizado e também não tenho culpa de não ter aprendido a gramática e não ter me aproximado dela, porque sempre notei que ela nunca gostou de mim, ou é eu que não gosto dela, talvez seja isso ou as duas coisas juntas, mas de uma coisa eu sei, eu e ela somos dois bicudos que não se beijam.
Outra coisa é a imaginação. As idéias vêem destacadas esparsas e em pedaços, nunca se juntando para misturar-se numa homogeneidade perfeita e daí sair um conto perfeito, e é porisso que gera uma expectativa revoltante na pessoa que lê uma historia mau contada. E é este leitor em questão, que faz a mesma pergunta que muitos fazem sobre os péssimos escritores, e que dizem assim, porque esse cara de carranca se mete a escrever tanta besteira, e ainda sai por aí dizendo, eu sei escrever livros, ora seu metido a escritor, sai da frente, deixe o espaço pra quem sabe, outra coisa, seu pretensioso às letras, eu já sei por que você se esconde por atrás de um pseudônimo, é por que se este conto for divulgado, não será nada mais ou nada menos do que um bostasseles, e é por trás disso que sua apagada pessoazinha vai passar despercebida, não é mesmo?
Mas meu caro Tá aí uma resposta, que vai justificar seu ponto de vista, pois se você achou elementos para me criticar assim por causa deste conto, eu vou ficar muito feliz na hora que souber disso, quer saber por quê? É que se você está me criticando, certamente leu o meu livro, portanto muito obrigado, e não deixe de ler o próximo.
Existem acontecimentos que se perdem no pó dos tempos tão logo tenham acontecido. Outros ficam gravados para sempre na memória das pessoas. Qual seria o segredo das historias que ficam? E das que desaparecem?As historias são contadas por quem viveu o acontecimento, ou por quem ouviu de outra pessoa lá na esquina da rua. Que seja ouvida por um individuo ou por um coletivo. Só sei dizer que ela anda! Sai da boca de uma pessoa, entra nos ouvidos de outra e sai pela boca do mesmo ouvinte. Só sei dizer que as que eu conto aqui eu as vivi!
Para narrar isso eu vejo um filme que vai se desenrolando e as imagens não são nítidas. Apuro a vista e fico olhando através dos vidros coloridos da janela da sabedoria e logo eu consigo ver algumas apagadas imagens por trás das cortinas empoeiradas do tempo, pois muitos anos separam aquela época deste tempo presente. Só consigo enxergar duas cores, o preto e o branco, e às vezes o escuro ou o claro. Penso eu que seria muito bom que nunca mais houvesse outro personagem para fazer algumas das cenas que eu estou revivendo nos capítulos x y e z deste livro, pois estes capítulos eu jamais teria tido a vontade de descrever, pois para fazer isso eu tive que abrir um buraco no centro da ignorância, entrar por ele, passar pela loucura e sair do outro lado para ver o que havia por lá.
O projetor é a minha imaginação que vai vasculhando a memória que vai revendo tudo que ficou gravado na consciente que nunca perdeu a consciência. O filme vai rodando e muitas vezes eu vejo as imagens e os atos acontecendo na parte escura da tela. Pois a poeira do tempo vem se acumulando ali há muito tempo.
Muitas vezes eu pergunto a mim mesmo, porque eu não esqueci isso? Porque minha memória não apagou isso do seu diário? Porque é que coisas que aconteceram ontem eu já esqueci, talvez seja porque certas coisas nós não devemos esquecer mesmo. Muitas parecem ser banais, muitos casos eu me lembro do dia e da hora dos seus acontecimentos, pois são marcas bem marcadas, que gravaram cicatrizes que até hoje eu posso ver seus rastros gravados no meu intimo. Feridas que nunca cicatrizaram, e ainda doem. Dizem que passado é passado, perdido é perdido, mas quando nos lembramos de coisas ruins que nos aconteceram, nós nos preparamos para nos defendermos de coisas talvez até piores que poderão atingir-nos.
Estou aqui sentado para confrontar este diário com a razão, se é que há razão para tanto. Vejo que cada nascer de sol tinha uma razão para ser uma dádiva divina. Em outra parte mais clara da tela, eu vejo bem claro que vieram e se foram épocas de encantamentos que transbordavam com as aventuras de cada dia. Pois para quem não tem nada, qualquer pouco é visto como muito. A projeção é interrompida e neste intervalo eu vejo que a generosidade humana anda por caminhos estranhos que muitas vezes não cruza com certos caminhantes. Vejo também que não é preciso gritar para ser ouvido, pois quando a situação é gritante não dá para ser ignorada.


AS PRIMEIRAS LEMBRANÇAS



Aquele dia que se finava tinha sido tórrido como os outros, o inclemente  afogueara a caatinga deixando tudo esturricado.Agora se escondia no poente deixando para trás um barrado avermelhado que tornava encarnado todo horizonte a oeste, um vento morno soprava de leste para oeste arrastando folhas secas e poeira na sua esteira.
A noite tentava estender seu manto escuro por sobre aquele borralho cinzento do sertão, mas era impedida pelo clarão da lua cheia que despontava no nascente, parecendo um grande olho amarelo numa grande cabeça que esta esticando o pescoço para olhar por cima do barrado de nuvens escuras que tenta impedir a passagem da sua luz amarelada, e àquela hora não era dia e nem era noite, era lusco-fusco.
E para a meninada que brincava no terreiro da frente da casa nem era hoje nem era ontem, era brincadeira. Era alegria, era paz, era harmonia, era a aurora da vida em toda sua plenitude.
A meninada brincava, mas não tirava o olhar do caminho, e aquele que primeiro avistasse alguém chegando era ganhador de um premio. De repente algo indistinto apareceu na estrada e onave gritou lá vem ele. Nisso todos correram ao encontro do vulto, pois já sabiam que era ele que chegava da roça. Ao se aproximarem dele todos foram afagados pela sua mão direita que já vinha desocupada para isso. E cada menino pendurou em sua mão e assim entraram em casa.
Ele estava Muito cansado.Chapéu de palha na cabeça, espingarda no ombro direito, bisaco atiracolo, no ombro esquerdo uma cabaça de pescoço pendurada numa correia, da mão esquerda pendia uma imbiricica com uns peixinhos, uma siricoia, alguns preás e pombas de arribação. Todos os dias na hora da sua chegada, um elo especial era formado quando ele se aproximava dos seus filhos. Pois devido o seu trabalho este laço paternal era auzente durante o dia. . Ele não era dado a demonstração de carinhos, mas gostava muito dos seus meninos.
Ao se ver livre daquela tralha ele mandou a filha mais velha colocar um tamborete na frente da porta, onde se sentou colocou os pés no batente e pediu a onave uma cuia com água, lavou os pés e ficou olhando pra lua enquanto o vento morno secava seus pés.
Em seus olhos em vez de fadiga havia entusiasmo, pois foi logo contando os acontecimentos do seu duro dia de trabalho.
- Eita Anatildes, você nem sabe da nova!
- Que nova é essa?
- Amanhã vai ter uma festa aqui em casa das grandes, você lave logo a panela grande, e pise muito tempero pra temperar a carne da festa.
- E cadê essa carne que eu não vejo?
- Ora mais tá, home! Eu matei muitos patos putrião com um só tiro.
- Aonde foi isso?
- Lá no açude velho.
- Cadê esses patos que eu não vejo?
- Deixei lá.
- Por que não trouxe?
- Ora home, o lugar que eu atirei neles é bem no porão, lá é muito fundo.
- Você não sabe nadar,porque não foi buscá-los?
- Ora home, já tava quase escuro, eu fiquei com medo de ir lá.
- Há! Eles vão afundar na água, você amanhã não acha nem as penas.
- Ora home, quem já viu pato afundar na água.
- Você que pensa assim.
- Pois você vai ver.
- Ver o que?
- Amanhã cedo eu chegar aqui com eles.
- Ora! Eu vou é cuidar das minhas costuras.
- Cadê minha janta e a dos meninos?
- Os meninos jantaram cedo, o jeito que tem é você comer no escuro.
- Por quê?
- Por que só tem um resto de gás nesse candeeiro e eu tô com ele ocupado aqui na máquina.
- Mas cuma é que eu vou achar as cuié num escuro desse, home?
- Pegue um tição no fogão vá alumiano até você encontrar as cuiés.
- E você Onave, venha segurar essa lamparina enquanto eu boto um remendo na sua camisa.
- Mãe eu tô com sono, quero dormir.
- Não, tá cedo! Venha logo pra cá.

Como a velha máquina ficava em cima de uma banca estreita e comprida Onave na sua pequenez passou por baixo dela, ficando em pé do outro lado segurando o candeeiro, e Dona Anatildes por sua vez acionou a manivela com a mão direita pondo a máquina em movimento, e com a esquerda empurrou o pano na direção da agulha. Onave que já estava com sono começou a cochilar, fazia careta, fazia o quatro com as pernas, mas nada do querosene acabar, pois era o maior desejo dele, finalmente a luz diminuiu de intensidade, sinal que o gás estava no fim, e ele pedia a Deus que não desse dinheiro para comprá-lo no outro dia, que antes de amanhecer já falavam em pato.

- Levanta Anatildes, que o dia já clareou, vá fazer o café, que eu vou buscar os patos.
- Não vai ter café não, os meninos comeram todo o açúcar, é melhor você ir tirar o leite da vaca do que ir entrar naquela água fria uma hora dessas.
- Ora, eu não vou entrar na água.
- Então quem vai entrar pra pegar os patos lá no meio do açude?
- Ora home, você não viu a lua cheia, ventou a noite toda, o vento empurrou os patos para a beira d’água, você sabe aonde eu vou pegar eles? Lá debaixo das gaias do pé de goiaba da ponta do baldo.
- É bom que você vá logo tirar o leite, antes que esses meninos acordem esgoelando querendo comer. Se fosse na Maravilha eu mesma ia tirar, mas na Pretinha nem pensar.
- Não, eu vou logo buscar os patos e o leite eu tiro quando voltar.
- Então quando você passar na casa grande tome emprestadas duas cuiés de açúcar a cumade Alcinda pra fazer seu café.
- E o leite dos meninos, adoça com o que?
- Eles vão beber sem açúcar para deixarem de ser traquinos.

Alguém falou lá de dentro Mãe quem comeu o açúcar foi Onave! E ainda lambeu a boca da lata.

E Onave que já tinha ido dormir na expectativa de ir ajudar na busca dos patos, acordou por causa da discussão, tira leite, pegar pato, comeu açúcar.
Levantou da rede, passou pelo caniço que servia de porta dos fundos e seguiu o pai que já ia a caminho do açude velho à busca dos tais patos, sabendo que na volta teria que contar a história do açúcar comido e ainda ter lambido a boca da lata.
Onave já tava preocupado, porque dias antes, tinha acontecido um caso idêntico a este, isto é, o açúcar da lata tinha sumido misteriosamente e João Nunes para não deixar passar em branco, tinha distribuído dois muxicão no pé do ouvido e no quengo de cada menino, e na mais velha, quatro cocorotes na moleira, pra aprender a cuidar das coisas, e ainda tinha sentenciado, se aquilo tornasse a acontecer, ele ia pegar um por um, para esfregar a bunda no pé de tamiarana lá da beira da cerca, portanto cada menino já sabia o preço da grama do açúcar.
Ainda mais tinha o seu pai que ficava com dor de cabeça quando não tomava café pela manhã, principalmente por falta de açúcar desviada do destino e era por esse motivo que ele sempre cumpria as promessas.
João Nunes não viu que Onave ia atrás dele, pois se notasse a sua presença não ia deixar que ele o acompanhasse, passaram pelo baixote, subiram a ladeira, chegaram aos pés de turco, daí ele se dirigiu à porteira do pé de mulungu, e ao abri-la olhou para trás, mas Onave já estava escondido atrás da ponta da calçada da casa grande, que era a casa dos avós dele, onde na frente da qual ficava a cancela.
João Nunes abriu-a, passou para o outro lado, Onave também fez o mesmo, embora mantendo a distância, para não ser notado. Chegaram a cacimba do pé de jatobá, atravessaram o riacho, passaram pelos pés de pinha, entraram debaixo do pé de manga espada, seguiram em frente deixando o riacho para trás, entraram no baixio, chegaram ao cajueiro velho, onde o velho Quincas Ferreira fazia telhas, passaram pelo batedor de arroz, transpuseram a cerca da baixa das carnaubeiras, seguiram para a direita, chegaram aos pés de goiabas vermelhas, passaram por baixo, mas Onave mantinha sempre uma distância do pai, que parou debaixo do pé de coco velho, que era no pé do baldo do açude velho, tirou os carrapichos da barra da calça, depois subiu o baldo seguindo pra direita, desceu para o outro lado, chegando ao pé de goiabas brancas, cuja ramagem chegava até na água do açude, apressou o passo, contornou as galhas, indo direto pra beira d’água.
Aproveitando aquele momento, Onave se escondeu debaixo da goiabeira, de onde podia contemplar a alegria estampada no rosto do pai ao ver tanto pato morto na beira do açude. O dia já estava iluminado pelos primeiros clarões da manhã, e os raios do sol, que pareciam longos espetos luminosos, vinham furando a caatinga rala de jurema preta misturada com marmeleiros.
Não mais podendo suportar a curiosidade, Onave correu para perto do seu herói, que se espantou ao vê-lo ali àquela hora, mas Onave não perdeu tempo, começou logo a ajudá-lo juntar a pataiada, pois tinha para todo lado que se olhava, e ali estava a prova, que aonde o João Nunes apontava a lazarina o estrago estava feito.
O vento da noite de lua cheia tinha feito a sua parte, empurrando a patança pra beira d’água, e ao chegar em casa ninguém falou mais em açúcar e nesta manhã Dona Anatildes não costurou, pois tinha outra ocupação, já que botou água na panela grande, pôs pra ferver, jogou milho pra porca, pois esta a muito tempo chiava no pé da porta, disputando com as galinhas, algum grão que viesse a passar por ali.
A filha mais velha de Dona Anatildes já estava no veio do moinho, terminando de moer a cuia de milho que tinha dormido de molho e Onave passava na peneira para separar a massa do xerém. Da massa ia sair o cuscuz e a farinha torrada no caco que era uma velha banda de pote cujo mesmo tinha diversas utilidades: torrar a massa para fazer farinha, botar água pras galinhas, torrar café, torrar milho pra fazer fubá e ainda servia para juntar a lavagem da porca. Do xerém fazia-se ração pra pinto ou o famoso angu de xerém pra comer com leite.
Mesmo muito ocupada Dona Anatildes cantava sem demonstrar preocupação, pois era muito alegre.
João chegou com o leite que logo foi fervido, o cuscuz já estava pronto e a grande prole também já estava pronta pra engolir os dois juntos.
João foi soltar a Pretinha no cercado, os patos já estavam depenados, o moinho já estava rodando outra vez, pois tinha que fazer mais massa pro angu do almoço. A panela grande já estava desocupada porque era nela que ia ser feita a pataiada. Por causa dessa luta matinal Dona Anatildes só ia ter tempo para costurar pela tarde, e a vida continuava, pois ela conseguia fazer naquela simples máquina, peças de roupa encomendadas por uma fiel freguesia que não era muito exigente, e com o dinheiro ganho com esse trabalho ela comprava simples objetos de consumo, tão simples que nem chamavam a atenção, mas para quem nada tinha esses simples bens eram preciosidades inigualáveis, pois tudo naquela casa eram muito simples e resumido em poucos itens.
Na sala de jantar: uma mesa, seis tamboretes, um banco com dois potes, um porta copos feito em madeira, dois copos de alumino, um copo com o cabo comprido, que servia para tirar água dos potes e dele passar para os outros em uso.
Um caritó na parede onde era guardado o fumo, papel para cigarro, caixa de fósforos, tábua pra cortar o fumo e uma faquinha.
Um armário feito de tábuas onde eram guardadas as preciosidades: um bule, um açucareiro, doze pratos de louça, uma dúzia de facas e garfos, quatro xícaras para café quatro para chá e doze colheres.
No quarto único tinha: uma cama com o colchão cheio de juncos, uma mala grande feita de madeira de umburana, um caritó na parede, com um espelho, um pente grosso, e um pente fino para tirar piolho graúdo na meninada, um vaso de brilhantina para alisar os cabelos nos dias de festa, coisa que João Nunes detestava, pois quase não os tinha.
Na sala de visita: a máquina de costura em cima da mesinha, seis tamboretes que era os mesmo da mesa de jantar, pois iam da sala pra mesa e vice-versa. As redes da meninada enroladas ou penduradas nos tornos das paredes, das quais emanava um forte cheiro de mijo. A lazarina ficava atrás da porta de entrada, pendurada em um torno juntamente com o bisaco, onde era guardada a munição, um polvarinho feito de chifre de boi tampado no fundo com um disco de caco de cuia, um saquinho de couro com chumbo, e uma caixa de espoleta tupam. Num canto da mesma sala existia um paiol onde era armazenado o cereal em casca, milho, feijão de corda, arroz, e outros quando os tinha.
Na cozinha ficava um grande pote de barro dentro de um grande gancho de pereiro em forma de tripé de pernas pra cima, um pilão, um moinho para moer milho, preso a um cepo fincado no chão, algumas panelas alguidás vários pratos e tigelas, tudo isso feito de barro, a grande banda de pote, antes já citada, que servia para, torrar farinha milho café e outras coisas, uma chaleira de boca estreita feita de flande, várias cuias e cabaças para carregar água, usada pela meninada. Às vezes duas latas de vinte litros, ambas com um pau atravessado na boca, onde era amarrado uma corda, e esta laçada na extremidade de uma barra de madeira, ficando assim, uma lata de um lado da travessa, e a outra, no lado oposto, formando o galão, sendo à travessa o pau do galão. Estes últimos, todos em cima de um grande caixão que servia para guardar cereais, e por último um cambito de cinco pernas pendurado num caibro do canto do telhado onde se estendia toucinho, juntamente com a carne dos abatidos pela lazarina, preá, punaré, marrecas, patos, galinha d’água, jaçanã juriti, arribação paturi, e outros, todas estas caças, eram produtos do açude velho e vizinhança.


O AÇUDE VELHO ERA O NOSSO CELEIRO

No mês de dezembro toda água que restava no açude velho ficava resumida no círculo do porão Os rebanhos de aves aquáticas já tinham ido embora, pois sua alimentação dependia das frutas da baronesa e da vitória regia, e essas não proliferavam no porão por ser um ponto muito fundo
Mas a chuva devia chegar em janeiro, no mais tardar em fevereiro, porque o carão já começava a cantar, e o canto do carão vem acompanhado do trovão, o trovão acompanhado da chuva e a chuva enchia o açude velho, e o açude cheio tem muito aruá que é comida de carão. Logo também a vitória régia e as baronesas brotavam das suas batatas que tinham ficado enterradas na lama que tinha secado, e muito felizmente estas são resistentes às longas estiagens.
Poucos dias depois vem a floração acompanhada dos frutos, por isso a passarada que tinha ido embora começava a chegar, pois lá da casa de João Nunes já se ouvia o canto do putrião, da jaçanã e das marrecas.
A água lamacenta que tinha descido lá dos altos, espraiava-se, para em seguida começar o processo de decantação das partículas terrosas suspensas no meio liquido, criando com esse efeito uma camada de argila fértil, onde o João Nunes ia plantar o arroz de muda, pois as sementes que foram semeadas no canteiro já tinham germinando. E o João pegava a meninada para carregar as mudinhas de lá, para plantá-las nas praias rasas do velho açude.
Plantava as mesmas também na revença que saia por trás do baldo, que é a baixa das carnaubeiras, plantava milho nos altos, misturado com feijão de corda na mesma cova, em cima dos formigueiros plantava fava, jerimum de leite, jerimum caboclo, semente de cabaças, de melancia, de gergelim e outras.
As traíras que tinham entrado pela sangria se juntavam às que tinham ficado no porão onde recomeçavam um novo circulo de reprodução.
João Nunes já preparava a imbiricica, a malha do landuá e a vara de anzol. O fojo de pegar preá era o mesmo do ano passado, pois era feito numa caixa de madeira resistente. O pente da sangra de pegar arribação também era o mesmo do ano anterior, mas ia ser guardado porque a chuva tinha chegado, e arribação como não gosta de terra molhada tinha ido embora, já a lazarina ia ser reativada porque as marrecas tinham voltado, e João Nunes ainda achava tempo pra a usá-la, e armar o anzol com isca de caçote, pois todo dia no almoço tinha pato ou traíra na mesa, pois quem bem sabia como pegá-los era João Nunes.
No fim das chuvas, o açude velho estava cheio, o arroz ia ser colhido pra dar lugar a o plantio de batata doce, milho, feijão ligeiro, melancia, jerimum e outros, pois à medida que a água ia baixando descobria aquela terra rica de argila decantada durante o período que esteve emerso, e caso essa não fosse ocupada com o plantio dessas culturas, o muçambê tomava conta e empastava tudo, porem o João Nunes de Lucena jamais deixava isso acontecer. Muito obrigado, açude velho nosso celeiro.

PRETINHA E MARAVILHA

- Eita Anatildes, Pretinha tá querendo apartar.

Ainda bem que a Maravilha tá pra parir. Pretinha era baixa, pé duro, orelha de colher, o tipo da crioula boa de leite. Era cinco litros e meio de leite todos os dias. Maravilha também era crioula, barriguda, chifres longos curvos e um pouco pra frente, sua cor era a de um bacurau, sendo a mansidão seu principal predicado. Pretinha era mais querida talvez por ter os chifres finos curtos e apontados também para frente, porem quando tava parida de novo, só João Nunes chegava perto, porque ela detestava menino, principalmente quando os meninos iam brincar com o menino dela.
O rebanho era composto, pelas duas vacas já citadas, mais o touro lavrador e duas garrotas, mas o destaque estava nas duas vacas, pois essa dupla era um par de maravilhas maravilhosas, porque era dali que vinha a matéria prima para alimentar a grande prole de Dona Anatildes, e quando coincidia disleitar, as duas ao mesmo tempo, Dona Anatildes ainda fazia queijo de coalho todos os dias, usando o bucho de peba no leite para endurecer a coalhada, e todo dia às duas horas da tarde a massa ia pro chincho.

SEU MIGUEL

- Anatildes, eu acho que vou mandar chamar seu Migué, você tá de buxo, e nos não vamos dar conta de fazer tanta coisa que tem pra ser feita. Logo vai ter o roço do algodão, o que é que você acha?
- Eu acho bom que você mande dizer a ele que traga mais uns dois ou três trabaiador, pois tem muito que fazer mesmo.

E na segunda feira seguinte João Nunes mandou um recado, e Seu Miguel atendeu prontamente o chamado, chegando acompanhado de Zé Brejeiro, mas a saúde de ambos não era boa, pois a região dos brejos onde eles moravam era infestada de sezão, impaludismo, amarelão, e bicho de porco. Seu Miguel tinha perdido as unhas dos pés, Zé Brejeiro tinha o bucho muito grande, estava amarelinho, só ficava em pé, porque seus pes eram muito chatos e os dedos bem longe um do outro.
A alegria da meninada foi muito grande, na hora da chegada deles, pois ambos gostavam muito de meninos. Mas o motivo de toda a alegria da meninada não era só por isto. O fato é que durante a temporada que Seu Miguel passava naquela casa ninguém mais pegava água na cacimba e nem lenha lá nos matos, e sim ele.
Nas noites de lua cheia, depois de já terminadas as ocupações diárias, Seu Miguel pegava um tamborete, levava lá pro terreiro, e todos os meninos corriam para cima dele, onde sentava dois em cada perna para ouvir dele às historias de caiporas e mãe da lua que segundo ele, tinha muitas lá pelas bandas dos brejos onde ele morava. E a meninada ficava de mão no queixo, ouvindo aquelas incríveis narrações que saiam da boca dele. Quando a meninada começava a brigar por um espaço no colo dele, este ameaçava não contar mais historias, e com medo que ele fizesse isso, logo todos ficavam calados. E quando a briga entre eles era por outros motivos, Seu Miguel tinha sempre uma boa maneira de acabar com aquilo, ameaçava entregar o briguento a Dona Anatildes. E ainda lembrava a cada um que João Nunes gostava de distribuir tabefes e cocorotes a torto e a direito. E o amor que a meninada sentia por ele aumentava a cada dia, pois dele irradiava uma bondade tão cativante, que nenhum queria sair de perto dele, implorando para ele não mais ir embora para sua terra. Portanto, Seu Miguel era o astro rei. E os meninos eram os satélites, que giravam em torno de sua órbita.
Mas o astro um dia tinha que ir embora, era casado e tinha que levar dinheiro para sua esposa e rever também seus meninos, que segundo ele eram muitos. E era nessa despedida, que o bicho pegava, pois o chororó da meninada era ouvido de longe. Mas Seu Miguel acalmava todos com a promessa de voltar logo que possível. Como de fato sempre voltava, trazendo na sua bagagem, toda a boa vontade e alegria existente no mundo.
E numa dessas suas voltas alegria dos meninos foi muito grande, pois logo no dia seguinte à sua chegada, ele pegou a cabaça grande, e desceu no rumo da cacimba, acompanhado de Onave. Chegando lá, a encheu com quase vinte litros de água, ajeitou o forro na cabeça, suspendeu-a bem acima da rodilha, porém as forças não estavam mais com ele, a cabaça escorregou das mãos dele, e desceu com o peso da água quebrando o fundo, e a cabeça dele entrou com o pescoço e tudo chegando até aos ombros. Sufocado pela água e sem poder suspender a cabaça, pois a rodilha tinha descido, e estava entre o seu queixo e a beira do fundo da cabaça, dificultando assim a sua retirada, desorientado esmurrava a cabaça com as duas mãos, mas não conseguia quebrá-la e quando finalmente saiu a ultima gota de água, a sua voz pode ser ouvida de longe gritando por Onave.

- Pegue um pedaço de pau e bata na cabaça pra quebrar.

Uma paulada, duas, três, quatro, nada da cabaça quebrar. Tonto e andando sem rumo passou na barreira da cacimba, escorregou, a barreira de areia cedeu, e ele despencou lá de cima, indo parar lá no fundo do poço, onde ficou deitado com a cabeça apoiada no primeiro degrau da subida. Nesse momento de desespero ele gritou:

- Onave desça aqui, e bata o pau na cabaça com toda força que você tiver.

Onave obedeceu à ordem, levantou-se na ponta dos pés, levantou o pau com as duas mãos, e desceu também com as duas mãos. Foi caco de cabaça pra todo lado, mais o estrago foi horrível, pois o pau era um toco com raízes, a pancada quebrou a cabaça, atingiu a orelha direita e o ombro, pois ambos estavam na mesma linha da paulada. Como estava deitado, ali mesmo permaneceu quieto, e Onave correu apavorado pensando no pior, gritou, gritou, gritou, até que Mané Roldão chegou e o tirou de lá, mas levou mais de um mês para sarar os buracos feitos pelas raízes do toco, tanto na orelha como no ombro, porem daquele dia para frente ele só ia buscar água numa ancoreta.
O tempo foi passando, o bucho de Zé Brejeiro já havia diminuído, porque Dona Anatildes lhes ministrava todos os dias um grande copo com leite misturado com mastruz e lombrigas não se dão bem com isto. Seu Miguel já tinha ficado bom da orelha, as novas unhas vinham apontando, pois o bicho de porco não prolifera no sertão árido. Ele juntamente com seu companheiro estava roçando o mato do algodão da beira do açude velho e todo dia ele levava Pretinha para ser amarrada na beira da água para comer o capim ali existente e ela era mudada de lugar de hora em hora. Á tardinha, era levada para casa onde era recolhida ao curral e tanto na ida como na volta, ele a conduzia puxada por uma corda, que era laçada nos chifres dela, sendo a outra ponta amarrada bem firme na cintura dele. Levava também um grande carneiro, para ser amarrado perto das carnaubeiras, pois ali tinha um capim rasteiro ideal para um animal de raça como ele, que também era mudado de lugar ao meio dia quando ele Seu Miguel vinha pro almoço.
A carnaúba daquela região tem uma folha composta, por uma palma em forma de leque, sustentada por um grande braço cheio de espinhos também grandes, curvos e às pontas viradas para o caule da palmeira, portanto aquele que por acaso entrasse na sua copa ia ter muito trabalho para sair dela sem ajuda de outra pessoa.
Onave todo dia ia levar o café a Seu Miguel lá pelas três horas da tarde, e esperava para voltar junto com ele, ordem de Dona Anatildes.
Certo dia à tardinha, Seu Miguel encheu o cachimbo de fumo, colocou uma brasa dentro, amarrou a cor da Pretinha na cintura, e pegou o caminho de volta pra casa, acompanhado de Onave e Zé Brejeiro, passaram debaixo do pé de angico do sangradouro onde o martin pescador cochilava num galho seco, e o socó boi no outro, e com certeza estavam com o papo cheio de piabas.
Dali os três seguiram pelo sangradouro do açude, de onde desceram rumo às carnaubeiras, pois o caminho era por ali. Zé Brejeiro ia à frente, por isso Seu Miguel mandou ele desamarrar o carneiro, porém ao desatar o nó, o bicharoco se espantou por causa da aproximação de seu Miguel que vinha puxando a Pretinha e saiu numa carreira louca arrastando o Zé, que tinha caído ao tentar segurá-lo.
O carneiro na sua carreira disparada passou por baixo da barriga da vaca saindo do outro lado, arrastando Zé Brejeiro, numa velocidade de bala, e ao sair do outro lado fez uma volta. A corda deu uma rasteira em Seu Miguel que não pode se sustentar em pé. A Pretinha se espantou disparando numa carreira sem rumo, pulou por cima de uma grande moita de carnaúbas novas, puxando Seu Miguel para debaixo dela.
Puxa pra lá, puxa pra cá, mas a vaca não avançava, pois a ponta da corda estava amarrada na cintura de seu Miguel, e esse enganchado no tronco das carnaúbas, nisto o bezerro berrou lá na frente e a vaca pulou de volta à mesma moita, a corda esticou novamente, mas não conseguiu arrancar ele de lá, pois agora era os espinhos que o segurava, e quanto mais a vaca puxava mais os espinhos entravam no seu couro. Depois de ter dominado o carneiro, o Zé do brejo voltou ao lugar do desastre, não sabendo que seu companheiro estava debaixo daquela jaibara, tentou tocar a vaca pra frente, esta fez finca-pé, cravou os cascos no chão o espinhaço ficou parecendo um bodoque mais não saiu do lugar.
Nisto Onave viu aparecer um pé, e pelas unhas ele reconheceu o seu dono.
E devido à gritaria de Zé Brejeiro, meia hora depois João Nunes apareceu, e com o uso de uma foice de cabo comprido conseguiu chegar até onde ele estava, e o tirou de lá, quase desmaiado, sem conseguir respirar direito. Arrasta pra lá arrasta pra cá, aí foi que João Nunes descobriu que o cachimbo cheio de fumo estava lá dentro da boca dele, e o canudo tinha se infincado goela adentro.

MÃE ROSA, PEGADEIRA DE MENINOS

- Seu Migué, seu Miguéééé.
- O que é seu João?
- Venha cá logo, ó meu Deus que aperreio danado, tanto menino que já tem, e ainda vem mais esse, esse ou essa!
- Pronto já cheguei seu João, o que era?
- O que era já passou seu Migué! Vá logo ali ligeiro correndo bem rápido, buscar a cumade Rosa ligeiro voando, que Anatildes tá sentindo dor de menino.
- Mais eu não sei onde ela mora seu João.
- Ora mais essa home, cumade Rosa mora lá do lado da casa de cumpade Juzé, numa casa véa de taipa, forrada de pucumam, teia de aranha, e cheia de buracos que os, caboré, passa voando por dentro sem tocar as asas nos pau, e quando o senhor chegar lá vai ver uma véa bem preta, bem feia, dos beiços de gamela, da venta chata espragatada e arregaçada, que os buracos parecem uma fornalha de engenho de fazer rapadura, e das unhas bem grande, igual as de uma caipora, com um cachimbo bem grande e fedorento, com o canudo enfiado na boca véa banguela, e um rosário pendurado no pescoço, que tem no mínimo, meia braça de comprimento, enfiado por baixo do cabeção entre as pelancas dos peitos veios, e sentada numa pedra bem grande, e do lado dela, tá Minervina fia dela sentada numa pedra menor, entendeu agora seu Migué?
- Entendi seu João, é naquele lugar que tem muitos pé de jurema.
- É lá mesmo home vá logo cusdiabos home.
- Seu João o que é pucumam?
- Ô seu Migué! Pucumam. É teia de aranha misturada com fumaça de fugão que queima lenha, que só tem na casa de gente preguiçosa: vá logo home, que eu já tô aperreado!

Ao ouvir a conversa entre João e seu Miguel; Dona Anatildes apareceu na porta e protestou:

- Não vá chamar cumade Rosa não seu Migué.Vá buscar cumade Maria de Joaquim Profiro, e diga ela seu Migué, pra trazer uma garrafa de azeite de carrapateira, que não deu tempo pra eu fazer.
- E você João não é pra mandar mais chamar cumade Rosa pra pegar menino aqui nesta casa.
- Por que não Anatildes?
- Porque ela é uma véa muito sebosa, outro dia eu fui na casa dela, e vi quando ela se abaixou pra pegar uma panela que tava cozinhando comida numa trempe no chão, e o rosário dela saiu de dentro do cabeção, e caiu dentro da panela, com cruz e tudo, depois ela o enfiou de volta, entre um peito e o outro, por baixo do cabeção, todo melado de feijão. Outra coisa, ela só corta o umbigo dos meninos que ela pega com aquelas unhas dela, todas sujas de fumo que ela corta com elas pra butar naquele cachimbo fedorento. É tanto que eu acho que aqueles meninos que morreram, com o imbigão inchado, e vermelho, foi por causa daquelas unhas sujas que ela usa pra cortar o imbigo das crianças.
- Que nada Anatildes as pessoas cura imbigo de menino é com péa de fumo boró, e banha de cágado, eu sei que o quê é bom mesmo é arnica misturada com beladona e cibazol, foi com isso que eu curei o imbigo de Onave, e ta ele aí bem forte.
- Ta bom home, deixe de conversar burundanga.Vá lá pra dento, que cumade Maria já deve tá se arrumando pra vim mais Seu Migué. Ainda bem que eu guardei aquela garrafa de mé de jandaira, e agora quando Seu Migué chegar eu vou mandar ele comprar uma garrafa de cana pra fazer o cachimbo.
- Mande também trazer uma garrafa de gás, e trazer também um quilo de sá, que o último que tinha na cumbuca eu salguei as traíras.
- Eita que você gasta as coisas.
- Num gasto não! É porque eu emprestei também um punhado pa cumade Bigaí de Zé Pajaraca, então é por isso que acabou tão ligeiro assim.
- Eita.Que Seu Migué tá demorando, enquanto ele chega, eu vou lascar esses paus de lenha, e eu vou logo é amolar esse machado que tá danado de cego.
- Traga aí uma cuia d’ água Onave.
- Venha ligeiro home, bote isso aqui.
- Agora ele vai cortar até uma mosca que sentar no gume dele, por que essa pedra amola mesmo.
- Tá bom bote aqui, eita pedra boa danada, agora ficou bom, e lá vai machado seu toco danado, tome, tome, tome, e agora seu peste diga por que você não racha, agora é esse outro danado tome machado também.
- Epa Seu Migué tá chegando mais cumade Maria, e eu já vou ataiá ele, pra mandá-lo ir comprar as coisas.
- E o senhor seu Migué; antes que escureça vá lá em Teofe Batista, diga a ele que me mande um litro de sá, uma garrafa de gás e uma garrafa de cana.
- Duas porque eu quero uma seu João.
- Tá bom seu Migué, mas não vá beber por lá, por que não tem gás na lamparina, e cumade Maria não pega menino alumiado de tição, e enquanto o senhor vem, eu vou lá na cacimba buscar um galão d água.
- Joãããão manda trazer também arnica e cibazol porque aqui só tem beladona.
- Tá bom, tá bom, tá ouvindo né seu Migué?
- Tou seu João.
- Então vá logo, logo ligeiro, enquanto isso; cumade Maria eu vou lá na cacimba pegar um galão d água e volto já, já, ainda bem que Zé Roldão já tá comprando algudão na foia.Por que se não Teofe não ia receber agora.

Nisso alguém gritou lá dentro:

- Cumpade João traga aqui um tição, pra eu procurar os cueiros.
- Pêra aí cumade, eita diabo que Seu Migué parece que não vai mais chegar com o danado desse gás.
- Toma cumade seu tição, que eu já não vou mais buscar o galão d água, agora eu vou é lá no tanque grande, olhar o forno, onde Anatildes tava queimando a loiça.
- Que loiça é essa cumpade?
- É as loiças, de barro, que ela faz, cumade!
- Ah! tá bom cumpade.
- Já tou indo cumade, e eu vou é aqui por dentro porque eu passo logo no pé de batata de puiga pra levar umas semente pra fazer um chá pra Anatildes, porque dizem que é bom pra afrouxar.
- Arra diabo com tanta tamiarana a me queimar; e agora, eu vou ter que passar por cima desta cerca de garrancho de marmeleiro, mais não é o diabo mesmo, eu podia ter vindo era pelo caminho de fora, ai meu Deus com tanta coisa pra fazer, e agora mais um menino, menino ou menina já vai ser bem dez, dez ou é nove, eu nem sei mais quantos são meu Deus, ainda bem que as vacas tão dando leite, porque se não eu não ia dar conta de dar comer a tanto minino, opa amanhã cedo eu vou mandar Seu Migué aqui pegar essa lenha seca que tem por aqui.
- Ah já tou vendo o forno, mais parece que o fogo tá apagado é até melhor, por que as loiças já tão fria, e tão mesmo, parece que tão tudo inteira pelo menos o álgüida, os pratinhos dos meninos também, ah tem um trincado, dois, mais tá bom, o pote tá inteiro, eita Anatildes vai ficar contente, quando eu disser a ela.
- E eu já vou embora, mais agora eu vou é pro fora, levo logo o pote, porque vai precisar muito dele pra butar água pra dá banho no menino, menino ou menina, seja lá o que for, hum esse danado é pesado, e tá quente mais num tem nada não, eu forro o ombro com foia de marmeleiro, ja vou andano num posso é escorregar, se não lá se vai o pote, e Anatildes fica com raiva, eita que tá pesando mais lá vou eu.
- Já tá chegando João, você agüenta, Seu Migué também já deve ta chegando, tá perto já tou vendo a casa, daqui a pouco eu tou lá, alá eu vou é descansar um pouco aqui, vala-me Deus, onde tá o fosco, ah eu vou deixar pra acender o cigarro em casa, bora andando seu pote que nós chega já, já, tá veno, já pisei no terreiro pronto cheguei.
- Vvocê chegou também né seu Migué?
- Agora o senhor vá jantar lá no pé do fogão, por que a lamparina tá ocupada.
- Qué tumar uma da minha garrafa seu João?
- Quero Seu Migué mais se for Chica boa.
- É não seu João, é cipoada.
- Me dá assim mesmo home, e quando o senhor acabar de comer o angu, vá vê se a cabra Canindé veio pro chiqueiro, porque agora à tardinha ela tava berrano lá no pé do serrotim.


SEU INÁCIO CAPIM E A ADJUNTA

- Anatildes vá preparando que na semana que vem, eu vou fazer uma adjunta, pra limpar a terra, pra plantar aquelas garrafas de feijão ligeiro.
- E eu vou fazer o que para eles comerem?
- Você vá logo pisando o milho para fazer o mugunzá, pois vai vim umas doze pessoas.
- Bem, eu só quero que você não chame seu Inácio capim.
- Por que?
- Por que você já sabe que ele come por uns quinze trabalhador.
- Ora quem vai vim é os filhos de Mané Pretin, os filhos de Siliqueira, os filhos de Sá Maria de Antonio Gino, Mané Caniço, João Cassiano, João de Badu, Manu de Badu e pronto.
- Então vamos fazer assim você mata um fulejo, que eu trato o fato pra fazer uma buchada, pra comer com mugunzá, no quebra-jejun e pronto. Para o almoço eu vou fazer as duas panelas grandes de angu pra comer com carne, e pra janta angu com leite.
- Tá bom.

E no dia da adjunta logo muito cedo Seu Migué foi buscar lenha, e Zé Brejeiro buscar água, pois o estoque de ambas tinha sido gasto durante a noite pra cozinhar o panelão de mugunzá, e João Nunes, antes de ir pro curral tirar o leite ordenou:

- Anatildes vá logo arrumar a comida porque os trabalhadores já tão pra chegar.

Todos esses trabalhadores moravam muito longe, mas chegaram muito cedo, e aí véi os cumprimentos.

- Bom dia João Nunes
- Bom dia Antonio da Cachoeira, bom dia Zé Siliqueira, bom dia Mané Canico, bom dia João Cassiano, bom dia Caetano Pedra, bom dia Antonio Preto, bom dia Mané Preto, bom dia Mané Pretin, bom dia Pereira Cassiano, bom dia Geraldo de Mané Pretin, bom dia seu Inácio Capim
- Ó João venha cá!
- O que é Anatildes? Venha mais pra perto, diga o que você quer!
- É que eu lhe pedi pra você não chamar seu Inácio Capim e você o chamou.
- Eu não chamei não, ele é que veio sem ser chamado, ele deve ter ouvido falar que eu ia fazer matutagem, e onde tem comida ele tá lá.
- Mais João ele vai comer toda essa comida que eu fiz pros trabalhador e os outros vão ficar sem nada.
- Num tem nada não, eu vou matar aquela bacorinha grande, só pra ele comer no almoço.
-Não faça isto, você não se lembra do dia da eleição, ele comeu tanta carne de porco que passou uma semana na beira do açude só bebendo água e cagando, sei não você é quem sabe, se ele morrer empanzinado eu não tenho culpa. E chame logo todos para quebrar o jejum e o de seu Inácio eu vou butar na tigela grande, e você João Nunes quando vê um pano branco na janela, é o sinal que o almoço tá pronto.

E seu Inácio que ainda se encontrava na mesa, ouviu bem o que Dona Anatildes falou sobre o motivo do pano na janela.

- Bem pessoal todo mundo já comeu, vamos lá, seu Migué, vá com eles, que eu vou pelar a bacorinha e vou depois.
- Onave você leve duas cabaças e vá carregando água pros trabalhador enquanto eu chego.

Todos eram bons trabalhadores,e o serviço ia muito bem, mas seu Inácio não tirava os olhos da janela. João Nunes chegou com três rapaduras que logo foram engolidas num piscar de olhos. Mas o serviço tava bem adiantado. E mais tarde João Nunes foi ao batedor, e trouxe duas cuias grandes cheias de pinhas bem maduras, que ele tinha colocado pra amadurecer no calor da palha de arroz batido recentemente e essas logo foram devoradas, e seu Inácio foi quem comeu a metade. O serviço que estava sendo feito ia tomando o rumo dos pés de goiabas, e seu Inácio era quem puxava o eito. Olhava pra casa para ver se o pano aparecia na janela, e olhava para os pés de goiabas que estavam cheios de belos frutos. Quando o eito chegou nas goiabeiras ele começou a comer tudo que estava na sua frente, olhou pra casa e falou com a boca cheia.

- João Nunes, o pano tá na janela o almoço já tá pronto.

Nisso ele encheu o chapéu de goiabas e saiu comendo no caminho de casa. Todas as pessoas almoçaram e foram amolar suas enxadas, menos seu Inácio, que ficou na mesa raspando as vasilhas que ainda tinham restos de carne da porquinha. E quando Dona Anatildes foi pegar os pratos da mesa, ele disse uma frase, que ficou lembrada por muito tempo:

- Natila, bote fogo no feijão da janta, e aumente a quantidade.

O sol abriu forte durante à tarde, e todos bebiam muita água, principalmente seu Inácio, que bebia direto na boca da cabaça, e Onave afinou as canelas de tanto andar pra lá e pra cá, carregando água. João Nunes já estava preocupado por que ele estava peidando muito, e cagando debaixo dos pés de goiaba, e daí a pouco não saía mais de lá. Bebeu mais uma cabaça de água e começou a vomitar, aí foi quando Antônio de Mané Pretin receitou um chá de casca de pereiro preto misturado com raiz de quebra faca e rompe gibão. Seu Migué correu em casa agilizou tudo, e seu Inácio bebeu fazendo uma careta dos diabos, e mais tarde ele botou o resto pra fora, por cima e por baixo.


SÃO MATEUS

Dona Anatildes sempre que podia ia visitar sua mãe, conhecida como Mãe Toinha, que vivia separado de seu esposo, Matias Cazumbá. Ambos eram donos do sítio São Mateus, um lugar muito agradável. Ela era morena, tinha os cabelos escorridos e retintos, apesar de já ser velha, morava num casarão que fica em cima de um alto, de frente para um vale estreito de onde pode se ver toda propriedade, no vale tem um açude que represa água, espraiada, criando assim uma condição ideal para o plantio de arroz, no período cheio, na vazante, bom para plantar batata, milho, feijão ligeiro, jerimum, melancia capim de cortes e outros. Atrás do baldo tinha uma grande área, plantada de bananeiras coco e cana, dessa ultima fazia-se rapadura em um engenho bem estalado, tudo produzia bem, por que essa área era irrigada pela revença natural do açude que é constante e nas terras altas plantavam-se o algodão siridó, o milho, feijão de cordas e outras culturas. Criavam-se ovelhas, gado cabra, muitos porcos, galinhas e perus. Na casa tinha três criados permanentes, que era o João Brejeiro, Zé Pé Torto, que só vivia coçando as comichões das virilhas, e por último a temível Nega Chica que era o terror dos meninos que dona Toinha criava. Numa das visitas de Dona Anatildes a sua mãe, a velha pediu Onave para morar com ela, pois já criava outro neto de nome José Matias, sendo o pedido aceito, porque para Dona Anatildes aquilo era como um alivio, pois ela tinha muitos filhos. Mas quem não gostou de jeito nenhum foi a Nega Chica, que talvez até tivesse seus justos motivos, pois Zé Matias já lhes dava muito trabalho, tinha sido criado na cidade, onde sempre vivera bem perto da molecada da rua, com quem tinha aprendido a dar rasteira em cegos, só pra ver a queda, era mais velho do que Onave, e gostava de ensinar a este seus super-conhecimentos, porque Onave era bestinha, e ao contrario dele, tinha sido criado na roça. A Chica permaneceu de cara fechada durante aqueles dias que Dona Anatildes esteve na casa da sua mãe, e quando esta voltou pra sua casa, ela disse pra Mãe Toinha, daqui pra frente, vai ser o professor e o aluno ambos juntos morando na mesma casa, alegou também que nunca ia esquecer o que tinha acontecido com ela, naquele dia terrível, que ela nem gostava de falar, pra não lembrar daquilo, esse tal caso, tinha acontecido uma outra vez que Onave tinha passado uns dias naquela casa, ele estava vindo do engenho, com uma cabaça cheia de mel quente, mas quando essa ia sendo passada da mão dele pra dela escapuliu, e espatifou-se em cima dos pés dela, a queimadura foi horrível, e até aquela data não tinha nascido as unhas. Dali pra frente foi uma guerra declarada, pois ela tinha carta branca, assinada por Mãe Toinha, para agir da maneira que achasse certo, inclusive usar o chicote que vivia pendurado num torno ao alcance de sua mão, e Onave para descontar chegava perto dela e dizia:

- Toma Chica , o que eu trouxe pra tu.

E quando ela abria a mão, Onave soltava bosta de galinha dentro da mão dela, e saáa correndo.
Certo dia Onave brincava numas ruínas onde na antiguidade alguém tinha morado lá, e de súbito correu para casa gritando:

- Toma Chica , o que eu trouxe pra tu.

Na certeza de ser titica de galinha, a Nega Chica saltou em seu braço, e o conduziu à presença de dona Toinha, que já veio com um chicote, e gritando:

- Abra mão, moleque.

E quando Onave abriu a velha ficou pasma, pois ali estava uma peça de ouro de valor incalculável, mas assim que Mãe Toinha virou as costas, a Nega Chica ameaçou:

- Você vai me pagar caro por essa.

Alguns dias depois, dona Toinha foi fazer suas compras na cidade, Onave foi logo lá, pro sitio das bananeiras, pois sabia que se a Nega Chica lhe pegasse ia trancá-lo lá no sótão onde só tinha morcegos e teia de aranhas. Já sabendo onde tinha um cacho de banana madura, Onave foi direto pra lá, onde comeu algumas, chupou cana, bebeu água de coco e deitou-se na sombra das bananeiras, ouviu um chiado nas folhas secas e notou logo que era a Nega Chica, a sua procura para ir ajudá-la a dar comida aos porcos, de súbito ela deu um pulo, e de sua boca sai um urro que foi ouvido de longe. João Brejeiro tinha se esquecido de desarmar a arataca de pegar guaxinim chupador de cana, e por falta de sorte, quem caiu nela foi a Chica sua preferida, que deu um trabalho danado para tira-la de lá. Porém quando esta se viu livre da arataca, pegou o João Brejeiro pelo braço, e deu-lhe meia dúzia de sopapos nas ventas dele.
Meses depois Mãe Toinha foi à casa de Simeão Gentil, e mandou Chica cozinhar dois tachos de jirimum para dar aos porcos.

- Tá bem Mãe Toinha, mas Onave vai ajudar, sentenciou ela.

E assim foi feito, depois de tudo cozinhado ela chamou Onave para ajudar a tirar os dois tacho de cima do grande fogão e como Onave era pequeno teve que ficar em cima deste, e com muito sobe e desce da parte dele, finalmente conseguiram botar um tacho no chão. Sobe novamente e segura na asa do outro e lá se vem pela beira daquele fogo terrível, mais de nada podia reclamar, pois a Chica não admitia moleza e com muito sacrifício o outro tacho chegou ao chão sem problema, agora era só deixar esfriar e distribuir entre a porcada que há muito tempo grunhiam no pé da porta por causa do cheiro. Nisso Zé Pé Torto chega com os braços carregados de lenha e joga perto do fogão, uma lasca levantou a ponta que veio no rumo da Chica que para se livrar dela, pulou de costas e pisou bem no meio de um dos tachos de abobara quente, e lá se vai mais descontos de pecado.

O PRIMEIRO PROBLEMA COM OS GATOS

- Bom dia dona Toinha.
- Bom dia Mané Fele, imboque e sente-se.
- Não dona Antonia, eu tô com pressa.
- Alguma coisa grave?
- Mais ou menos.
- Como assim?
- Eu só vim saber da senhora se seus gatos domem em casa toda noite?
- Mais Mané Fele, como eu posso saber se meus gatos dormem em casa toda noite. Pois eu nem sei quantos são ao todo. Porque essa pergunta?
- É porque eu tenho uma acusação para fazer contra os seus gatos que tão roubando lá em casa. E pra não fazer julgamento precipitado, eu tomei o cuidado de seguir os rastros deles, saindo de sua casa, indo pra minha e voltando da minha pra sua.
- E eles roubam o que lá?
- Ora dona Toinha, o prejuízo é grande!
- Como assim Mané, fale?
- Ora dona Toinha, Todo dia eu vou pescar no açude, e pego algumas traíras, boto na vara pra secar, e quando Chiquinha vai pegar pra butá na panela só acha o cambito. Pego preá, pego punaré, pego tejo, penduro pra secar lá na vara e eles carregam tudo. Ontem mesmo, eu peguei um camaleão grande que parecia um crocodilo. Tirei o couro, salguei, e butei lá pra secar. E quando Chiquinha foi pegar ele pra fazer a janta, só achou o cambito.
- Ora Mané Fele você também tá querendo de mais.
- Porque dona Antonia?
- Ora porque! Se você pega as traíras é no meu açude, se pega preá é na minha roça, se pega punaré é lá nas minhas capoeiras, se pega camaleão é lá nos meus pés de oiticica, o certo era que, quando você pegasse um bicho desse, viesse me trazer uma banda, e não vir dar queixa de meus gatos. E me faça um favor! Não me fale mais nisso.

E como podemos ver, reclamações era o que não faltava naquela casa, mas dona Toinha era uma mulher de temperamento muito forte, por isso ela conseguia administrar São Mateus com seu braço de ferro; mas desta vez, o aborrecimento dela era com os gatos.

- Chica, chame João Brejeiro aqui, mas não vai ficar se arreganhando pra ele, tá ouvindo?
- Tô Mãe Toinha, e agora eu não posso nem mais dá um bom dia pro Joãozinho, que a senhora já fica falando.
- Vá logo chamá-lo.
- Já vou indo.

Logo João se apresenta todo desconfiando.

- O que é dona Antonia?
- Já deu comida pros porcos?
- Já.
-Tá bem. Eu quero que você vá lá na casa de Severino Capa-tudo.
- Onde é que fica isso.
- Lá no juremá e diga a ele pra vir aqui amanhã cedo fazer umas capações.
- Mais dona Toinha não tem nenhum barrão pra capar.
- Eu não vou capar barão não, João Brejeiro, eu vou mandar capar é esses gatos pedinchões, que não saem do pé do fogão, principalmente no dia que a Chica vai tratar peixe.

Como de fato! Pois para todos os lados que se olhava, só se via gatos pedinchões miando suplicantemente, e roçando nas pernas da Chica . Era uma coisa de dar dor de cabeça, até em cabeça de prego. E dor de dente em serrote. E tem mais uma coisa! Continuou ela:

- Eu nunca vi render tanto. As cabras não rendem. As ovelhas não rendem. As vacas nem se fala, mas as gatas parem toda hora, e eu acho que até os gatos machos tão parindo também, por que toda hora aparece uma nova ninhada, e essas diabas quando tão paridas roubam tudo que é coisa nesta casa, vão à tigela do leite, lambem os pratos, comem o indez do ninho das galinhas, comeram o indez do ninho das piruás, daqui a pouco eles vão comer até o galo.
- Vá logo e diga pra ele trazer todos os canivetes de capar gatos cachorro, galo, porco e tudo mais, traz também o de capar cavalo? E mande ele trazer também o canivete de capar home.
- Pra que dona Toinha?
- Pra capar você, pra não mexer mais com Chica.
- Comigo mesmo não oxente.
- Como não é Chica !Onave é quem trás as noticias, vá logo João e deixe de conversa fiada, pois eu não sou cega para não ver as coisas.

E no outro dia Severino Capa-tudo chegou cedo, e mais cedo tinha se levantado João Brejeiro, pois já tinha enchido até a boca vários sacos de gato e os amarrados com embira de croá. Quando João Brejeiro viu Severino tirar as facas de dentro do bisaco e amolá-las numa pedra ele começou a tremer, pois ele lembrara-se que dona Toinha tinha prometido de fazer com ele o mesmo que ia fazer com os gatos, e alegou que não ia poder ajudar a segurar os gatos por que estava com muita dor de barriga, e Chica fazia sinais pra ele sair dali. Chamaram Zé Pé Torto pra ajudar e esse pegou o primeiro gato pelo rabo enfiou debaixo do sovaco e apertou o braço, apertou mais, gritou:

- Chega logo seu Severino que eu não agüento mais!

Como de fato! Não podia mesmo agüentar, pois o gato tinha rasgado a camisa dele com as unhas, mordido ele todo feito um estrago terrível nos braços e costelas dele, apesar de muito prático. Severino conseguiu tirar umas das bolas, e ao puxar a outra o Zé não agüentou mais, afrouxou o braço, e o gato escapuliu, Severino ficou com a faca na mão e o gato correu pro mato arrastando o outro ovo, e o Zé por nada mais deste mundo queria segurar gato. Como Zé não tinha mais condições de ajudar, o Severino Capa-tudo teve que usar a sabedoria, com as mãos enroladas num saco de estopa, pegava um gato o espremia entre uma porta e o portal, isto é, ficava cabeça e mãos para um lado, pernas e rabo pro outro lado, dona Toinha forçava a porta, a Chica segurava as pernas e levantava o rabo, e Severino executava a operação com habilidade, e ao terminar o trabalho com os gatos, dona Toinha resolveu capar também o jumento. Porem a Chica logo se opôs, argumentando que ela não devia fazer isso com o bichinho, pelo contrário devia era pegar a jumenta de Mané Fele, e butar junta com ele pra fazer pelo menos uns dois ou mais jumentinhos, pois a quinta perna do coitado só vive dura.

- Ah não, ele não faz filho, assegurou dona Toinha.
- Por que não faz filho? Perguntou Severino Capa-tudo.
- Porque ele não sai de cima da jumenta de João Brabo, e eu nunca vi nascer nenhum filho dela.
- Quanto tempo faz isso dona Antônia? perguntou Severino.
- Já faz é dois anos! E a Chica fica só olhando esse serviço nojento.
- Eu mesmo não oxente!
- Ah!, dona Antônia, jumento passa de dois a três anos no bucho da mãe, e só nasce no dia que quer.
- Ah é assim! , eu não sabia dessa não Severino.
- Pois é, eu já vi isso muitas vezes. Ele bota a cabeça pra fora olha o tempo se tá chovendo recua, agora só na outra lua, e assim vai levando, espere mais um ano Mãe Toinha.
- Eu vou esperar Chica, pode ser que nasça um jumentinho, então uma banda será minha a outra de João Brabo. Mais se nesse tempo não nascer nada eu mando cortar pelo tronco aquela sacaria dele, aí ele vai deixar de morder gente, porque por causa dele ser inteiro, é que quase matou o Zé Pé Torto naquele dia que a corda do cabresto dele enrolou no pé do coitado e saiu arrastando ele a tarde toda lá pela roça, é por isso que até hoje ele manca daquela perna.
- É mesmo Mãe Toinha, o coitado do Zé é sem sorte. Viu o que o gato fez hoje com ele?
- Vi Chica, mais era bom que fosse o João Brejeiro no lugar dele.

Mesmo assim com esse controle rigoroso na natalidade dos gatos, não faltava ninhada de gatinhos para aborrecimento de dona Toinha, e toda hora aparecia outros gatos machos que vinha da vizinhança para substituir os que tinham sido capados, pois as gatas fêmeas não ficavam sem um namorado.
e dias depois, mais reclamações.

- Mãe toiiiiinha ou Mãe Toinha os porcos tão na cozinha comendo as batatas.
- Corre lá Chica, pra ajudar a Onave a butar os porcos para fora, depois, feixe bem aquela porta, foi você mesma que deixou ela aberta.
- Não foi eu não Mãe Toinha, foi Onave!
- Foi ela Mãe Toinha.
- Onave, amanhã Mãe Toinha vai pra rua e você vai me pagar caro o milho que a cabra comeu!
- Não fui eu não, Chica.
- Ó Mãe Toinha venha ver o buraco que os porcos fizeram do fundo, onde fica o paiol de milho, e a Chica tá dizendo que eu deixei a porta aberta pra eles entrarem.
-Chica você não tinha dado fé disso.
- Não Mãe Toinha, eu não tinha visto isto não.
- Você não tem tempo para ver os porcos furarem um buraco na parede tão perto da cozinha, onde você fica o dia todo, mas tem tempo pra encontrar com João Brejeiro lá dentro dos algodoais, agora você me diga que é mentira.
- Eu mesmo não oxente, é Zé Pé Torto que tá inventando isto Mãe Toinha.
- Inventando não, que eu já vi você lá no armazém de noite com ele, eu fui lá levar fumo pra ele Mãe Toinha.
- E por que ele não vem buscar aqui, você vai pra lá é pra se agarrar com ele.
- Eu mesmo não.
- É sim, Onave já viu também, e cale a boca, o jeito que tem é pegar o pilão e encostar na parede pra tapar o buraco, em quanto eu volto da rua, pra mandar consertar.
- Mas a senhora sabe que só um homem de força pra levar o pilão até lá.
- Você só fala em homem, né Chica ? Então Onave fica na boca do buraco pra vigiar os porcos até João Brejeiro e Zé Pé Torto chegar da roça, mesmo assim eu não sei se aqueles dois molengas vão dar conta de levar o pilão ate lá.
- Dá Mãe Toinha.
- Ainda bem que você já conhece a força de João Brejeiro, não é Chica?
- Sei não, Mãe Toinha
- E João Brejeiro já vem chegando, Chica
-Já vi! Onave, mas eu quero que você fique ai até de noite.
- Mãe Toinha João Brejeiro e Zé Pé Torto já chegaram, mande logo eles butar o pilão aqui.
- Chica mande eles tapar esse buraco logo, e você vá butar logo a janta na mesa, antes que escureça. E você Zé Matias não vá ficar atentando a Chica amanhã na minha ausência, você já sabe que ela me conta tudo.
- A janta tá pronta Mãe Toinha?
- Você só lembra de comida não é Onave?
- Foi Chica que falou.
- Vá vê se ela tá no escuro mais João Brejeiro.
- Tô aqui Mãe Toinha.
- Então, chame todos pra jantar, e mais tarde não é pra ir levar fumo pra ninguém.
- O buraco tá fechado, dona Antonia.
- Tá bom Zé, já jantou já, então vá dormir que amanhã tem que levantar cedo pra pegar o jumento e levar a carga de banana pro barracão de Pedro Gentil, que eu vou a cidade logo cedo.
- Tá bom dona Toinha, boa noite.
- Até amanhã Zé.

E de madrugada o jumento rinchou, Zé Pé Torto acordou e foi busca-lo, colocou a cangalha e teve que se abaixar pra pegar a ponta da cia por baixo da barriga dele, e o jegue não gostava nem um pouco disso, mas mesmo assim ele conseguiu apertar a primeira cia, e essa repuxou os cabelos da barriga e o jegue ficou mais aborrecido ainda, e quando o Zé se abaixou pra pegar a ponta da outra cia, o jegue que já estava danado da vida, murchou as orelhas e cravou os dentes numa banda da bunda do Zé, e esse deu um grito que acordou a casa toda. A cia que já estava apertada e afivelada puxava os cabelos da barriga do jumento e ele continuava fisgado na bunda do Zé Pé Torto, que não parava de gritar pedindo ajuda a tudo que é de santos lá do céu e quando o grupo de socorro chegou no local do desastre ficaram sem saber o que fazer, por que o Zé tava de quatro pé e o jegue de dente infincado numa banda da bunda dele; foi preciso usar o cabo de uma foice e um de machado pra abrir a queixada do jumento, livrando assim o Zé daquele sofrimento terrível. Como o Zé não podia andar dona Toinha mandou o João levar as bananas, mas recomendou.

- João Brejeiro, não ande na frente deste jumento, e você Chica vá lavar a trouxa de roupa lá no açude, feche a casa e leve a chave se não os meninos vão comer as batidas e os afinins que tão guardados nos potes de farinha na dispensa, ta ouvindo bem?
- Tô Mãe Toinha, e a senhora mande também os meninos butar água pra encher o tacho do batedor.
- Tão ouvindo Zé Matias, mais Onave?
- Tamos Mãe Toinha.
- Então tá, dito, seu Onave mais seu Zé Matias.
- Sim, sim, e eu já vou indo.

Nisto a Chica ordena Onave mais Zé:

- Vão pra fora, que eu vou fechar a casa.
- Chica , você podia cozinhar uma cuia de batata pra gente comer.
- Nada disso hoje aqui niguém vai comer, e saiam logo se não.
- Se não o que? Então nós dois não vamos butar água pra você lavar a roupa, nós vamos é chupar cana o dia todo.
- Então eu não vou lavar a roupa de vocês principalmente aquelas roupas fedorentas a mijo, e quando Mãe Toinha chegar vocês vão ver.

Já tendo chegado no barracão, dona Toinha ordena:

- João Brejeiro você já descarregou as bananas, vá logo embora, e diga a Chica pra dar o almoço dos meninos na hora certa.
- Tá bom, dona Toinha, agora, jumento danado eu vou é montado em você, e ainda vou botar os pés dentro dos caçoás.

Pataco, pataco, pataco, passou na casa de Simeão dobrou pra esquerda depois virou pra direita e seguiu em frente.

- Diabo vou ter que descer pra abrir aquela porteira, hei pare ai jegue danado, eita, lá tá Chica lavando roupa e eu vou gritar pra ela vim abrir a porteira.
- Chiiiica abra aqui pra mim a porteira.
- Vou se você vir butá água pra min lavar a roupa.
- Não precisa você vim abrir não, eu vou butá água pra você lavar a roupa, e depois você...
- Você, você o que?
- Hum assim não, os meninos vão ver.
- Ver o que?
- Você me pegando.
- Ah, eu já vou.
- Venha logo butar a água.
- Vou, tô indo.
- Vem logo chega pra cá.
- Pronto cheguei, agora eu vou encher tudo de água pra você.
- Tá bom, ai aiii me solta Joãozinho, agora vá que eu termino já, e vou fazer o almoço pra nós dois.
- Ah, eu só vou almoçar lá pra mais tarde, por que eu vou lá no Tamanduá tapar uns buracos de cerca.
- Ta bom, tá aiiii tá booomm, eu chamo os meninos pra me ajudar a levar a trouxa de roupa molhada. Eita João Brejeiro danado, só quer me apertar, epa ainda bem que eu terminei agora eu vou gritar os meninos pra me ajudar.
- Onaaave ô Onave.
-O que, é?
- Venha mais Zé Matias me ajudar a levar as roupas, que quando eu chegar em casa, dou a cada um de vocês um taco de rapadura bem grande.
- Então nós vamos, bora Zé, vamos.
- Aagora vocês peguem de um lado da bacia que eu pego do outro, e vamos andando ligeiro, ligeiro, mais ligeiro.
- Tá pesando muito Chica.
- Tá chegando, é já a gente chega.
- Tá pesado, tá pesado.
- Pronto, chegou bote aqui na calçada, que agora eu vou abrir a porta, cadê, a chave onde eu butei valei me Deus será que eu perdi vou lá no açude vê se ficou lá na tabua, e agora meu pai do céu aqui também não tá, será, que quando eu sacudi a roupa ela caiu dentro d’água, ou da trouxa de roupa, também não tá, o que é que eu faço meu Deus, já sei lá no pitisqueiro tem outra chave e eu vou entrar pelo buraco que os porcos furaram na parede e passo pra cozinha e de lá eu entro na casa e pego a chave, ah, mais tem o pilão e quem vai tira-lo de lá, Zé Pé-torto não pode nem andar por causa da mordida daquele diabo daquele jumento, João não tá aqui.
- Ô Onave mais Zé Matias vamos vê se nos tira o pilão lá da boca do buraco que os porcos fizeram na parede do fundo.
- Ah, Chica , nos três não vamos tirar ele de lá nunca.
- Eu dou um taco de alfenim, pra cada um de vocês.
- Então me de logo.
- Como, se a casa tá fechada, me ajude a tirar o pilão que eu entro pelo buraco, e pego o alfenim pra vocês, então vamos pegue desse lado, botem força.
- Onave, cuidado se não ele cai, empurra Zé, vá rodando, tá quase bom, ai já dá pra entrar.
- Tá torto Chica, vai cair.
- Cai não, vocês ficam segurando que eu já vou entrar mais muito cuidado, se não...
- Ah não, aqui tem formiga preta, e tá ferroando nos meus pés.
- Segura que eu já enfeei a cabeça.
- Então entre logo toda Chica danada.
- Pêra ai, ai não vai passar meus ombros, passou, passou, agora é a cintura, passou também, agora é a bunda que não passa, ai meu Deus não vai dar pra passar.
- Onave deixe Zé segurando o pilão, e você tente tirar esse tijolo, que ta impedindo que minha bunda passe.
- Eu não seguro só não Chica, ele tá torto.
- Ai, as formigas tão mordendo minha barriga, eu bem que falei eu vou voltar, ai meu braço tá preso, ai as formigas, ai meu Deus ai, puxe aí a minha saia, e cubra minha bunda.

Mas a tal saia tava lá perto do pescoço dela.

- Segura Zé, segura Zé, o pilão vai cair por cima da Chica, cá á caiu, ai, ai, ai.
- Corre Onave vai chamar Zé Pé Torto.
- Ai, ai, eu já tô aqui mais não posso andar, vão buscar João Brejeiro.
- Não, não, eu não quero que ele me veja assim, com a saia no espinhaço, e sem a roupa de baixo, vão chamar a mulher de Manoel Fele, e a mulher de Chico-tripa.
- Mais elas não vão levantar esse pilão.
- Levantam, Zé Pé Torto ajuda.
- Então vão os meninos.
- Vão correndo, ai meu Deus aiaiai, as formigas vão me comer viva, e essa dor horrível nos quartos, eu acho que o pilão quebrou meu espinhaço.
- Quebrou não Chica.
- Vá embora daqui Zé Pé Torto, e não olhe pra cá, aiaiai os meninos já tão vindo, não ah já vem com Chiquinha de Mané Fele, e a muié de Chico-tripa, ai ai ai aiiiiii me tire dessas formiga dos diabo!
- Chegamos Chica.
- Pegue aqui cumade.
- Não dá pra levantar não cumade Chiquinha.
- Bote força cumade.
- Já butííí cumade, lá vem João Brejeiro, chame ele aqui.
- Não, não, chame não, dona Chiquinha, ai as formigas, cubra minha bunda.
- Não tem com que, a saia ta lá pra dentro, e a casa tá fechada, ai meu Deus ajude aqui João Brejeiro, Mané Fele também chegou, junta todo mundo, vamos, vamos, vamos, levanta, levanta.
- Tiramos o pilão agora puxe ela pelas pernas, João Brejeiro, empurre o braço dela, assim, pronto, saiu, saiu.
- Agora Onave que é pequeno entra, onde tá a chave Chica?
- Tá na gaveta do petisqueiro.
- Sente aqui Chica , que eu vou fazer um chá de capim santo pra você tomar, tá doendo?
- Não.
- Ainda bem que sua bunda serviu de almofadas naturais e ajudaram a amortecer a pancada do pilão

A ARAPUÁ

- Ó Chica, chame João Brejeiro aqui. Mas não precisa ir lá não, você grita e ele vem. E é pra acabar com esses encontros entre você ele.
- Oxente Mãe Toinha! Agora eu nem posso mais chegar perto do João.
- Pode não Chica ! Você fica escondida mais ele dentro do mato, e pensa que eu não sei de nada.

Enquanto isso Chica grita e João Brejeiro se apresenta todo sem jeito, pois estava ouvindo tudo que dona Toinha estava falando com Chica.

- O que a senhora quer comigo dona Toinha?
- É pra você ir lá pro deposito, pegar aquele bolo de cera de abelhas, derreter ela num caco de panela, depois que ela tiver bem quente você vai vedar as bocas dos ciros de feijão e milho, pra não entrar gorgulhos.
- Mãe Toinha! Mané Fele disse que o nome não é ciro não!
- E cuma é Chica?
- É silo!
- A que besteira essa sua, eu chamo é ciro e pronto.

E mais tarde João Brejeiro volta dizendo que lá não tinha encontrado nenhum bolo de cera.

- Escarafunchei tudo e não achei nada de cera, deve ter sido os gatos que comeram.
- Ó João Brejeiro! Quem foi que já viu gato comer cera de abelha? Principalmente de arapuá, que fede a bosta de raposa.
- Mais eu vi eles mastigando uma coisa!
- Que coisa danada João bobo.
- E agora eu vou fazer o que?
- Você vai pro mato caçar arapuá, pra tirar a cera deles, pra gente vedar com ela a boca desses ciros, porque se não os gorgulhos vão comer tudo que tem dentro deles.
- E eu vou só?
- Não João! Você chama João Brabo, e Chico Lapilango, pra ir com você. Leve foice machado e facão. E só volte aqui com muita cera.
- Então eu vou logo tirar aquele lá do pé de manga detrás do baldo do açude.
- Ta bem, mas tenha muito cuidado! Porque a aquela mangueira é muito alta e o arapuá fica lá na ponta das gaias, e ainda tem aquele poço de água que é muito fundo, e quando você cortar a gaia, ele pode cair bem dentro dele.
- Nada dona Toinha eu boto Chico Lapilango pra segurar a gaia pra não cair dento do poço d água.
- Deixe de render conversa João Brejeiro! Saia daqui logo, e vá chamar os outros pra lhe ajudar, E antes de subirem no pé de manga, tapem bem os ouvidos com algodão. E na hora H não abram a boca, porque se não vocês vão comer abelhas até empanzinar. E você Chica chame os meninos, e diga pra eles não irem pra lá.

Mas menino é menino, e eles iam fazer tudo para estar presentes num acontecimento daquele. Pois o antigo arapuá do velho pé de manga, já era um antigo conhecido deles. Pois tinha a porta de entrada e saída das abelhas, toda rebentada de tanto receber pedradas, enviadas por eles Todos os dias. E quando ouvia voz de gente ficava pior ainda e não deixava ninguém chupar uma manga nas horas que ele estava assanhado. Logo Zé brejeiro foi chamar Chico Lapilango e João Brejeiro foi chamar o outro João. E em instantes os três já estavam com tudo pronto para dar inicio a operação arapuá. João Brabo, Chico Lapilango, e João Brejeiro se reuniram debaixo do velho pé de mangas, para discutirem como iriam fazer para enfrentar lá em cima o velho arapuá, que já estava zangado com a conversa deles lá em baixo. Chico Lapilango subiu na frente, para ficar na ponta das ramas segurando as galhas onde estava a casa das abelhas, para  que essa  não caisse quando o galho fosse cortado. João Brejeiro subiu logo atrás, com uma foice na mão direita, para cortar a galha onde estava casa do arapuá. E João Brabo foi pra serra do Tamanduá à procura de outras casas destas abelhas. Como as abelhas já estavam assanhadas, vieram encontrar eles no inicio da subida. E com muito sacrifício Chico Lapilango chegou na casa das delas e tapou a boca desta com sua camisa. E em seguida passou pra ponta das ramas, sentou num gancho de outra galha vizinha, e segurou firme com as duas mãos, a galha que estava à casa do arapuá. E João Brejeiro que vinha atrás, não contou conversa fiada, enfiou a foice pra dentro com vontade de acabar logo com aquilo, que a essas alturas do campeonato já estava insuportável permanecer ali, pois as abelhas que estavam fora da casa, já eram suficiente para botar pra correr muitos homens, veja lá dois. A galha era grossa! Mas o peso daquela casa de abelhas ajudou a puxar tudo pra baixo. O arapuá desceu na frente, e Chico Lapilango desceu atrás, agarrado na ponta da galharia. E sumiram dentro do poço de águas escuras. E João Brejeiro foi catapulpado em outra direção, pois a galha quando se viu livre do peso que a vergava, voltou a antiga posição com tanta velocidade que o João não conseguiu tirar a cara da frente e se segurar. O sopapo recebido no rosto espragatou as ventas dele que ficou tonto, e se desequilibrou mais ainda. Bateu num galho, bateu em outro, e foi descendo suavemente, até chegar no chão de lama da beira do buraco onde estava seu companheiro de sofrimento. E por sorte nenhum dos dois ficou ferido com gravidade pois a queda foi amortecida pela galharia fina da mangueira, e lá embaixo pela a água e a lama.

E dias depois, mais uma das besteiras do João Brejeiro

- Ouu João brejeiiiiiiiiro!
- O que é dona Toinha?
- Olhe eu vou pra rua hoje, e você vá tirar todos os cachos de cocos, que tiver lá nos coqueiros.
- Tá bem dona Toinha.
- Você leva a escada grande, encosta no pé de coco sobe nela, amarra os cachos bem firme, corta o braço que sustenta as pencas, e vai descendo-as com cuidado para não estourar os frutos na queda. E Zé brejeiro bota a cangalha e os caçoas no jumento e vai carregando pra casa.
- E você Onave mais José! Não é pra ficarem atrapalhando o serviço deles, ouviram?
- Sim Mãe Toinha!

O João encostou a escada no coqueiro, e subiu até alcançar os cachos. Pegou a corda e com uma ponta desta amarrou bem firme uma grande penca de frutos. E a outra ponta foi fixada, bem acima na ponta da escada para quando o braço que sustenta o cacho fosse cortado este seria descido suavemente pela corda até o chão. Até aí o João fez tudo certo! Mas na hora de cortar o braço do cacho ele errou golpe, o facão estava amolado até de mais, cortou o braço juntamente com a corda. E tudo desceu lá de cima, na queda o cacho empurrou o João na frente dele. E este bateu no chão de pernas abertas, e o grande cacho de cocos, caiu bem em cima da penca do João. Que por isso passou muito tempo sem poder andar.


CHICA TABOCA

Seu nome era Francisca Pureza Leal, porem tudo deste personagem era um contraste, assinava leal, mas era muito desleal e volúvel, e às impurezas do mundo todo estava com ela, pois só tinha pureza no sobrenome. Tinha vivido muitos anos num bando de ciganos, onde aprendera de tudo, isto é, menos coisas boas, pois ela sabia roubar uma galinha na frente do dono e este não via. Sabia como tirar a ferrugem dos dentes de um cavalo velho escovar o seu pelo e pintar os cabelos brancos e o vender como se fosse novo. E certa feita, quando o bando passava por São Mateus, ela conheceu o Chico Lapilango, e resolveu abandonar o bando pra ficar com ele. E deste dia pra frente às galinhas da redondeza, sumiam misteriosamente. Mas as pessoas sabiam que, o destino final delas era na panela do nobre casal, o senhor Lapilango e a senhora dona Pureza. Que era uma sirigaita muito parecida com uma alma de gato. E junta com seu marido sabiam da lição a rato gabiru, para este aprender como é que rouba. Ela era magra, muito magra. Mesmo. Pescoço fino e comprido e o rosto comido pelas bexigas, a barriga era esquia e as pernas finas que pareciam palitos. E duas listas de qualquer tecido davam pra fazer um vestido modelo bainha para vestir nela. Pois ela era capaz de se vestir numa casca de cobra. E o povo dizia que ela era capaz de se deitar em cima de um agulha e se cobrir com a linha. E foi esse perfil que lhe deu origem ao nome. Pois era muito parecida com uma vara de taboca. Mesmo estando com Chico Lapilango tinha uma fama terrível de ser leviana. E por isso os dois levavam uma vida que os diabos lá nos inferno chamavam de boa, porque a Taboca só vivia nas capoeiras se espojando no chão com os homens. E o Chico se comia de ciúmes. O tempo passou e a essas alturas ela já tinha parido nove filhos, e, mas línguas diziam que cada um tinha um pai. O Chico era filho do Chico Butico, o João era filho do João Brabo. O Pedro era filho do Pedro Melado, o Zé era filho do Zé Brito, o Antonio era filho do Antonio Sapateiro, o Severino era filho do Severino da Quixaba, o Raimundo era filho do Raimundo Pires, a Antonia era filha do Antonio Gonzaga, e a Severina era filha do Severino Capa-tudo lá do jurema. E se o que o povo dizia era verdade, o Chico Lapilango só podia ser estéril. E não era pra se duvidar, porque cada menino era diferente do outro, tanto na cor como no cabelo. A Chica era lavadeira e engomadeira de roupas, e vendia seus serviços às famílias da vizinhança. Como dona Cecília nora de dona Toinha, dona Maura, esposa de Semeão Gentil, a família de Pedro Gentil, a família de Virginio Cazumbá e outros. Aproveitava a noite para engomar as roupas que tinha lavado durante o dia. E quando pegava no ferro de passar, não parava mais de cantar e dançar em volta da mesa de engomar. E isso deixava Chico Lapilango mais aborrecido ainda. Lavando roupas lá no açude, ela tinha conhecido Nega Chica, e daí pra frente, as duas ficaram amigas inseparáveis. E quando andavam juntas nas festas dava muito que falar. Gostavam de dançar mazurca e o xaxado da terra na ponta dos pés. E não perdiam uma pandega fosse ela onde fosse. E Chico Lapilango que ficasse em casa cuidando dos meninos. E quando a Chica chegava no outro dia cheia de ressaca ele que não ficasse calado. Pois a Chica era mais valente do uma cachorra pitibú quando tá parida. E a Nega Chica não ficava atrás, fazia o mesmo com João Brejeiro, que a essas alturas já estavam de casamento marcado, pois essa já carregava um menino no bucho, que um outro amigo dela tinha feito e não podia aparecer como pai. E o João Brejeiro que pagasse o milho que a cabra tinha comido. O pai do menino era branco, e agora! Se o menino saísse igual a ele, pois esse era noivo de uma moça muito ciumenta e se a noiva soubesse, o mundo ia ser virado de pernas pra cima. João Brejeiro era um cabrocho sarará pintado puxando para o vermelho, e o cabelo cor de labareda. portanto já se sabia que o menino não ia ser nada parecido com ele. Mas dona Toinha sabia como resolver esse tipo de problema. Pegou Nega Chica e João Brejeiro, levou os dois juntos para a cidade, chamou o padre Zacarias e fez logo o casamento, pois o João Brejeiro não sabia distinguir uma mulher grávida de uma virgem. O menino nasceu e Nega Chica não deixou de ir às festas acompanhada de sua amiga Chica Taboca, pois ambas sabiam muito bem como manter os seus maridos calados. Muitas veses acontecia que a festa que elas iam era longe, mas para isso Nega Chica tomava emprestado o jumento à dona Toinha, mandava João Brejeiro botar a cangalha, e uma sentava no meio e a outra na garupa, e iam dançar o forró, fosse ele onde fosse. Certo dia, as duas foram a uma festa na Quixaba, que há muito tempo se falava nela. E lá pela madrugada, as duas voltavam da pandega com um pé no mato e o outro no caminho, pois não conseguiam se segurar em cima da cangalha, E o jegue já estava assanhado com tanto sobe de um lado e cai do outro. Finalmente a Nega Chica conseguiu se segurar no cabeçote da cangalha, e Chica Taboca foi na frente, cai aqui, cai acolá, ora no caminho, ora na beira do mato, até que chegaram na cancela que entrava para a São Mateus. E quando Chica Taboca puxou a porteira para abri-la, essa empurrou ela pra cima do jumento que estava parado atrás dela. E o jegue que já tava chateado com tanto sobe desce murchou as orelhas pegou Chica Taboca pela canela, e levantou-a até as mãos dela não tocar no chão. Quando o jumento afastou, Nega Chica saiu pelo pescoço e o pé dela ficou preso na corda que servia de estribo. E ficaram as duas de pernas pro ar, Chico Lapilango que morava perto, acordou pelos gritos da mulher, correu pra lá para acudir, mas nada pode fazer só correu a buscar o João Brejeiro, e encontrou esse no caminho, pois também tinha ouvido os gritos da sua esposa, porem a coisa não foi tão fácil, porque o jegue estava brabo de mais.

O SEGUNDO PROBLEMA COM OS GATOS

E tempos depois, novos aborrecimentos.

- Mãe Toinha os gatos beberam todo o leite do álgüidá.
- E por que você não tampou Chica?
- Tava quente.
- E quem já viu gato beber leite quente?
- Não sei, só sei que beberam tudo e lamberam o alguidá, que ta bem limpinho parecendo que foi lavado com bucha e sabão.
- Ta, bom Chica , amanhã Zé Lino vem no caminhão buscar casca de angico, e eu vou butar tudo que é gato dentro dos sacos, e na volta do caminhão, eu vou mandar os meninos com ele pra solta-los lá na ponta da rua, e os sacos eu mando eles entregar a João Gentil, pra encher de torta e mandar de volta por eles, e vai ser logo agora
- Onave venha cá mais Zé Matias.
- O que e Mãe Toinha?
- Vão pegar todos os gatos e colocar dentro de sacos até encher, e quando tiver bem cheio amarrem a boca com imbira de caroá, depois pegue mais outros sacos e vão enchendo, e prestem bem atenção não é pra ficar um só gato nessa casa, por que naquela vez que eu mandei capar todos os gatos, eu tava pensando que era os machos que estavam parindo também, mais dessa vez vai tudo, pequenos e grandes machos e fêmeos, e amanhã quando Zelino vier pegar cascas de angico, e voltar pra cidade eu vou mandar vocês com ele e quando chegar lá no mata-burro, vocês pedem a ele pra parar o caminhão, aí vocês descem e vão abrindo a boca dos sacos e vão soltando esses diabos, e vão correndo atrás deles, e então quando não sobrar mais nenhum, vocês vão entregar os sacos a João Gentil, que eu já falei pra ele comprar dois sacos de torta e butar num caminhão que vá pra Catingueira e vocês vem junto, e comecem logo se não niguém come mais leite nessa casa.
- Chica vai ajudar, Mãe Toinha?
- Não, não, vocês não sabe que Chica ta toda descaximbada do espinhaço, pegue logo aquele gatão preto, porque ele é o que faz mais filhos nas gatas, toma a porta Onave.
- Peguei, peguei Zé, abra logo a boca do saco, assim feche se não ele sai, peguei outro, mais outro, mais outro, mais dois, mais um e mais, o saco ta enchendo, pegue aquele outro, já tá aqui, é já também o outro saco ta cheio, levem mais outro ali, entraram, feche a porta, agora, o outro saco já encheu, pronto não cabe mais Mãe Toinha, os sacos já tão cheios.
- Tá bom acabou, agora vão se lavar pra dormir,

E mais tarde Onave conversava com Zé Matias

- Amanhã eu vou gastar todas as minhas moedas com bombom.
- Eu também, vamos dormir vamos!

E a o amanhecer dona Antonia pergunta.

- Chica você tomou o chá de capim santo?
- Tomei Mãe Toinha, e já tô mais mió
- Já fez o café?
- Já.
- Então chame os meninos que o caminhão de Zelino já tá pra voltar do mato, já escuto o barulho do motor.
- João Brejeiro vá ficar esperando o caminhão passar, e peça pra ele parar, que eu vou mandar umas coisas por ele pra cidade, e chame Zé Pé Torto pra levar logo esses sacos com os gatos, e ajudar a butar em cima do caminhão.
- Ele não pode andar não dona Toinha.
- Ai meu Deus então você vá levar um saco e depois venha pegar os outros, enquanto os meninos tomam o café.
- Avia logo meninos, Zelino já vêm, dá com a mão pra ele parar João.
- Já dei dona Toinha;

Zelino parou, desceu do carro e foi ver dona Antonia, que lhe deu bom dia e disse:

- Zelino me leve esses meninos com esses sacos até a rua, e lá no mata-burro, você para pra eles descerem, e você mande seu ajudante descer esses sacos e deixe eles lá.
- Tá bem dona Toinha, é só isso, é, então até mais.

E assim que o caminhão saiu o Zé Matias foi logo dizendo:

- Onave, quando chegar lá nos vamos vender esses gatos.
- Será que o povo compra Zé?
- Compra, o povo da rua é doido por gato.
- Será?
- Ora será, você vai ver, quando a gente chegar lá.
- E o dinheiro a gente faz o que com ele?
- Nóis compra bombom, bolacha, doce, chorisco e outras coisas.
- Tá chegando, ele vai parar bem na frente daquela bodega e lá nos compra bombom, epa passou será que ele não vai parar, esqueceu de nós, parece, pare aí Zelino, Zelino pare aí, ele não escuta, vamos pular vamos?
- E os gatos?
- Os gatos a gente empurra os sacos no chão, e depois nos pula em cima deles, então ajude a puxar os sacos vamos aaa, os sacos tão amarrados um ao outro, puxe um e eu puxo o outro, cuidado na beira, tô vendo agora vamos empurrar vamos, cuidado Onave, solte o saco Onave, um saco ta puxando o outro e tá puxando você, ai tô com o pé entre um saco e outro vou cair, pula também Zé, ai meu Deus desce também, vem Zé, ainda bem que você caiu em cima dos sacos, mais eu machuquei o pé na queda, você machucou foi um bocado de gato, meu pé ta doendo muito, e eu não vou mais vender gato não, nos vamos é embora.
- Então vamos soltar os gatos.
- Solte você, eu não quero saber de gato não, e quando chegar lá eu vou dizer a Mãe Toinha que foi você que me empurrou.
- Não diga não que eu vou comprar bombom pra você.
- Também não quero, eu vou embora.
- Então vamos.

As bocas dos sacos foram abertas, e os gatos se esparramaram pra todos os lados, entravam nas portas da frente dos casebres, e saiam na do fundo, igual uma bala, os cachorros da rua enrabicharam atrás, passando por dentro das pernas das mulheres, derrubando meninos, velhos e o que tivesse na frente. Pulando em uma perna só, Onave chegou ao destino mais seu companheiro, e entregaram os sacos a João Gentil, e esse providenciou tudo muito rápido, a torta foi colocada em cima de um caminhão que estava de saída.

- E vocês subam logo pra cima do carro, que já vai sair agora disse ele, e chegando lá, vocês pagam a passagem, ao motorista, que vai parar, pra deixar vocês lá no barracão de Joaquim Camboim.

E na saída Zé Matias pergunta a Onave:

- Ainda tá doendo o pé?
- Não.
- Então não vamos dizer nada a Mãe Toinha não é?
-Mais ela vai me ver capengando.
- Nós vamos dizer que você caiu quando ia chegando em casa.
- Mais João Brejeiro tá esperando com o jumento lá no barracão pra levar a torta, e vai me ver mancando.
- A gente fala com ele.

Nisso surge uma idéia na cabeça do Zé, e convida Onave pra partilhar com ele a tal idéia, que era pular do caminhão antes desse chegar no barracão, pra ficar com o dinheiro da passagem, Onave achou a idéia boa, mas como pular com o pé já machucado e inchado. Diz Zé:

- É fácil, quando o caminhão se aproximar do barracão já vai bem devagarzinho devido à ladeira, ai a gente joga os sacos no chão e pula em cima deles, não é fácil?
- É mesmo disse Onave.

E assim foi feito e deu tudo certinho, mais tinha que ir chamar o João Brejeiro com o jegue pra ir buscar os sacos, e o João não gostou nem um pouco, e foi logo dizendo:

- Iisso não é coisa de gente direita.

E que ia contar tudo direitinho tintim por timtim a dona Toinha assim que chegasse em casa.

- E Agora Zé?, falou Onave no ouvido do primo.

Como iam fazer o João mudar de idéia, mais uma boa já estava na cabeça do Zé, que ao se aproximar dele foi logo dizendo:

- João, se você contar isso a Mãe Toinha eu também vou contar a ela tudo que eu vejo você fazendo com a Chica.

O coitado do João se ajoelhou nos pés do Zé, implorou, jurou, garantiu que da boca dele nada ia sair, um dos sacos tinha estourado na queda, mais João Brejeiro costurou ele direitinho que quase não se via o remendo, depois foram botado em cima da cangalha do jumento sem nenhum aborrecimento da parte dele, que tava doido pra chegar em casa pra fumar um cigarro de fumo. Depois de arrumar tudo direitinho,falou assim:

- Agora meus menininhos de Deus, vamos embora que já tá muito tarde, dona Toinha já deve tá aperreada, mas quando chegar lá, eu vou dar a cada um de vocês um pedação de afinin.
- Então Onave perguntou:
- De onde você tirou esse afinin?
- Ah ah ah foi Chica que me deu.
- Ah já sei, foi a Chica que pegou escondido de Mãe Toinha.
- Eu vou falar isso pra ela.
- Não, não conte não, que eu levo você no ombro, pra você não butar o pé no chão.
- O meu pé tá doendo, ta inchando, eu quero ir em cima do jumento, e você quando chegar lá, vai dizer a Mãe Toinha que eu caí da cangalha.
- Então vamos lá, mais não bote o pé na frente do jegue, que esse jumento morde mais do que piranha preta, você viu o que ele fez com Zé que já tem o pé torto, vamos vamos,cadê o Zé?
- Foi comprar bombom pra nós, mais já vem ali atrás.

Ao se aproximarem da casa a expectativa já era grande da parte dos que tinham ficado.

- Parece que eles já vem ali Chica.
- É eles mesmo Mãe Toinha, que demora foi essa meninos?
- O caminhão de Zelino deu o prego.
- Aonde?
-Na estrada.
- O que foi que você tá mancando Onave?
- Eu caí da cangalha no chão.
- Foi mesmo dona Toinha, confirmou João todo sem jeito.
- Vão logo lá pra dentro jantar, que a comida já ta fria, pois já passou da hora de dormir.

Mas Onave não conseguia dormir, porque seu pé, doía muito, Zé balançava a rede dele, e falava baixinho:

- Não grita, Mãe Toinha vai acordar;
- Mais tá doendo muito.
- Deixa, o dia já tá amanhecendo, Chica já levantou pra fazer o café, eu já vou levantar também.

Ao chegar na cozinha topa com a Chica , que foi logo dizendo:

- Mãe Toinha, Onave ta aqui com o pé todo inchado, o que eu faço?
- Faça um emplasto de casca de jenipapo com gema de ovo batido depois enrole no pé dele.
- Chegue aqui Onave.
- Não você vai me machucar.
- Não, não vai doer não, sente aqui enquanto eu faço o remédio, esses danados só serve pra atentar, uma hora dessa, já me atanazando chega deixa eu butar isso.
- Não, não, não, aiii ta quente tá queimando.
- Pronto.

Nisso dona Toinha chama lá da frente da casa.

- Ó Chica!
- O que é Mãe Toinha?
- Venha cá, o que é, me veja de quem é aquele caminhão que vem acolá.
- Mãe Toinha parece que é o de Zelino, o que será que ele vem ver, não tem mais cascas de angico.

Nisso o caminhão parou e Zelino desceu.

- Bom dia dona Toinha.
- Bom dia Zelino. Ainda tem casca de angico pra pegar?
- Tem não dona Toinha, eu levei toda ontem.
- E você tá só passeando?
- Não, é por que ontem, eu esqueci de parar lá no mata-burro pra seus meninos descerem, então lá mais na frente quando eu me lembrei fiz a volta, pra deixar eles no lugar combinado, só que quando eu parei notei que eles não estavam mais em cima do caminhão, mas logo me informaram de que eles tinham pulado com uns sacos com uns gatos dentro, mas que nada de mal tinha acontecido, por isso eu estou aqui pra saber notícia deles.
- Zelino os meninos estão aqui, mais não me falaram disso, mas graças a Deus não houve nada grave, por tanto muito obrigado.
- Chica, cadê os meninos?
- Correram pro mato quando viram o caminhão, Mãe Toinha.
- Então Onave já tá bom.
- Não ele correu pulando com uma perna só.
- Butou o remédio que eu mandei?
- Butei, mais caiu na hora que ele correu.
- Comer dos porcos?
- Já butei também Mãe Toinha.
- E os meninos?
- Tão escondidos bem aqui, atrás.
- Traga eles pra cá, ah meninos danados vou mandar cada um pra sua casa,
- E venha cá Onave e José.
- O que é que a senhora quer Mãe Toinha.
- José Matias arrume suas coisas que eu vou mandar João Brejeiro lhe levar pra sua mãe ainda hoje, e Onave vai amanhã cedo.

ADEUS AÇUDE VELHO E A MORTE DE DONA ANATILDES

O sítio Lameirão onde se localiza o açude velho era propriedade dos pais de João Nunes e com a morte destes, foi dividido entre dez herdeiros, entre estes, dois pleitearam o direito de tirar as suas partes no espolio, nas terras do açude velho e vizinhanças, e para concretizar seus extintos, teriam que botar João Nunes em outro lugar. De acordo com a conveniência destes pleiteantes foi escolhido um lugar sem água, nenhuma estrutura nem beneficio e levaram seu João Nunes junto com Dona Anatildes para conhecerem sua nova propriedade, que não tinha nada de atrativo. João Nunes aceitou em ceder o seu lugar aonde ele vinha criando sua família em troca daquilo que jamais iria dar-lhe uma camisa, tudo isso por que o mal conhecido como ambição nunca lhe atingira, já Dona Anatildes não gostou, nem do lugar nem do negocio; voltou de lá chorando pesarosa, pois ela viu que, aquele negocio, só beneficiava o outro lado, pois não íamos mais ter a vazante do velho açude pra plantar arroz de muda, batata doce, milho, melancia, jerimum e capim de muda, principalmente a preciosa água, adeus às goiabeiras, adeus às carnaúbas, adeus o velho pé de coco, adeus às marrecas, adeus aos patos putrião, adeus às galinhas d’água, adeus às jaçanãs, adeus ao carão cantador, adeus aos pés de pinha, adeus o grande cajueiro onde o velho Quinco capuxú fazia telhas na sua sombra, onde também a cajaca de couro fazia seus ninhos cheios de espinhos, adeus o batedor adeus ao pé de açafrão do sangrador, adeus aos paturis, adeus às baronesas e vitórias regias de flores perfumadas, adeus ao socó boi, adeus ao socó mirim, adeus ao Martin pescador que vivia no galho do angico do sangrador, adeus ao pé de Jucá trançado adeus ao pé de oiticica lá da represa e finalmente adeus as grandes traíras que João as chamava de pau de negro, adeus também aos preás e punarés lá da capoeira. Apesar de estar na plenitude da vida, mais uma vez Dona Anatildes estava de bucho, e essa era sua décima segunda gravidez, sentia dores terríveis, mais diziam os não entendidos que aquilo passava depois do parto, pois João Nunes de Lucena não podia levá-la a um médico, pois não tinha como pagar. Os dias passavam, mas as dores que Dona Anatildes sentia não passavam, pelo contrário aumentavam, e o tributo que ela estava pagando pelos poucos anos de vida era muito caro. Porem só a razão e compaixão sabem que preço cobrar de cada um. a alegria que antes morava em seu rosto foi embora e no seu lugar veio morar a tristeza, notava-se que um monstro perverso e cruel rondava aquela casa, a velha máquina já não rodava mais, pois aquela mão que a impulsionava tinha perdido o tato, e todo o interesse por ela, olhava com tristeza para suas crianças e nada dizia, será que ela sabia a gravidade de seu problema, talvez sim, pois era ela que sentia, notava-se que ela não queria causar tumulto que viesse a afetar seus filhos, via-se que ela olhava para eles com os olhos tristes, e a alegria que antes ali habitara, já tinha batido em retirada há muito tempo. E quando virava as costas notava-se que ela estava chorando, se preparando para sua despedida.
Dona Anatildes orava:

- A hora está chegando e eu tenho que ir, pois não sou eu que decido, e sim aquele que me criou, e está me dando forças para suportar tamanho sofrimento, e não me desesperar e entrar em tentação, quem decide é aquele que esta no céu e me chama pra lá, gostaria de ficar para terminar de criar e encaminhar para a vida aqueles que eu gerei.Mas aquele que está me chamando certamente se encarregará disso. Eu vou, mas pedirei a o meu pai para guiá-los pelos tortuosos caminhos da vida, Deixo a recomendação, tenham muito cuidado meus filhos, pois este mundo é cheio de armadilhas. Meus filhos, quando as coisas estiverem muito difícil não entrem em desespero para não caírem em tentação, pois tudo passa. Meus filhos não fiquem tristes por causa da minha ausência, porque eu estou indo para um lugar muito bom, Não levo mágoas de ninguém, e peço perdão àqueles que se acharem ofendidos por mim, e estou pronta para ir embora, levando comigo as saudades dos bons momentos que vivi, e as lembranças daqueles que eu sempre amei, e não posso terminar de cria-los, meu pai, eu estou pronta cuida de tua serva, e que a tua vontade seja feita.

E daquele dia para frente tudo ficou mais difícil. Certamente, aquele bom coração, de onde sempre emanou bons pensamentos dizia assim naqueles momentos finais:

- Meus filhos, eu já estou indo, mas não vou vos abandonar.

A desordem reinava naquela casinha antes tão bem cuidada, durante muito tempo ela não dormiu nem se alimentou, mais não se lamentava, apesar do sofrimento, no meio daquele terror a criança nasceu, e a melhora esperada Não veio, pelo contrário piorou, a família resolveu procurar recursos médicos. Pretinha, Maravilha, às garrotas, o boi lavrador algumas ovelhas e cabras, foram todas vendidas às pressas, para levantar dinheiro, mas ao ser examinada com detalhe, o médico deu a terrível notícia:
- Seu João essa mulher já está em fase final de vida, leve-a de volta, e prepare o enterro, pois ela está toda comida por um câncer no fígado.

Ao voltar João Nunes não mais a trouxe para casa, por que não tinha quem cuidasse dela, pois dona Alcinda Nunes e Severina sua irmã, se prontificaram a acompanhá-la até seu último dia de vida, como de fato, estes foram só três, como também foram poucas as pessoas que a visitava, e quando o faziam, ficavam de longe, com medo da fera que a devorava, dizia o povo que era uma maldição à pessoa atacada por aquele monstro, na verdade os olhos dela tinha uma expressão de pavor, mas nunca se lamentou, apesar do terrível sofrimento, pois não conseguia se alimentar e nem dormir, por causa das dores incrivelmente atrozes que ela sentia. Notava-se no ar a aproximação de uma coisa sinistra, Onave era muito pequeno para distinguir isso, mas ouvia do pai o consolo, que dizia:

- Ela vai fazer uma viagem, porque tinha sido convidada por uma mulher chamada Maria, e essa mulher que, a convidou, já tinham sofrido muito também, mas hoje ela vive num lugar onde mora muita felicidade, muita alegria e muita paz, e quando ela chegasse lá ia pedir a essa mulher para cuidar de seus filhos.

Dona Anatildes abria a boca, fazia gestos, indicando que queria deixar mais recomendações para seus filhinhos, mas aquele monstro tenebroso cada vez mais fechava seus tentáculos em torno da sua garganta, impedindo-a de falar. Outro monstro rondava a casa onde Dona Anatildes estava, pois os seus passos já eram ouvidos, e a mulher que antes habitara, os lindos bosques da vida, e que tanto estava sofrendo nas mãos do primeiro monstro, deu um suspiro, e ficou quieta, se entregando à imobilidade física, e os dois monstros juntos comemoraram a sua sinistra vitória, E agora a flor mais bela que tinha enfeitado os lindos bosques da vida, tinha murchado, secado e caído do galho que a sustentava. E a boa alma que tinha morado durante trinta e três anos dentro daquela bela flor, se volatizou, dentro da sua dimensão, que nós não a conhecemos, e certamente esta flor, está hoje enfeitando os belos jardins e bosques celestiais que ornamentam a morada do eterno. João Nunes ficou muito triste, porém resignado, pois naquele momento de tristeza, a criança que tinha nascido de Dona Anatildes estampava toda alegria do mundo no seu rostinho angélico. certamente ela fazia parte da festa, que estava sendo Preparada lá no santuário do eterno, para que quando sua mãe chegasse lá, fosse recebida com muita festa e muita alegria pelos seres celestiais.
Embora a tristeza reinasse, entre os que lhe amavam, notava-se que, o tempo não estava parado, e enquanto o sol rompia as trevas, daquele dia vinte e seis de agosto, via-se que, ele amanhecia lindo, o céu estava risonho e azulado, com nuvens branco-acinzentadas iluminadas por raios rosa e violeta, e a atmosfera estava sorrindo, a brisa estava calma, certamente para não perturbar o sono dela, e a parte mais alta do horizonte leste permanecia anil, enquanto o seu oposto se dissolvia em tons claros de azul e marfim. E naquele silêncio, Onave experimentava uma sensação de reverência a sua mãe, pois naquele momento ele visualizava uma luz la no céu seguindo em direção a um clarão ainda mais forte, e depois mergulhar numa claridade infinita Se elevando, e cada vez mais adentrando o espaço sideral. E para definir isso com palavras, a mais adequada, seria mistério! Haveria escolha melhor? O enterro foi muito simples, enrolada em velhos lençóis, colocada numa padiola, e essa transportada para cemitério por quatro pessoas, e acompanhada por mais umas, cinco, que se revezavam quando se cansavam, Onave foi proibido de acompanhar por que sua calça curta estava muito encardida e rasgada no fundo, também não tinha alpercatas para calçar, a terra do cemitério era contaminada, e as perebas das pernas dele estavam inflamadas, mesmo assim ele foi acompanhando de longe para ver o que aquelas pessoas iam fazer com a mãe dele. Os outros acompanhantes também seguiam de longe, pois ela já cheirava mal, ao chegar no cemitério abriram o túmulo da mãe de João Nunes, colocaram ela lá dentro, e Onave encolhido dentro daqueles trajes que o fazia ficar miúdo, fez tudo para vê-la pela última vez, e para isso teve que pular a parede, pois a porta fora fechada para ele, se aproximou da boca da cova e ficou olhando impassível para aquele embrulho onde sua mãe estava enrolada para não mais dali se libertar até que chegue o grande dia da ressurreição dos mortos. Jogaram cal e terra em cima dela, não teve flores, para enfeitar a sua nova residência, porém a sua antiga morada tinha ficado enfeitada de meninos, que não mais iam ter o seu carinho. Onave nunca mais a viu, certamente ela está com sua amiga Maria. O tronco mais grosso caiu, e o seu estrondo abalou aquele pequeno mundo habitado por crianças desprotegidas, e aquela casinha onde antes tinha morado a alegria, se transformara na capital da solidão, tudo ficou escuro, pois a luz que antes ali brilhara, tinha se extinguido. A criança que tinha nascido do último parto de Dona Anatildes, veio a morrer poucos dias depois, pois fora privada dos cuidados maternos, como também não tinha mais o leite das maravilhosas maravilhas, e seu mingau era feito com água. Dona Anatildes foi à frente, e seu anjinho, foi logo depois, certamente Dona Anatildes não está velhinha, porque lá onde ela está, a juventude é eterna, a criança, também deve está, com aquele mesmo rostinho sorridente e angelical, que ela tinha no dia da morte da sua mãe. Dona Anatildes foi embora, depois de ter sofrido muito nas mãos daquele monstro perverso. Mas a pobreza que era outro monstro odioso, não queria ir embora daquela casa e fez muitos estragos, Dona Anatildes estava de boca calada para a eternidade, mas a voz do vento noturno era ouvida todas as noites pontualmente, trazendo a sua mensagem, chegava dava uma volta em torno da casinha, contava uma historia de fantasma de meninos que tinham sido abandonados, batia asas e se afastava. Embora a tristeza não saísse daquela casinha onde tinha ficado os filhos de Dona Anatildes, Onave sempre a via em sonhos, sempre muito alegre e num meio de muita paz. Mas a voz de dela nunca mais foi ouvida, pois ela está por trás da faixa nebulosa, que separa a vida concreta, da vida abstrata que está em outra dimensão E por isso não mais se ouvia a sua voz cantando bem-te-vi quando estava costurando, na sua velha máquina. Sua pouca vida fora sempre uma luta, para expulsar de sua casa a pobreza, que por nada deste mundo queria ir embora, e agora? Inerte e de boca fechada para a eternidade, sob a égide de quem ficaria com suas crianças? E daquele dia em diante Onave dava os seus primeiros passos que iniciava a sua longa caminhada pela estrada do sofrimento, como também se interrogava sobre o ilogismo da morte, e essas interrogações complexas não saiam da sua mente, por que levar os bons, os úteis, e deixar tanto joio. E se interrogava, será que existe o mal absoluto? Dizem que a morte é um determinismo sob os controles das forças renovadoras da natureza, ou seja, ela não é um fim, e sim um começo. Não sei! Talvez seja, só sei que ela pratica atos agressivos, covardes, e desrespeitosos à vida à beleza e a o útil. Por que ela atinge profundamente os pequenos dependentes, daquela ou daquele que ela levou, com a perda da sua mãe. Onave ficou relegado a tudo, refém de uma pobreza perversa, perseguido pelo fantasma de um menino abandonado, derivando num barco sem piloto, que navegava num oceano de incertezas, e sem destino a um porto seguro, pois os caminhos invisíveis do destino são inseguros, era refém, porque era vulnerável, a essas coisas deformadas, que machucam e cria calos, que estão fechados por fora, e do lado de dentro as marcas estão gravadas no intimo, mas quem presencia, o ataque do lobo, ao indefeso cordeiro, não admira a sua valentia, e sim a sua covardia, e então! Quando o remorso se manifestar foi pelo que foi feito? Não, não foi! E sim, pelo que deixou de ser feito, então, olhando para esses horizontes acanhados, e despojado de um ato de clemência, Onave foi vivendo uma infância cruel, como um camundongo nas garras de um gato tirano e faminto, fazendo suas peregrinações nos estéreis desertos da sua adolescência, pois no lugar de carinhos, recebia mau-tratos, nunca comemorou um aniversario, como também nunca teve a alegria de receber um presentinho de natal, que com isso ele se sentisse lembrado por alguém, pois muitas vezes a alegria não estar em ter a posse do objeto presenteado, e sim pelo ato de ser lembrado por alguém. Mas isso para ele não era problema, pois nem sabia que isso existia e por isso ele foi sendo moldado e transformado numa figura seca, dura e agreste como o próprio chão em que nascera; e o meio em que vivera. Pois a razão nessas horas anula a própria razão, sim isso mesmo, pois às pessoas são moldadas pelo meio social em que foram criadas. Ou seja, suas atitudes são copiadas deste meio em que vivem, pois foram fundidas no mesmo cadinho. Isso com raras exceções. Sem saber o que vinha depois da curva da superestrada da vida, muito cedo teve que declarar uma guerra silenciosa e odienta contra a pobreza, pois no torvelinho de uma vida assim, os dias são escuros, e se tiver que sorrir! Tem que fazer, com a metade da boca, por que quem passa por isso não aprende a sorrir com a boca toda, portanto é bom observar, que para estes dois tipos de expressões, aqui citadas, não existe um qualificativo apropriado, para se definir uma da outra, então, ali no meio daquela espessa névoa, Onave era o centro, pois foi ele mesmo o. parteiro que assistiu. Impassível, o nascimento de tudo isso, porque ele já estava matriculado na escola do sofrimento, note-se que, todas as pessoas que passaram por isso, acham, que a terminologia, religião, não demonstra nenhuma originalidade, e a razão que leva essas pessoas pensarem assim é muito simples! Basta lembrar que, se alguém está com fome só pensa em comida E não em deuses. Pois nada é mais divino do que um prato de comida na mão daquele que tem fome. Não é fato? E ai surge muitas perguntas! Porque pagar pecados se ainda não os tem? Será que o pecado é hereditário? Será que o pecado passa de pai para filhos? Será que o pecado está no gene? Ou será que as crianças que sofrem estão pagando seus pecados antecipadamente? Será que existe o mal absoluto? Será que o mal também vem do divino? Onde está o divino? Nessas horas tão difíceis? Ou ninguém é dono de ninguém? Porque? Porque tudo surge do grande desconhecido, mas, como encontrar uma saída que vá dar em um ponto que se situe algures? Para isso, tem que abrir um buraco, no centro da ignorância, entrar por ele, passar pela loucura, para ver o que tem do outro lado, muitas vezes a fome batia à porta por que João Nunes de Lucena não tinha mais as terras do velho açude, pra de lá trazer batata doce, pinha, goiaba, fruta da carnaúba, caju, feijão galajão, arroz de muda, milho, girimum de leite girimum caboclo, preá, os punanés lá da capoeira, às traíras, as marrecas, pato putrião, soco boi, socó mirim, martim pescador, jaçanã, siricoia, galinha d’água e principalmente o leite das duas maravilhas maravilhosas, e aqui acolá o sarapatel de um folejo, pra comer com angu de xerém, nunca mais naquela casa, foi criado um bacorinho, um burrego, cabrito nem mesmo um pinto, pois não tinha quem cuidasse, Seu Miguel tinha ido embora, pois tinha ficado muito triste por causa da ausência de Dona Anatildes, as visitas se afastaram, o velho Zeca Remela morreu, Abigail do buchão e Zé Pajaraca seu marido foram embora, por causa da seca, o velho Chico Barandão nunca mais passou na estrada, Chico Cajobão cortava caminho, dona Mãe Rosa pegadeira de menino nunca mais nos visitou, pois andava doente com os pés cheios de cravos de espinhos de cigano e carrapicho, o papagaio de Chiquinha de Mané Canuto tinha completado 64 anos, e ainda ajudava a cantar as trezenas de Santo Antonio que era muito animadas, a velha Camila concertava todas as sombrinhas da região, Chica Taboca não sabia engomar sem cantar, Onave ia comprar carteira de cigarros Astoria pra rapaziada na bodega de Zé Birro, pois estes ficavam com vergonha de fumar cigarros de fumo boró na vista das namoradas, e ganhava um tustão por viagem, Lalá de Mané Branco tinha os olhos tortos e não era nada bonita. Dagisa de Chico Rodrigues era uma moça simpática. Teofe batista tinha uma bodega nas queimadas onde vendia açúcar café em caroço e cachaça Chica boa. Ana Bagocha filha de Sá Maria de seu Antonio Gino e neta de mãe Rosa pegadeira de menino, era uma cabrochona assanhada e parecia ter fogo no rabo, tinha os beiços grossos e olhos de macaca, às pernas eram grossas, cabeludas, e ancas de animal do campo, pois só vivia se espojando nas capoeiras onde fazia o contrabando do amor com seus amigos que só viviam montados em cima dela, não demorou muito, e as más línguas começaram a bater nos dentes, porque será que ela tá ficando tão gorda, diziam uns para outros, e essa fuxicaiada gerou uma confusão do satanás, pois quando o bucho apareceu, o pau comeu, uns diziam que era filho de Mané Roldão, porque esse se encontrava muito com ela na cacimba, dona Vicência ficava de tocaia pra ver se pegava os dois com a mão na cumbuca, porem eles sabiam fazer muito bem feito o contrabando do amor, outros deziam que era filho de Zé dos Cocos, já outros achavam que era filho do viúvo, as mulheres botavam os maridos pra fora de casa, e o fuzuê parecia que não a acabar mais. Era mês de junho, e as santas missões iam ser logo naqueles dias, e o pregador era Frei Damião de Bozano que fazia muitos milagres por aquelas bandas, logo as promessas começaram a ser feitas, se for filho de meu marido eu boto ele pra fora de casa no cacete, porque eu sou mulher macha sim senhora, e eu também faço o mesmo com o de lá de casa dizia outra. Finalmente as. Santas missões terminaram e logo o menino nasceu, e o milagre feito por frei Damião, foi comprovado, pois a criança tinha dois dedos, de cada mão pregados, um no outro, igual o pai, João Pio, filho do velho Zé Pio, porem não era só Ana Bagocha, que gostava de contrabandear amor, pois nessa mesma época, uma mulher casada, e mãe de vários filhos, escorregou por causa de uma topada na trilha da fidelidade conjugal, e nesse escorrego ela foi parar dentro de uma cacimba, onde foi pega agarrada com um cunhado, e isso fez chover picareta, foice e machado, porque o marido da mulher era brabo, era feroz que só um siri dentro de uma garrafa, e quando batia mão da peixeira, todo mundo corria, mas os apagadores de fogo, conseguiram com muito trabalho amansar o homem, que tinha se transformado em lampião, e ficou provado o seguinte, na hora do flagra, a mulher estava com a saia no pescoço, mas se concluiu que, quando ela foi levantar a cabaça, pra leva-la até a os ombros, a saia enganchou no dedo da mão e subiu junta, e estava sem às roupas debaixo, porque tinha tirado-as para fazer uma rodilha, para forrar a cabeça e butar a cabaça em cima e com esse argumento o marido se conformou, mas tinha outro problema grave, para ser explicado. Porque o homem que estava com ela, dentro da cacimba, estava com a calça descida até nos pés? E esse negocio de saia pra cima e calças pra baixo, deixou o marido mais nervoso ainda. Aí mais uma vez os bombeiros mostraram suas habilidades, que ficou provado o seguinte, o homem tinha entrado na cacimba, para ajudar a mulher butar à cabaça na cabeça, e por esse ato, fez tanta força, e o couro do bucho esticou tanto, que quebrou a fivela do cinturão e os botões da braguilha, e por isso a calça tinha descido pro chão, e o motivo de estar sem a cueca naquele momento, era porque, ia fazer dela uma rodilha, pois também como a mulher, tinha vindo pegar água na cacimba, que era na propriedade dele. Apesar de todas essas provas, e tudo ter ficado provado e aprovado, o lampião queria sempre reprovar, e o fogo não ficou bem apagado, pois se via pequenos focos de fumaça aqui acolá, aí apareceu um bombeiro velho, que sabia apagar fogo como ninguém, juntou Lampião, Maria bonita e os meninos deles, e os mandou morar, lá pras bandas do rio são Francisco, e a mulher nunca mais pegou água em cacimba. Às outras cabrochas irmãs de Bagocha já estavam ficando moças. E Onave mexia muito com elas, dentro das capoeiras, e quando saia de lá, tava todo empestado de muquim carrapato e mijo de potó. O velho Antonio Gino tinha um filho chamado Chico Querreta, e tinha às canelas finas, parecendo um cibito de capoeira, os filhos de Sá Maria de Antonio Gino roubava os cocos de Zé Alves e ele botava a culpa em Onave. Alcinda Nunes e Severina Nunes eram muito briguentas com Onave e botavam tudo de culpa nele, dona Vicência mijava em pé no oitão da casa dela, enxugava o entre-pernas com a saia, depois ia lá pra janela alta, pra ver se Chico Bucho-de-cachorro passava pros coqueiros, já Mané Roldão, vivia sentado numa pedra por baixo da janela alta, pra ver quem passava no corredor, e Onave via tudo lá da casa dele. Onave já sabia pescar de anzol no açude de Vicência, e na volta passava nos canteiros dela pra pegar coentro, folhas de cebola e tomate, pra temperar as traíras. Apesar das dificuldades enfrentadas João Nunes continuou trabalhando na sua nova propriedade cheia de pedras.
Onave buscava a água muito longe e na cacimba de outros, que muitas vezes o reclamavam, por fazer uso delas, mas mesmo assim com essas dificuldades João Nunes foi plantando seus pés de algodão mocó, que é muito resistente às secas e tem uma vida longa quase perene.

A SECA

Apesar de muito jovem a irmã mais velha de Onave casou e foi morar nas Queimadas, ficando Onave junto com o irmão mais velho morando com João Nunes. Porque ela levou os irmãos pequenos para morar com ela, e terminar de criá-los, a seca arrochou, e João Nunes juntamente com os meninos, foi obrigado a se alistar como cassaco emergente nos serviço do governo federal, onde cada um dos meninos ganhavam meia diária, para carregar terra do empréstimo, até a o aterro numa padiola. Comiam o 40 no lanche, o 40 no almoço e o 40 no jantar, pois o que ganhavam não dava para comprar outra coisa pra comer. Alguém falou que o preço da diária no serviço da estrada que vai pra Serra Negra era bem melhor, por isso João Nunes arrastou pra lá com os dois filhos, chegaram nas Cupiras alguém lhes deu comida e dormida, a jornada do dia seguinte foi feita sem comida, lá pela tardinha Onave estava muito fraco, ao aproximarem-se da Serra do Tronco ele caiu, quebrando na queda todos os pratos de barro que iam dentro do saco, mesmo assim prosseguiram a viagem sem fazer parada, chegaram a um acampamento de trabalhadores, arranjaram comida, e dormiram no chão, porque não tinha onde armar as redes. Apesar de estar em tempo de seca, caiu uma chuva fina a noite toda, o jeito foi procurar uma caverna pra passar o resto da noite e no outro dia foram alistados para trabalhar na produção, ganhavam x por cada metro cúbico de terra cavada e transportada nas tais padiolas, até o aterro da estrada. O contratante era uma empresa privada que não pagava na diária, portanto quem quisesse ganhar mais um pouquinho acendia um fogo para iluminar o barreiro onde a terra era cavada, porem o transporte era feito no escuro, mesmo assim não dava pra comer as três refeições por dia, a toda hora chegava novas levas de trabalhadores que vendia um dia de serviço por um pacote de fubá estragado que vinha dos silos do governo, pois este para se ver livre de tais produtos, mandava distribuir de graça para às classes menos favorecidas. Mas os mandantes vendiam esses produtos, a preços faraônicos. E muitos ainda davam graças a Deus por poder adquiri-los. Por que a seca tinha transformado aquela região numa apoteose da miséria e do sofrimento, era uma espécie de hospede indesejado que não queria nunca ir embora. Pois o mundo do horroroso e do fantástico era ali, muitas vezes era melhor não tentar compreender, por que eram milhares de flagelados, e no meio daquele imenso formigueiro de pigmeus, comandados por gigantes safados, só se pisava em fezes de gente, e nesse coletivismo desmedido de escravidão, onde os marcos da concessão humana são recuados por patrões inescrupulosos, e essas vitimas da fatalidade e do destino, com suas mentes povoadas de imaginações pavorosas, suas cabeças coroadas de desilusões, olhavam de um lado para outro, e não viam uma saída, afirma quem viu, porque até hoje, isso pode ser visto através dos binócolos da imaginação, daqueles que fizeram parte deste coletivo pois só as pessoas que estiveram ali, e passaram por essa provação, sabem, porque conheceram toda a gama universal que sempre existiu no domínio da atrocidade, por que aqueles milhares de miseráveis, que lhes era negado até uma gota de dignidade, -jamais esquecerão-, recebia como pagamento de seus serviços, mercadorias dos barracões dos patrões, com preços fabricados por eles mesmos, pois suas ambições não tinham limites. E nas suas medidas desumanas só tinha lugar para o eu. Ou os eus ou os nós do grupo deles, e a vós outros nada. Outras mercadorias enviadas pelo governo federal, para ser distribuída gratuitamente como já foi dito antes, eram também vendidas nos ditos barracões, pois estes tristes acontecimentos, sempre são administrados pelo grupo dos governantes, bem parecido com corja dos anões do orçamento, o conta-gota que distribuía a dignidade a muito tempo estava obstruído, mais as torneiras da grande industria da seca estavam desentupidas, pois quem controlava a vazão era os poderoso chefões, e naquele oceano de desrespeito para com o próximo, que na realidade só a miséria estava próxima deles, ainda vinha às grandes filas para receber as tais mercadorias, cujo acontecimento começava no sábado à tarde, se desenrolando até meia noite de domingo, pois muitas vezes, o emergente só dispunha desse resto de noite, para ir a casa levar comida à seus familiares, porque na segunda-feira cedo, o flagelado tinha que estar presente na hora da chamada, se não o ponto era cortado, pois o fiscal que o fazia tinha ordens para agir assim, porem os amigos dos mandantes nunca se faziam presentes, mas eram apontados, outras praticas revoltantes e desrespeitosas, era que, essa grande mão de obra ofertada pelo problema da seca era também desviada, para ser utilizado na construção de grandes açudes nas propriedades dos mandantes, pois todas as prestações de contas para com o governo eram fabricadas também por eles, se é que eram feitas. Havia ainda a conveniência da rapinagem, entre o feitor de turma e o fiscal, pois o ponto cortado daqueles que não estavam presente na hora da chamada, era anotado no caderno deles, e depois feito o rateio entre o grande grupo de ratos gabirus, que segundo me parece foi o nome rato que deu origem a palavra rateio, (ou seja, doença contagiosa que se propaga através dos ratos brasileiros,) na maioria das vezes a causa da falta de presença era a doença, principalmente a desnutrição, pois essa era uma constante na existência destes desprovidos de dignidade, onde as condições sanitárias eram causadoras de tudo, outras causas como já se viu atrás, era a hora que o emergente era atendido no seu magro pagamento, pois aquele que era despachado na noite de domingo tinha que levar comida as suas famílias, e não tinha como esta presente na chamada no dia seguinte, por que sempre morava longe e ia a pé, pois niguém dava carona a cassaco, por que todo ele é fedorento, pois se até a água para beber é limitada, veja lá pra tomar banho, o nome cassaco já diz, aquele bichinho da família dos marsupiais que não usa nenhum perfume francês. Vulgarmente conhecido como saruê ou gambá, e naquela região seu nome é cassaco, imaginemos aquele calor abrasador de quarenta graus, aqueles corpos suados, e impregnados daquela poeira de terra argilosa, a roupa suja, e somados à semanas sem tomar um banho, só pode é ficar fedorento, então estes patéticos reféns da pobreza eram também reféns do descuido do desprezo como também da boa vontade dos governantes, pois se olhando para este lado ali estavam reunidos milhares de pessoas humildes, e não exaltadas, construindo às gigantescas obras para a posteridade, e a imortalidade, depois se olhando para o outro lado. Com olhos animados, e compreensíveis, através dos vidros coloridos das janelas da sabedoria, se vê pessoas insensíveis a esses horrores, pessoas arrogantes e exaltadas, colhendo os frutos das fruteiras que os humildes plantaram, pois são, e é, exatamente, essas pessoas ratuinas, que constroem às gigantescas catedrais da maldade e da imoralidade, mas como só a escola do tempo, pode medir os méritos de cada um, por tanto vamos ver, como uma pessoa é classificada para entrar nesse meio intimo, do espetáculo humano, é muito simples, só precisa ser mais um patético refém da pobreza; e Onave estava naquele meio, juntamente com seu pai e seu irmão, ambos juntos disputando um pacote de fubá, para fazer o 40 do almoço, pois naquele momento não havia outro caminho para ser trilhado, mas sonhar com as estrelas, é uma audácia que rejeita a pequenez, pois o cerne da personalidade de um individuo, está no que ele faz, por que onde passa finca marcos da sua lide, seu caminho não mais fica escuro, porque carrega na mão a tocha que o ilumina, planta e espera. Para colher, suas pegadas estão sempre visíveis, por que os agentes da erosão não as desfazem, deixa sinal de sua passagem, por que andou e não se deteve em nenhum obstáculo, que parecia impedir sua viagem pela superestrada da vida; mesmo com muito custo faz tudo para transpô-lo, e sabe, que para abrir as portas que conduz a prosperidade, só existe uma chave, essa chave tem um nome, esse nome é trabalho, sabe também que, só essa moeda chamada trabalho, compra a prosperidade, com honestidade e sabe também que, esse nobre e belo conhecimento se aprende na escola do sofrimento, lá o aluno passa por um processo de metamorfose, que não dorme, continuando o aperfeiçoamento da mutação constante, lapidando as arestas mais constantes, e dando lugar a um renovo, que vai crescendo com o passar do tempo, e para frutificar em perene, é preciso se segurar no trampolim que leva a vitória e continuar sonhando, pois os sonhos foram feitos para direcionar os objetivos, e não devemos substimar o poder de um sonho.

A CHUVA

A seca castigava, o tempo parecia não andar, mas os flagelados resistiam, o ano novo se aproximava, a esperança se renovava, então no meio daquele intenso calor o carão cantou, já se notava os vôos noturnos das marrecas identificados pelos seus cantos, os emergentes falavam em suas roças de algodão mocó, que não tinha morrido, apesar da grande seca, o desespero dava lugar à esperança, a expectativa era contagiosa, as promessas a São João eram feitas e testemunhadas, o carão cantava, a siricoia também amiudava seu canto noturno, então, certa noite, às duas horas da madrugada a tão esperada chuva chegou, iluminada pelo brilho dos relâmpagos e acompanhada pela percussão dos trovões, ficando assim por muitos dias e a água da vida descia escovando os riachos, o sapo boi berrava o cururu cantava, e a seiva milagrosa, corria dentro das artérias da vegetação da catinga, que brotava com uma robustez nunca vista, e uma nova palpitação de vida onde tudo que era seco estava ressuscitando. O sol que antes enfiava seus raios por entre os garranchos secos da caatinga, agora tinha dificuldade de furar a espessa ramagem que brotava com todo vigor. O carão cantou tanto que ficou rouco, porque aquele acontecimento gerava uma alegria animal de existir, e um triunfante prazer de sentir o cheiro da terra molhada, o desespero tinha ido embora e a esperança tomava seu lugar, o algodão mocó brotava, se vestindo de uma roupagem nova e esverdeada. Às estradas ficaram cheias de pessoas que voltavam para suas casas, com um intuito de cuidar das suas plantações, Aproveitando a folga do fim de semana João Nunes foi a casa para ver como ia às coisas, pois já fazia 40 dias que não ia lá, foi na roça da cachoeirinha, bebeu água lá na lagoinha do pau de leite, foi no açudinho de jipão, esse tava quase cheio, o poço da cachoeira tava cheio de água boa, e cheio de piabas, que tinha subido pelo riacho, sinal que a água tinha descido até nos grandes açudes lá de baixo, dormiu em casa, de onde escutou o carão cantando a noite toda em cima do baldo do açude velho, e quando o dia amanheceu ele ouviu aquele barulho que há muito tempo era seu conhecido, abriu a porta e olhou pra lá, o que viu, o deixou alegre e triste ao mesmo tempo, porque a baixa das carnaubeiras onde ele plantava arroz estava coberta do liquido milagroso, que antes tinha feito tanta falta, pois o açude velho, jorrava pelo seu sangradouro, uma torrente de água barrenta, que ia se espalhando pela baixada atrás do baldo, aonde tudo ia se enfeitando de espuma branca, o riacho do Lameirão cantava grosso bancando rio, o carão não parava de cantar, como não tinha nada em casa para comer ele foi à casa de sua irmã Vicência pra pedir um pouco de café, lá Mané Roldão o informou, que ele podia arrumar um dinheiro pra cuidar do algodão, plantar milho feijão e outros, pois Zé Roldão, Severino Canuto, e Zé Mineu, estavam comprando algodão na folha, e João Nunes viu ali uma saída pra deixar a emergência, cuidar do algodão, juntamente com outras culturas, foi buscar os meninos, porem a viagem de volta foi outra odcéia, pois não tinha dinheiro para pagar passagem, mas um amigo de João Nunes, pediu a um caminhoneiro, que levasse ele e os meninos até à cidade, aonde chegaram à noite e como não tinham onde dormir, João Nunes resolveu seguir viagem à pé , os meninos choravam, pois não tinham comido nada naquele dia. A cidade foi atravessada de uma ponta à outra, e quando o trio passava em frente a uma padaria, Onave parava e ficava olhando pra lá, era preciso João Nunes puxá-lo pelo braço, a o passarem na frente de uma das ultimas casinhas da saída, um milagre aconteceu, pois nas horas difíceis Deus se faz presente, para guiar seus filhos pelo caminho certo, como de fato, da porta de um daqueles humildes casebres, alguém falou, João Nunes, pra onde você vai com esses meninos uma hora dessa? a dona da voz recebeu os três de braços abertos, botou água pra ferver, colocou farinha numa cuia, despejou um pouco de água fervente dentro, cortou uma cebola, jogou sal em cima, mexeu tudo, e serviu aquela farofa às suas visitas, e aquilo foi a melhor coisa do mundo que Onave já comeu, durante a sua existência, e João Nunes agradeceu:

- Muito obrigado Deus, muito obrigado Nega Chica, você deu tudo o que tinha, Deus não vai deixar faltar farinha na tua casa.

Na pequena casinha não tinha porta, mas João Nunes juntamente com seus meninos deitaram-se no chão onde descansaram muito bem. De madrugada Nega Chica acordou, deu um abraço em Onave, e João Nunes se despediu dela, chamou seus meninos e seguiram sua viagem, que terminou na noite seguinte. Ao chegar em casa João Nunes arranjou sementes, e começou a plantar sua roça, botou os meninos pra tapar covas e pastorear os passarinhos, pois estes chegavam em bandos, voltando do retiro que foram obrigados a fazer por causa da grande seca, o pé de juazeiro onde o rancho ficava de baixo já estava com seus frutos crescidos, o mandacaru, o chique-chique também já estavam carregados, o maxixe já estava florido, sinal de que a fartura já estava a vista, o juriti passava em vôos rasantes, voltando de seu longo retiro, que também fora obrigada a fazer, tudo por ali pululava de vida, o gavião da asa fina ficava o dia todo no galha do angico seco, olhava pra um canto, olhava pro outro , pra ver se passava algum gangarra desgarrado de seu bando, nos pés de jerimum os frutos cresciam, os ninhos dos bem-te-vis, estavam cheios de ovos, logo também esses frutos iam ficar maduros, e eclodir, para sair dali um novo ser, por perto do juazeiro do rancho, não tinha nenhuma árvore de sombra, por isso a passarada da redondeza vinha toda parar ali, uns para fazer seus ninhos, outros só pra descansar, e cantar pois a orquestra não parava de tocar a sua melodia, a fina folhagem do algodão convidava as borboletas amarelas pra lhes fazer uma visita, e estas vinham aos milhares, acharam muito agradável àquela roça, botaram logo seus ovos nas folhas, pois sabiam que quando seus filhos nascessem ia ter muita comida para eles, mais João Nunes foi mais esperto, vendeu dez arrobas de algodão na folha a Zé Mineu, comprou dois pulverizadores e um saco de BHC, como não podia pagar um trabalhador para lhe ajudar no combate contra as lagartas, o jeito foi utilizar os meninos que mal podiam com meia carga do pulverizador, mais tinha uma vantagem andavam muito rápido. A panela de feijão de corda, temperada com maxixe, e um pedaço de toucinho, ficava chichilando debaixo do pé de juá, o papa lagarta cantava mais do que o carão do açude do Bota-abaixo, mais João Nunes juntamente com seus meninos estavam decididos fazer abortar aquela metamorfose, pois Onave sabia que se a safra de algodão fosse boa ele ia ganhar seu primeiro par de alpercatas, para ir a escola de Francisca de Antonio Amancio, lá no logrador dos Mineus. O gavião de asa fina não saía do galho do pé de angico seco, pois sabia que os gangarras iam passar por ali, para irem comer milho verde na roça de Inácio Nunes, que ficava no baixio do pau-de-leite, pois era ele, o primeiro a plantar por ali, e conseqüentemente o primeiro a colher, porem os gangarras sabendo disso, já tinham amolado o bico, as melancias da roça de João Nunes eram comidas verdes, por que não dava pra esperar amadurecer, e com o jirimum acontecia o mesmo, a safra de juá tinha acabado, mais as batatas de colé já davam pra comer, mas logo, chegou o feijão verde, e em seguida o milho, o algodão já abotoava, o perigo da lagarta tinha passado, a safra tava segura, João Nunes, fazendo suas contas, descobriu, que não era mais um refém da seca, mais era um refém do comprador de algodão na folha, pois esse conhecia as necessidades do pequeno agricultor, aproveitava disso, para fazer o preço de acordo com sua convivência. A safra foi colhida, vendida, e João Nunes que tanto trabalhou teve como saldo o trabalho, pois devia tudo. Os meninos não ganharam as alpercatas, mas João Nunes, teve o cuidado de mandá-los pra escola de Francisca de Antônio Amancio, calçados com currulepos feitas por ele mesmo. O plantio de algodão seridó, aumentava de ano para ano naquela região, pois ele é resistente às longas secas, sua fibra longa, por isso estava entre as melhores do mundo, o caroço muito rico em óleo comestível, sua torta boa para alimentação animal. A procura por sua pluma, era disputada pelas grandes industrias de beneficiamento, entre elas estavam, Cica, Sambra, Anderson Clayton, Araújo Rique, Macilon, Sidol, Lustoza e outras; algumas dessas industrias usavam lenha como combustível, para movimentar suas máquinas, entre elas a Cica, e certo dia João Nunes tomou uma decisão, foi ao Banco do Brasil, pegou dinheiro emprestado para investir na cultura do algodão, derrubou a catinga, vendeu a lenha para a Cica, à ferrovia. Arrancou todo o toco, transformou-o em carvão, e a terra estava pronta, pra plantar o ouro branco, comprou dois cultivadores, dois bois mansos, para tracioná-los, comprou também duas vacas leiteiras, e algumas ovelhas, comprou roupas para os meninos, por que as que eles usavam eram feitas de sacos, que vinha com açúcar, cada um ganhou um chapéu de palha, um par de alpercatas, mas não jogaram fora os currulepos, nessa época uma coisa muito boa aconteceu, Seu Miguel voltou pra trabalhar e ajudar a carregar água, pois essa era muito longe do serviço, Antônio de Mané Pretim veio com os irmãos, os negros de Siliqueira também vieram com todos os seus, o velho Zé Fernandes fazia carvão, junto com seus filhos, José e Valdomiro e a velha Zefa sua mulher, só vivia fumando num cachimbo muito fedorento, Caetano Pedra também cortava lenha, fazia carvão, vendia escondido de João Nunes de Lucena, mas nunca pagava seus trabalhadores, Mané Biriba carregava tudo isso em seu velho caminhão Estudbak que passava mais tempo no prego do que rodando, mas quando voltava da rua, trazia toucinho, tripa de boi cheia de sebo, para o velho Zé Fernandes juntamente com Caetano Pedra temperarem o feijão, muitas vezes Onave almoçava e jantava junto com eles, enquanto isso o algodão ai sendo plantado e crescia a todo vapor, a chuva estava vindo pontual, e se essa safra fosse boa Onave ia ganhar um par de sapatos, pra ir assistir as novenas na casa de Chiquinha de Mané Canuto, onde o velho papagaio ajudava a cantar o bendito das trezenas Santo Antonio, pois o mês de maio se aproximava, e logo vinha também o mês de São João, onde as festa na casa de Zé Oliveira no Jardim, como também às de Pedro Nunes no Arapuá, era de lascar a riúna, pois ambas eram muito animadas, principalmente quando o tocador era Juvenal, ou Antonio Vitor, por que ambos eram bons puxador de fole, pela redondeza não faltava rodadas de jogos de cartas, onde era rifado no baralho, pratos de chouriço mal-feito, quartos de bode, pedaços de carneiros, juntamente com bandas de porcos, e ali os jogadores iam cuspindo seus tostões na boca do diabo. Sempre que tinha uns tostões no bolso, Onave pegava carona no caminhão de Mané Biriba, para ir a cidade, comer cocorote, chapéu de couro, beber crush ou gasosa. Ajudava a carregá-lo e a descarregá-lo de lenha ou carvão para pagar a passagem, às vezes assistia um filme de cow-boy, no cine prado, outras vezes ia ao circo alegria, quando esse se achava na cidade, pois ele vivia quase sempre só em sua casinha, por que João Nunes saáa muito, para as festas da redondeza, junto com seu amigo Gilberto, que também faziam visitas demoradas nas festas da região, mais na época de colher algodão sempre vinha pessoas para trabalhar, e ficavam uma temporada, que também lhes servia de companhia, entre eles Seu Migué que tinha lhes carregado nos braços, na época de serviços. Onave se ocupava em fazer a comida, pegar água lenha e outros, depois de feito essas coisas, ele chamava Ventania para ir caçar tejo, pois o couro deste tinha um preço que compensava passar o dia inteiro cavando um buraco num formigueiro para chegar até ele, e nos fins de semana, ia caçar junto com Zé Grande, pois esse sempre sabia onde morava um peba, uma ticaca ou um camaleão, pois nem toda semana tinha as tripas ou toucinho pra misturar com feijão de corda, mas no seu pensamento, não faltava objetivos, empacotados e amarrados com os barbantes da esperança, e da perseverança.

O CARCARÁ

Certo dia João Nunes chegou em casa, furioso, trazia debaixo dos braços dois borregos recém-nascidos, e ambos ensangüentados, faltando os olhos e as línguas, e ainda para irritá-lo mais vinha atrás dele, a ovelha mãe no maior berreiro do mundo.
Quem teria feito aquilo, com aqueles bichinhos, alguém tinha que pagar por tamanha crueldade feita a aqueles inocentes, mais naquele momento a única coisa a ser feita era colocar leite na boca deles com a colher, pois sem a língua eles não mamavam; depois de alimenta-los começou o trabalho de investigação, para chegar ao culpado daquilo tudo, e depois faze-lo pagar pelo mal feito; foi a casa grande e contou tudo a sua irmã Severina que ficou horrorizada com a aquela perversidade, que bicho tenebroso andava por aquelas bandas, por que tinha feito aquilo com os cordeirinhos, Alcinda que escutava de longe a conversa se aproximou e disse, que quem fazia isso era lobisomem, por que ela já tinha visto um muito grande comendo um carneiro, e advertiu:

- Cumpade João tome Cuidado ao andar por aí atrás dessas ovelhas, por que esse bicho já comeu muita gente, não foi mesmo Severina?
- Foi Alcinda, e lá no Caldeirão do velho Santo Carneiro, ele comeu oito cachorros numa só noite.

Nisso chega Mané Roldão, e foi dizendo que aquilo tudo era mentira do povo, que lobisomem só comia galinha no poleiro e principalmente aquelas bem gordas, e que ele mesmo ia mostrar para todo mundo o remédio contra lobisomem, e Vicência que lá da sua casa avistava o grupo reunido, foi pra lá saber o que estava acontecendo, e ao ser informada do caso dos borregos ficou horrorizada também, e se lembrou logo de ter visto na areia da beira da cacimba, rastros de um bicho diferente, e que esse bicho era o mesmo que comia todos os cururus da região, é tanto que ela nunca mais tinha ido lá rapar as cuias, e que a cabaça comprida de bater nata, nunca mais ia ser lavada naquela cacimba.

- E então a senhora me leva lá, pra ver essas pegadas comadre Vicência, que eu armo as aratacas pra pegar ele.
- Ave Maria cumpade João, dizem que esse bicharoco não cai em arataca.
- Mais eu vou pegar ele de qualquer jeito, vou agora mesmo lá nos porcos falar com Gilberto de Natalia, ele já foi soldado, e deve saber como fazer uma tocaia pra pegar esse peste dos diabos.

Mas ao chegar lá Gilberto argumentou que durante o seu tempo de policial só tinha registrado algumas queixas contra esse bicho tenebroso, onde em alguns casos, pediam para intima-lo, mas que ele mesmo em pessoa nunca tinha pegado um, apesar de ter corrido atrás de muitos, mais sabia de uma pessoa que conhecia a fundo essa pratica de pegar lobisomem, e que até tinha o couro de um guardado.

- Quem é essa pessoa Gilberto?
- Você conhece, João Nunes, é o velho Zé Pio que mora lá no Jardim.
- Ah!,conheço, dizem que ele é muito sabido, que sabe até consertar engenho de pau.
- Isso mesmo, disse Gilberto, eu me lembro que ele consertou o engenho de pau de dona Mariquinha sua mãe, que vivia caindo os dentes, dava a maior dor de cabeça, o mestre Zé Pio foi lá, colocou um esgravote, uma cunha de topo, nunca mais caiu um dente, vá lá pra ver, tá rodando até hoje.
- Isso mesmo, então eu vou lá já, na casa dele, e eu vou é aqui pelo caminho do Grotão que é mais perto.
- Até mais João Nunes, mas tome cuidado com esse bicho.
- Arra que eu ia até esquecendo de me despedir de Gilberto, agora eu tou feito com esse diabo desse lube comendo meus borregos, mais eu pego ele. Custe o que custar, coisa chata danada, agora fico eu pra lá e pra cá, só por causa deste bicho danado, opa vou por ali, que é mais perto, eu bem que pensei, tô chegando, vou pedir informação naquela casa.
- Ô de casa ô de fora, o meu senhor onde é a casa do velho Zé Pio?
- Seu João Nunes, é a casa velha da bulardeira.
- Ah já sei, aquela que tem gente sentada lá do lado de fora.
- Isso mesmo.
- Então até mais.
- Ainda bem, me parece que ele tá em casa, agora eu resolvo isso já, já.
- Seu Zé Pio tá por ai?
- Tá ali dentro.
- Chegue pra cá seu João, eu tô aqui seu João.
- Ainda bem, boa noite seu Zé Pio.
- Boa noite seu João Nunes, alguma novidade seu João?
- E muita seu Zé Pio, eu tô muito aperreado home.
- Por que homem?
- Um bicho que tá comendo os olhos e a língua dos meus borregos seu Zé Pio.
- Ah já sei é o lobisomem, hoje mesmo eu vi, por exemplo, o rastro de um ali no açude do Bota-abaixo.
- O senhor sabe onde eles moram seu Zé?
- Sei por exemplo é lá na Serra Preta.
- O senhor já pegou algum?
- Eu já peguei foi muitos.
- O senhor tem os couros deles?
- Por exemplo, não tenho mais não, o último, por exemplo, eu vendi hoje pra Antonio Aprígio, por exemplo, é muito procurado por que é cabeludo, também serve, por exemplo, para fazer batina pra catimbozeiro.
- Seu Zé como é que faço pra pegar o que tá comendo meus borregos?
- Isso é fácil, é só, por exemplo, você me pagar, eu lhes ensino na hora.
- Mais seu Zé Pio eu tô sem dinheiro.
- Você me dar dois carneiros, e eu lhe ensino, por exemplo, como pegá-los.
- O senhor falou pegá-los, são muitos por aqui seu Zé?
- São muitos sim, pelo o que eu tô vendo, por exemplo, vão comer até o pai do chiqueiro.
- Não me diga isso seu Zé, vá pegar eles e o senhor fica com o couro que é muito caro.
- Não eu, por exemplo, não posso.
- Então me ensine como pagá-los, e toda vez que eu pegar um eu venho lhe trazer o couro.
- Assim não funciona, o couro fica, por exemplo, com a pessoa que pega ele.
- Mas o senhor vendeu.
- Ah mais só, por exemplo, aquela pessoa que pega um pode vende-lo.
- Então você me ensina e eu lhe dou um borrego da próxima ovelha que parir.
- Não você me dá dois.
- Tá certo seu Zé, agora me diga logo como é, que já tá tarde meu menino ficou só em casa, eu mandei ele tirar o leite da ovelha, mas ele não sabe dar pros burregos que o lobisomem comeu as línguas.
- Seu João, por exemplo, na sua casa tem gato preto?
- Tem não seu Zé.
- Pois bem o senhor vai ter que arranjar um, por exemplo, bem grande tem que ser bem grandão, grandão mesmo, também tem que ter, por exemplo, os dentes bem branquinhos, e as unhas também, por exemplo, bem branquinhas, por exemplo, o senhor o pega, e bota ele, por exemplo, num espeto bem grande e assa ele vivo.
- Ave Maria seu Zé eu não vou fazer isso não, Deus me livre de tamanho pecado.
- Então o senhor não quer pegar lobisomem.
- Mais seu Zé não tem outro jeito?
- Tem não seu João, lobisomem só se pega com isca de gato preto assado vivo, e sem sal, e olhe lá, olhe lá.
- O que, Seu Zé.
- Por exemplo, como eu ia lhes dizendo, depois dele bem assado, por exemplo, o senhor o leva no espeto ao lugar que o lobisomem comeu os olhos dos borregos, lá, por exemplo, o senhor arma um laço e coloca o espeto dentro do circulo do laço, tomando, por exemplo, o cuidado de deixar o gato assado lá em cima na ponta do espeto.
- Seu Zé pelo o que eu vejo e mais fácil pegar o lobisomem com as mãos do que pegar o gato que o senhor me recomenda, veja lá assar ele vivo.
- Mais Seu João o senhor é pescador, pegue ele com a tarrafa.
- Só se for desse jeito, mais eu vou desistir de pegar o lobisomem assim, portanto eu já vou embora seu Zé Pio, até mais, eita meu Deus e se quando eu chegar lá o lobisomem tiver comido Onave junto com os borregos e a ovelha, Ave Maria eu nem gosto de pensar nisso, quando chegar lá vou perguntar a Onave se ele sabe onde tem um gato preto, talvés que saiba, mas cadê a coragem de assar um gato vivo, meu Deus né nem bom pensar nisso, mas os lobisomens vão comer até a ultima ovelha, mais assim não vai dá, ah já sei, já que não tenho coragem pra fazer isso, vou pagar a Pajaraca pra pegar o gato e me entregar ele assado, depois eu mesmo levo ele, pra butar no laço pro bicharoco comer, arra com tanta coisa na cabeça, que quase eu ia passando da casa.
- Ah Onave tá com a luz acesa, ainda bem, tá tudo bem, Onave cheguei abra a porta que eu cheguei, e vá me dizendo uma coisa, você sabe me dizer quem tem um gato preto?

E a resposta veio logo:

- Sei, por que?
- Né nada não, aonde é?
- É lá na casa de seu Pajaraca.
- Ah é mesmo? Eu vou ali, mas volto já, ah eu vou é levar logo a tarrafa.
- Vai pescar?
- Não! Já eu volto.
- Ah bom.
- Eu vou andar ligeiro se não Pajaraca dorme, e eu não arranjo esse gato hoje.

Zé Pajaraca não sabia ler e admirava muito às palavras difíceis e compridas das gentes da cidade, e por isso não era fácil entender o seu linguajar.

- Quem vem ali meu Deus, ah é o Pajaraca mais Bigaí, boa noite seu Pajara.
- Boa noite seu João.
- Vai pra onde?
- Eu vou lá nos pés de batata de puiga pegar uma batata pra fazer chá pa Bigaí tumá pa ver se baixa esse buchão dela, ela anda biqueira, no decumê ta duente inté jurô qui tá duente.
- E o senhor vai pra onde.
- Eu ia lá na sua casa.
- Então nóis vorta.
- Ô Pajaraca me diz uma coisa? Você tem gato na sua casa.
- Tem seu João.
- Que cor é?
- Seu João, o senhor me discuipe, mais o gato de lá de casa é da cor do satanás.
- Como assim seu Zé?
- Ora seu João, o povo diz por ai que o cão é todo preto, pois bem o gato de lá de casa é desse jeito.
- Que cor é os dentes dele?
- Branco.
- E as unhas?
- Também, porque seu João?
- É porque eu tô procurando um gato assim, e eu lhe dou o meu.
- É só o senhor me ajudar a pegá-lo.
- Ele não é manso?
- É não seu João, eu já tentei pegar ele pra matá-lo.
- Por que Pajaraca?
- Porque ele bebe o leite do menino quase todo dia seu João, e se eu pegasse ele eu ia queimá-lo vivo.
- E você tem essa corage?
- Ora se tenho!
- Então vamos pegar ele e eu pago pra você assar ele vivo.
- Não precisa pagar não, eu asso ele é de graça, só assim ele me paga o leite do menino que ele tem roubado.
- Então vamos pegar ele.
- É nesse estante, vamos devagazin que ele já deve ter entrado pelo buraco do telhado pra robar os preás que eu peguei hoje, e tão pendurados no cambito lá na cozinha e nóis pega ele dentro de casa, o buraco que ele entra é aquele você toma lá e eu abro a porta.
- Pera aí Pajaraca que eu armo a tarrafa e ele cai nela.
- Então vá lá e quando tiver pronto você me diz que eu abro a porta.
- Mais Deus é bom, veja como tá dando tudo certo, certinho, certinho, e amanhã...
- Tá falando com quem seu João?
- Ninguém, é ninguém Pajaraca, pode abrir a porta.
- Lá vai ele seu João.
- Deixa vim, miau, miau, miau, peguei Pajaraca.
- Seu danado agora você vai ver o que é calor de fogo seu peste, quantas vezes esse danado robou minhas coisas de comer, ontem eu peguei um camaleão, tratei salguei e butei pra enxugar, e hoje quando, Bigaí foi pegar ele pra fazer pro almoço só achou o cambito, mais agora quem vai pro espeto é você seu gato da peste.
- Então pronto Pajaraca, tá tudo resolvido, o gato tá na rapuca agora é só você assar.
- E vai ser ainda hoje seu João.
- Sim, e que hora eu venho pegar ele?
- Amanhã cedo, cedo bem cedo.
- Então até amanhã.
- Até, seu João.
- Mais como eu ia dizendo, aaahh Deus é bom mesmo, deu tudo certo do jeito que eu queria, até uma caba corajoso pa assar o gato, eu achei, se prepare seu lubi comedor de bode, que desta você não escapa. Opa parece que alguém falou.
- Fui eu seu João.
- O que foi Pajaraca?
- Diga-me uma coisa Seu João o senhor quer o gato com sal ou sem sal?
- Sem sal Pajaraca.
- Então tá bom, já vou acender o fogo.

João Nunes foi pra casa deu o leite dos borregos, jantou e foi deitar comentando os acontecidos do dia, lamentou-se por causa de tanto trabalho, quis saber se Onave tinha dado o comer da ovelha? E ficou conversando só por muito tempo.

- Essa ovelha, é besta com esses borregos dela, agora deixe essa noite passar seu danado, que amanhã cedo eu armo um laço pra pegar esse diabo de lobisomem, apague a luz Onave.
- Eita que eu tô cansado de tanto andar, vala-me Deus me lembrei de uma, eu nem perguntei a Zé Pio como é que se bota o gato na ponta do espeto pra assar ele vivo, se Pajaraca enfiar o espeto nele vivo ele morre, se ele amarrar com um cordão, antes de esquentar o fogo queima, já sei, eu vou voltar lá na casa dele, pra mandar ele amarrar o gato com arame no espeto, arra com tanto aborrecimento só por causa desse lobezome desgraçado, amanhã você me paga seu peste, oh escuro danado, daqui eu já vejo o fogo que Pajaraca acendeu, esse cheiro de cabelo queimado, deve ser do gato sapecando lá no borrai, já tô chegando, lá ta Bigaí, Pajaraaaaca é João Nunes.
- Diga seu João, já véi buscar o gato, já tá quase pronto.
- Amarrasse ele na vara com que?.
- Com arame seu João.
- Que sangue é esse na mão de Bigaí?
- Ah seu João, a luta aqui foi feia pra amarrar esse gato no espeto, minha muié tá aí toda rasgada, ainda bem que ela é uma muié macha, porque se não, o gato não ia pro espeto, mais tarde eu baixo ele pra mais perto das brazas, depois eu esfrego ele no borrai e pronto, amanhã cedo eu levo ele lá, pro senhor.
- Então tá bom, eu já vou dormir.

E no dia seguinte muito cedo o João Nunes se levanta, o dia já vem raiando.

- Onave acenda o fogo pra fazer o café, que eu vou, lá no roçado vê se as ovelhas tão bem, eu vou andar ligeiro, porque quando voltar eu corto o pau pra fazer o arco, pego a corda pra fazer o laço, ô meu Deus lá vem Mané Roldão, o que será que ele quer, já sei, quer saber como tão os borregos, eu vou sair logo se não ele vai me empatar, eu vou logo me encontrar com ele.
- Bom dia cumpade Mané Roldão.
- Bom dia, cadê os borregos. Tão bons?
- Mais ou menos, tão mamando, não eu tô dando leite com a cuié.
- Você tava indo pra onde?
- Eu vou ali no baixióte.
- Ver o que?
- Um pau de lenha.
- Pra que?
- Pra queimar cumpade Mane.
- Queimar aonde?
- No fogão cumpade Mané.
- Eu vi quando você passou ontem de noite vinha de onde?
- Do Jardim cumpade Mané.
- Viu quem lá?
- O véi Zé Pio.
- Até mais, ah ia esquecendo, quem foi que passou ontem aqui no corredor?
- Não sei não cumpade Mané.
- Tá bom até mais.
- Vá pro diabo com tanta pergunta, tanta coisa pra fazer, o leite dos bichinhos, depois, agora eu tiro logo o pau ali no baixote, depois, eu dou o leite dos borregos, quando terminar; valei-me Deus eu tô todo atrapalhado não sei nem o que vou fazer primeiro, ah já sei, vou dar o leite dos borregos, vou armar o laço como o velho Zé Pio me ensinou, mas disse que eu não falasse pra ninguém, já pensou se Pajaraca tivesse chegado na hora que cumpade Mané tava aqui, todo o mundo ia ficar sabendo.
- Lá vem ele com a isca de lubezome, eu vou logo butar ele dentro de um saco pra ninguém ver, trás pra cá Pajaraca, bote aqui, e vá embora logo, que depois eu lhe pago.
O senhor não vai pagar nada não, Seu João, eu fiz com o maior prazer, mais gato ladrão que tivesse.
- Tá bom home vá embora, que eu vou dar o leite dos borregos, vem cá meus bichinhos, tome seu leitinho, toma mas tomem bem rápido, que eu tô com pressa, assim assim pronto, Agora aaa o pau do laço, eu tiro lá no lugar de armar, é isso mesmo, e eu vou é pelo caminho do Arapuá, pra ninguém me ver com esse saco com essas coisas dentro, eu passo pelo cancelão que lá no baixio do pau de leite tem muitas varas de jurema preta que dar certinho pra mim fazer o pau do arco, eita meu Deus daqui eu já vejo mais trabalho, o cancelão tá todo torto, mas na volta eu conserto ele, bem que eu disse olha pra lá João, como tem varão de jurema nesse lugar, eu vou é logo cortar um pra levar, esse ta no jeito, já parece um badoque, pelo jeito que eu tô vendo essa jurema é dura pra danar, mais eu corto ela assim mesmo, eita que foice cega danada, mais cortou assim mesmo, agora o pau já tá cortado eu vou indo, que já tá perto do lugar, tô chegando, bem no ponto que o bicho comeu os olhos dos borregos, foi aqui, então eu armo o laço aqui, os buracos, ah os buracos um pra infincar o pau do laço, o outro pra mim butar o espeto com a isca, um deles tem que ser bem fundo porque, o pau do arco é forte, e eu vou ter um trabalhão pra dobrá-lo só, depois de tudo bem fincado no chão, começou a luta, pra armar o laço, puxe forte João puxe mais puxe mais, mais, mais, mais, epa tá bom tá bom; pronto ficou ótimo, eu vou logo sair daqui por que esse gato ta cheirando muito, o bicho vai sentir de longe, e é já ele tá aqui, ainda bem que ninguém me viu aqui, agora eu vou por outro caminho, ah mais tem que consertar o cancelão, eu vou logo fazer isso, as ovelhas eu não vejo, lá vem Onave, será que ele viu elas?
- Ô Onave você viu as ovelhas?
- Vi! Tão todas juntas, o senhor vai pra onde?
- Eu vou ali.
- E vem de onde?
- Eu fui ver se tem buraco na cerca.
- Fez o que com aquelas varas que o senhor levava?
- Deixe de pergunta besta, ora mais tá, opa lá vem Gilberto.
- Bom dia Gilberto.
- Bom dia João, como foi lá? Viu o velho Zé Pio, João Nunes?
- Vi.
- E como foi lá?
- Ele me ensinou e eu fiz tudo conforme ele me orientou, e amanhã essas horas o bicho já tá morto.
- E você quer que eu venha lhe ajudar?
- Não, não preciso não eu tô doido pra pegar esse bicho, e dessa vez ele não escapa.
- Vá com cuidado João.
- Deixe comigo Gilberto, e quando tiver tudo terminado eu vou lhe avisar.
- Tá bem até amanhã.
- Até mais, Onave vá botar água pra as ovelhas, e quando terminar arrume a comida que eu vou lá na casa grande.

E ao chegar lá, foi cercado de perguntas:

- Cadê o borrego cumpade João?
- Tão lá em casa cumade Severina.
- Será que vão criar?
- Vão cumade.
- Ó cumpade João, você come gato assado?
- Que historia é essa cumade Severina?
- Onave me falou que você assou um gato ontem mais Pajaraca.
- É conversa de Onave cumade, você sabe que ele é brincalhão.
- Ah tá bom.
- Eu já vou.
- Que conversa danada foi essa de Onave, ele deve ter visto o gato quando tava no saco, mas ele foi cedo olhar as ovelhas e deve ter voltado para ver o que eu ia fazer com aquele danado, tem nada não, depois que ele ver o lobezome vai entender tudo.
- Vem de onde cumpade João?
- Dali mesmo cumpade Mané.
- Você vai pra onde?
- Eu vou pra casa.
- Viu Vicência por aí?
- Vi não cumpade Mané, té mais.
- Eita home que faz pergunta, daqui a pouco ele já sabe tudo sobre o gato, e eu vou logo é pra casa, descansar um pouco, lá vem Onave com um galão d água que vem baixeiro, ô menino esperto danado, se não fosse ele eu tava frito, com tanta coisa pra fazer; e agora eu vou comer e deitar.
- O feijão queimou Onave?
- Não.
- Ora não, chega tá amargando, pegue esse prato aqui na rede que eu já to cochilando.

E mais tarde:

- Será que eu tô sonhando, valei-me Deus, já é de tarde e eu vou dar uma olhada de longe pra ver se tem novidade, já que eu vou levar a espingarda vou passar, na cacimba do gama, e ver se eu mato uns preás, e na volta eu passo na casa de Inácio, pra tomar um cafezinho, arra com tanto carrapicho nesse lugar, e preá nada, agora eu tenho que ir devagar pra ver se tem alguma coisa no laço, mais me parece que o bicho não veio, ah já sei porque, ele não anda de dia, e eu vou embora, e vou entrar aqui na casa de Inácio, parece que ele não tá em casa, ah tá aí.
- Boa tarde Inácio.
- Boa João, vem da roça João?
- Venho lá dos pés de cumaru.
- Ô Rita faz um cafezinho.
- Ô Inácio eu já vou botar a janta, o café é depois.
- Então eu não vou esperar, Onave tá só e eu tenho que dar leite dos borregos, e boa noite.
- Diabo eu tava doido pra tomar um cafezinho, eu vou passar na casa de cumade Vicência lá deve ter café feito, e lá eu tomo uma xícara, e acabo de chegar em casa, e Onave deve ter feito o rubacão e cozinhado as traíras, que já tão secas a dias, eee não tem ninguém na casa de Vicência, e lá em casa não tem café, deixa pra lá, já tô chegando e Onave tá sentado na porta.
- Deu água a ovelha Onave?
- Dei!
- Então eu vou logo tirar o leite dela e dar pros borregos.
- Trouxe preá pra gente?
- Nem um, sai ovelha danada deixe eu dá comida pra seus filhos.

E ao terminar João Nunes jantou e foi deitar, e ordenou:

- Onave, apague a luz e vamos dormir.

Rolou pra lá, rolou pra cá e sono nada.

- Eita enquanto eu não pegar esse bicho eu não vou sossegar, já é meia noite e eu não durmo, agora que eu consigo cochilar, e o dia já tá amanhecendo e eu vou levantar Onave pra ir na casa de cumade Vicência, tomar emprestado uma cuié de café.
- Acorda Onave e vá la na casa de cumade Vicência, e diga que eu mandei dizer que ela me mande uma cuier de café emprestado.
- E sabe de uma coisa, eu não vou muito cedo lá na armadilha não, primeiro eu vou arrumar as coisas por aqui, aa Onave já veio com o café, e já tá fazendo.
- Me da aqui Onave.
- O que?
- Uma cuia com água que eu vou amolar minha peixeira bem amolada, e eu vou também lavar o bacamarte, vá botar aquela tábua lá no pé de pereiro, que eu vou experimentar esse zizuito, e tome-lhe chumbo, mais um, mais um, agora tá bom, carregado com chumbo grosso, a faca tá na cintura e eu vou lá, não vou nem passar na casa de cumpade Mané Roldão, se não ele fica fazendo perguntas, e já é oito horas e o lobezome já deve ter morrido enforcado, já tá chegando perto da casa de Inácio e eu vou passar por fora, por que se não ele vai caçar conversa, e eu tou com pressa, ainda bem que ele não me viu, e agora eu vou é correndo, eita que esse bacamarte pesa, eu não sei como era que lampião suportava um peso danado desse na cacunda, epa ta chegando, pera aí, o que é aquilo, será que eu tô enxergando pouco, lubezome não tem asa, eu tô vendo asas abertas e batendo, vou olhar mais de perto pra tirar a duvida, a vôou, meu Deus é os carcarás comendo o gato, perdi meu tempo, não sobrou nada, tenho que assar outro, mas será que o bicho não veio, epa vem vindo uma pessoa ali quem será? Ah é cumpade Mané Roldão, que ver, agora ele vai fazer perguntas.
- Tá fazendo o que aí cumpade João, com esse laço armado?
- Isso aqui é pra pegar o lubezome que comeu os olhos e língua dos meus borregos.
- Mas cumpade João você acredita nisso?
- Acredito cumpade Mané. E foi o velho Zé Pio que me ensinou como pegá-lo.
- O velho Zé Pio é um mentiroso cumpade João, não existe lubezome não meu cumpade, pere aí? O que é isso aí na ponta dessa vara?
- É o resto da isca que eu butei pra atrair o lube, mas quem comeu? Foi o diabo dos carcarás.
- Pois olhe cumpade, o carcará que comeu essa isca aí é o mesmo que comeu a língua e os olhos de seus borregos.
- Não é possível!
- Então você pergunte a Liodoro pra tirar sua duvida.
- Então esse carcará, tá fazendo de mim um besta, já comeu a língua dos borregos, agora ele comeu o gato assado só deixou o rabo.
- Ô cumpade, pra butar uma isca tem que assar?
- Foi o velho Zé Pio que me ensinou cumpade Mané.
- Largue essa historia de lobezome pra lá cumpade João, e trate de livrar suas ovelhas do carcará.
- Então eu vou fazer isso mesmo, porque eu só tive com isso foi muito trabalho, e, mais o pecado de assar o gato vivo; mais eu vou falar com Frei Damião pra culpa ficar com o velho Zé Pio, e agora mesmo eu vou falar com Liodoro pra ele me ensinar como acabar com esses carcarás dos diabos; droga só o trabalho pra fazer essas gangorra, e nada de lubezome.

E chegando na casa de Liodoro, foi logo contando o caso pra ele, e este foi logo dizendo:

- Tio João o senhor foi na conversa daquele mentiroso, o velho Zé Pio só sabe fazer colher de pau.
- E você já sabia do negocio do gato assado?
Já tio João!
- E quem lhe falou Liodoro?
- Foi Mané Roldão! Eu vim da casa dele neste instante Tio João.
- Eita home que conversa fiado, sim, mas como e que eu faço pra dar fim a esses carcarás?
- É sair caçando eles por ai e passar eles na boca da lazarina, e outra coisa o senhor bote Onave pra caçar o ninho deles, e quando achar matar os filhotes, que só comem coisa mole, isto é língua e olho de borrego.
- Ainda bem que meu bisaco tá cheio de munição, e eu vou começar agora mesmo.
- Olhe tio João, lá pras bandas do cabaceiro tem muitos ninhos.
- Tá bom eu vou já pra lá, agora eu vou dar trabalho a Onave que tá muito desocupado, e lá vai ele com um galão d água.

E quando chegou em casa chamou Onave e lhes disse:

- Daqui pra frente você só vai ter um trabalho, é caçar ninhos de carcará, que é pra eu ir lá depois matar, tantos os pais como os filhos.
- Ah pai eu já sei onde tem um.
- Onde é?
- É lá perto do Caldeirão do velho Santo Carneiro.
- Então nos vamos lá ainda hoje, vamos arrumar as coisas, dar leite aos borregos água pra ovelha, e feche logo a casa, que a espingarda tá carregada e o bisaco tá cheio de munição, e Liodoro me disse que o melhor lugar pra matar carcará é no ninho, principalmente quando eles estão alimentando os filhos, por que tem sempre um por ali, e o outro chega logo com a comida, porque carcará novo come sem parar, e quando alguém chega por perto, eles tentam a qualquer custo defender o ninho, aí é hora deles me pagarem, a safadeza que eles fizeram com os filhos da minha ovelha, porque eu vou arrancar a língua e os olhos deles também, vamos logo por aqui, a gente passa pela casa de Maria das Queimadas, de lá nos passa no riacho da barragem de Zé Alves, aí já tá perto, do Caldeirão do véi Santo Carneiro, vamo, ali vem gente.
- Bom dia Antonio Lucena.
- Bom dia João Nunes.
- Inacinha tá por ai?
- Tá lá na casa dela.
- Eita Onave parece que eu tô vendo a queda do carcará.
- Ô Maria das queimadas eu vou passar aí por dentro da sua roça.
- Pode passar João Nunes.
- Opa lá tá a casa de Teofe Batista, na volta nos vamos passar lá pra comprar o café, e quando chegar em casa ainda vou torrar e pilar, pra pagar aquela cuié que você pegou emprestada de cumade Vicência.

Nisto Onave grita:

- Pai já tô vendo o ninho.
- Aonde?
- Olhe, lá naquele pé de imburana.
- Ah tô vendo, é já, já seus danados, vocês me pagam.
- Veja pai, os dois velhos tão lá em cima.
- Vamos de quatro pé, por trás dessas moitas, fique calado, cuidado com essas urtigas que já me queimaram todo, pare aí, já dá pra atirar neles, fique quieto, já tá na mira, tome chumbo no peito, seu carcará dos diabos, lá vem caindo Onave, agora seu danado, eu vou lhe machucar com os pés, vou pisar em cima de você seu peste, aiiiiiiii aiiiiii acode aqui Onave, o carcará me pregou com o bico e as unhas, puxe as pernas dele, aiiiii solte, enfie um pau entre as unhas dele, segure as pernas, se não ele me pega de novo, assim segure firme, agora eu vou ver se machuco a cabeça dele com duas pedras, pra vê se ele abre o bico.
- Pai, olha o outro lá em cima.
- Cale a boca, que eu vou carregar a espingarda, cale a boca olhe ele lá, pronto cadê ele, olhe lá, tô vendo, tá na mira, tome também seu peste, vem caindo, é pra cair mesmo, correu, pegue um pau e corra atrás, que ele só tá com uma asa quebrada, passe o pau nele, assim, pronto, não pise em cima não, jogue essa pedra em cima desse danado, pronto, pronto ai morreu seu peste, agora Onave você suba no pau, que eu vou cortar uma vara de marmeleiro, pra você cutucar o ninho, pra derrubar essa raça de diabo, que tá aí dentro dele, que eu não vou gastar chumbo com essas pragas do diabo, suba mais, aí tá bom, tome a vara pra você cutucar, assim vá empurrando, eles vão cair com ninho e tudo, vem caindo, lá vem desce rápido se não, tão correndo, mais eu lhes pego seus diabos, criados com língua e olhos de borregos, tome pé que eu quero ver suas tripas sair pelo bico, tome, você também, pronto acabou-se, agora Onave você tire umas embiras naquele pé de Imbiratanha, depois você amarre os quatros juntos, que é pra mim levá-los, pra butá-los espetados nas pontas das estacas da cerca pra servir de exemplos pros outros, e a partir de amanhã você vai caçar mais ninhos, começando pelo Arapuá, passando pelo Pau-de-leite, no Cabeceira, na Quixaba, no Logrador dos Minéus, no Bota-abaixo, no Jardim, nos Porcos, no Loreto, na Cachoeira Grande, nas Cupiras, nos Cavucos, e enquanto tiver carcará nessa redondeza, eu não vou sossegar

A RAPOSA

- Eu acho que esse ano vai ser seco.
- Vire essa boca pra lá Vicência, você só fala em seca.
- E você não tá vendo o sinal Mané Roldão?
- E qual é o sinal que eu não vejo?
- É por que você não presta atenção Mané Roldão, deu aquela chuvinha e nunca mais, eu já tô sentindo o cheiro de lagarta no algodão, é bom você ir logo pulverizando pra ver se a gente colhe algumas arrobas, por que se não a coisa fica feia.
- Vicência você sabe que eu sou doente e não posso trabalhar, você é quem deve ir pulverizá-lo.
- Ah então eu vou mandar outra pessoa fazer isso, por que toda vez que eu preciso fazer qualquer coisa você diz que tá doente.
- Besteira, faça um cafezinho aí.
- Eu não vou fazer café não, eu vou é procurar um trabalhador pra pulverizar meu algodão, e eu já sei quem vai fazer isso.
- Diabo não precisa nem ir lá, daqui eu grito e ele vem aqui, ôôô compadre João, compadre Joãããão, venha cá.
- Deixe de grito home.
- Vá fazer o café.
- Ah ele já vem.
- Ora você só vive sentado aí nessas pedras e não faz nada, enquanto ele chega eu vou fazer o café, ô home preguiçoso é esse meu marido.
- Cumpade João vem chegando, cale essa boca home.
- O que é que você quer comigo comadre Vicência.
- Venha pra cá compadre João tomar um café.
- Trás pra cá Vicência.
- Ora Mané Roldão até o café você quer que eu leve aí.
- Vicência você sabe que eu sou doente.
- Você só vive dizendo que é doente e nunca morre.
- Qualquer dia desse você vai me ver morto.
- Tomara que chegue logo esse dia, sim compadre eu quero que você mande Onave pulverizar meu algodão.
- Comadre, Onave não pode carregar a bomba cheia.
- Tem nada não cumpade mais ele é muito ligeiro, enquanto Pedro de Lalá pulveriza uma carreira ele pulveriza duas.
- Tá bom você quer eu mando.
- Mais amanhã bem cedo.
- Tá certo eu mando.

E no outro dia ele chega cedo, e dona Vicência lhe entrega a tralha, isto é, a bomba o BHC e recomenda:

- Eu quero rápido e bem feito.
- Tá bom tia Vicência, começa aonde?
- Lá em baixo perto da cacimba, tome logo esse leite que esse veneno é muito forte, e quando o vento soprar pra seu lado, você ande de costas, mas não é pra parar.

E Onave ataca rua a cima e rua abaixo, e na hora do almoço Vicência quer saber se as lagartas tão morrendo.

- Ora se tá Tia Vicência, assevera Onave, até os cururus que comeram as lagartas que caíram no chão já morreram, e os urubus que tão comendo os sapos mortos também tão morrendo.
- Oba assim é que tá bom. Tá vendo aí Mané Roldão, Onave tá fazendo o serviço bem feito.
- Eu sabia disso Vicência.
- Mais você nem vai lá pra ver.
- Quando o sol esfriar eu vou lá.
- Eu que sou mulher vou ao sol quente, no sol frio.
- Mais você tem saúde Vicência.
- E chuva nada, eu acho que esse ano é seco mesmo, eu vou logo buscar as vacas que eu sei que você não vai mesmo.
- Ora Vicência vá logo se não amanhã não vai ter leite.
- Mais pelo menos você pegue logo essa cabaça e vá batendo a nata que tá aí dentro.
- E lá vêm você com trabalho pra mim.
- Ainda bem que as vacas já vem, e Onave me ajuda apartar esses bezerros quando ele chegar da roça.
- Já tô chegando tia Vicência, como taá o serviço?
- Tá bem.
- Amanhã eu acabo aquela roça, depois acabo aquela outra.
- Toque esses bizerros pra cá, isso agora feixe a porteira, pronto, e agora venha jantar e amanhã chegue cedo, vai pra lá galinha, vão dormir galinhas, uuum me parece que falta alguém aqui, tem nada não amanhã eu vejo quem é.

E no outro dia, como de fato falta mesmo.

- Eita Mané Roldão! A raposa vai passar no rabo até a ultima galinha, e você fica aí só sentado, logo a galinha carijó que a raposa passou no cedem, logo a mais gorda, a danada podia ter comido a preta, ou a pedrêz, a pescoço pelado, mais tivesse deixado a minha carijó, ah raposa do diabo, daqui a pouco o cupim vai comer também é você Mané Roldão, eu tomara que coma mesmo, que pelo que eu tô vendo a raposa vai comer até o galo, você só fica dizendo que tá doente, eu não vejo nada de doença, a raposa devia comer era você, e não as minhas galinhas, não têm nem coragem de armar uma arapuca pra pegar essa danada, mais eu vou mostrar a você, que eu vou pegar esse capeta, por que o que me deixa aborrecida é ela ter passado no cedem, a minha carijó, tanto que eu gostava da minha carijó.
- Onave chegou Vicência, vá butar a comida dele logo.
- Já vou Mané Roldão, ô Onave cadê Ventania?
- Tá em casa tia Vicência, por que?
- Por que? É pra você pegar essa raposa, que tá comendo minhas galinhas, que dia você termina de pulverizar meu algodão?
- Amanhã.
- Então olhe, você vai ganhar por dia até pegar essa raposa, mas é pra trazer ela viva, que eu quero arrancar os dentes dela com um alicate, e depois eu vou tirar o couro dela viva, e pendurada pelo rabo lá naquele pé-de-pau, e se aparecer outra eu vou queimar viva, por que eu não agüento mais criar galinha pra raposa comer, ela mora ali pros lados do tanque grande, pois ali tem muitas furnas e vai ser fácil pra você pegar ela, e outra coisa, além da diária, que você vai ganhar, eu ainda vou lhe dar dois capões que eu tenho engordando lá no chiqueiro, mais só depois que você me entregar à raposa viva, a pulverização é pra terminar amanhã cedo, pra depois de amanhã nós começar a caçada.

E mais tarde.

- Faça um cafezinho aí Vicência.
- Lá vem você com historia de cafezinho Mané Roldão, agora eu vou é rapar as cuias que já tão todas sujas, e você já sabe que sou eu que faço tudo aqui em casa, e você só ai sentado pedindo café, ai eu já mudei de idéia! na hora que Onave me entregar àquela raposa do diabo, eu vou amarrar ela no meio das galinhas durante uma semana inteira, só depois eu vou arrancar os dentes dela, e depois que eu arrancar todos os dentes é que eu vou pendurar ela pelo rabo pra tirar o couro dela viva, ai ai se você adivinhasse o que eu vou fazer com seus dentes sua raposa, tu já tava bem longe daqui.
- O tempo que você ta aí conversando sozinha Vicência. já tinha feito dois cafezinhos.
- Essa conversa é entre eu e a raposa, por tanto não se meta.
- Como é que Onave vai pegar uma raposa viva Vicência?
- Deixe comigo, quem conhece Onave sou eu, e eu vou logo fazer esse café se não você não para mais de abusar.
- Vicência venha cá.
- O que é Mané?
- Veja se você descobre quem é que vai passando ali no corredor.
- Eu não sei não, quem deve saber é você que só vive com a bunda em cima dessa pedra.
- Eu acho que essa raposa vai deixar você doida.
- Ela é que vai ficar doida depois que eu pegá-la.
- Avia logo com esse café home, e trás um cigarro e uma caixa de fósforos.
- Eu não vou fazer cigarro pra ninguém não.
- Então traga a palha e o fumo que eu faço.
- Toma vai fazer seu cigarro.
- Cadê a faca?
- E você também não quer boca?
- Não só na hora que eu for comer bosta.
- Toma logo seu café, que eu já vou raspar as cuias.
- Procure saber quem foi que passou lá no corredor?
- Eu não tenho tempo pra isso não Mané, eita tempo feio danado eu já tô vendo a seca declarada, só Mané Roldão acredita que a chuva ainda vem, mais mesmo assim vai haver uma safrinha de algodão, por que o serviço de pulverização que Onave fez matou cururu, camaleão, calango, lagartixa, cobra e veja lá a lagarta, ah Onave vem chegando.
- Vá tomar o leite Onave, eu deixei em cima do fogão, mais não vá ficar conversando com Mané Roldão a tarde toda não, você não viu quem foi que passou lá no corredor?
- Vi.
- Quem era?
- Foi Pedro de Lalá.
- E ele disse pra onde ia?
- Pras Queimadas.
- Pra fazer o que lá.
- Disse que ia pegar a cangalha do jumento dele.
- O jumento dele ta lá?
- Não, ele vai trazer a cangalha na cabeça.
- Mais eu nunca vi um sujeito tão besta como ele.
- Por que?
- Por que ele devia ter levado o jumento e na volta já trazia uma carga de lenha.
- Era mesmo! E eu já vou.
- Opa, Onave chegue aqui.
- O que é?
- Pegue uma brasa ali pra mim acender o cigarro.
- Tia Vicência vai brigar comigo.
- Vai nada, ela só tem zuada.
- Onde é que tá o pegador de braza?
- Tá aqui tome.
- Mais Onave você ainda tá ai?
- Já vou tia Vicência.
- E você Mané Roldão, vá buscar as vacas, que eu vou bater a cabaça de nata, se não ela azeda, e depois que você chiqueirar os bezerros venha me ajudar a prender as galinhas.
- Também você só fala em galinha.

E mais tarde.

- Pronto rapei as cuias, prendi as galinhas, valei-me Deus cadê Onave que não vem. Vou gritar ele, a lá vem ele.
- Venha logo jantar, você quer arroz de leite ou quer coalhada com farinha e rapadura pra adoçar?
- Os dois, eu sabia, você é guloso, coma logo e vá dormir cedo pra acabar com a pulverização amanhã.
- Ah, eu acabo antes do meio dia.
- Então de tarde você já vai caçar a raposa.
- Já começou não é Vicência?
- Mané vá cuidar de sua vida que eu cuido da minha, vá embora Onave e esteja cedo aqui amanhã.

E tarde da noite.

- O que é Vicência?
- É essa noite que parece que não passa mais, agora que o galo tá amiudando e o medo da seca me deixa sem sono.
- Vicência deixe de falar em seca, e me deixe dormir.
- Você não tá vendo a barra do dia como tá vermelha, isso aí e sinal de seca, eu já vou é levantar e fazer o café.
- Quando tiver pronto traga o meu aqui.
- Levante também e vá tirar o leite, que eu escutei a batida na cancela do corredor e deve ser Onave que já vem, e ele tem que tomar leite antes de começar a pulverizar, eita diabo os cavacos pra acender o fogo está cada vez mais escassos, eu não disse que a batida na porteira era Onave.
- A bença tia Vicência.
- Deus te abençoe Onave, cadê ventania?
- Tá lá em casa.
- Vá buscar ele, enquanto Mané Roldão chega com o leite.
- Pra que a senhora quer ele aqui?
- Pra encher o bucho dele, por que na hora que você for atrás da raposa ele tem que tá forte, ontem mesmo eu passei lá no fojo e ele tava cheio de preá e punaré, e eu tratei todos e mais tarde eu vou fazer uma panelada de angu com preá, pra ele comer até rachar o rabo, aí não vai escapar uma raposa na redondeza.
- Toma o leite Vicência, e deixa de falar tanto em raposa.
- Você vai ver o que eu vou fazer com ela.
- Onave foi aonde?
- Foi buscar o cachorro.
- Pra que?
- Não sei, tome seu café, e não me pergunte mais nada.
- O cachorro tá aqui tia Vicência.
- Amarre ele aí no pé de moita, e venha tomar seu leite que eu vou buscar uma cabaça de água, eita meu Deus se esse ano for seco até a cacimba vai secar, eu quero ver aonde é que eu vou achar água, só se for na cacimba dos bodes, e aquela água é fedorenta a mijo de cabra, não é bom nem pensar, mais por outro lado é bom, por que as raposas vão morrer de sede, mais eu acho que esses bicharocos dos diabos não bebe água não, o que eu sei é que elas gostam mesmo é de comer carne de galinha gorda, e o mundo tá cheio de gente besta como eu, pra criar galinhas e engordar só pra elas comerem, eu acho é bom, que é pra mim deixar de ser besta, Mané Roldão é outro babaquára que não tira a bunda de cima daquelas pedras do alicerce, da janela alta, opa, pra onde é que eu to indo meu Deus? Ah, me lembrei, tou indo pra cacimba buscar água, não sei não, essa raposa tá me deixando doida, mais na hora que eu tiver arrancando os dentes dela com meu alicate, ela é quem vai cagar de dor, quando eu voltar, vou fazer logo o angu do cachorro, por que depois do almoço Onave vai começar novo trabalho.
- Será que Onave termina hoje a pulverização Vicência?
- Ora se termina, eu acho que você devia ir lá pra ver
- Agora não que o sol tá quente, precisa mais não ele já vem chegando, certamente terminou tudo.
- Pronto, Tia Vicência.
- Pronto mesmo?
- Verdade.
- Então vá descansar um pouco enquanto eu termino o almoço.
- Tá vendo ai Mané Roldão como é que se faz.
- Quantos dias gastou?
- Não sei. Só sei que eu vou pagar satisfeita, por que lá morreu tudo. até os urubus que comeram os cururus, e você Onave já ta determinado o que vai fazer depois do almoço.

Onave almoçou, soltou ventania que já pulava lá de baixo do pé de maitá seguiu o caminho indicado por dona Vicência que segundo ela a raposa utilizava nas suas visitas ao terreiro de suas galinhas, mas como raposa é raposa, Onave foi pelo caminho do tanque grande e ela veio pela ponta do baldo do açude e levou a galinha que tava no ninho chocando ovos de guiné, e dona Vicência só achou o peneiro.

- Eu não vou contar isso pra Mané Roldão, senão ele vai ficar mangando de mim, a danada comeu, mas uma, e logo a galinha vermelha, tem nada não, talvez Onave volte por esse caminho e ventania encontre com ela e vai ser fácil fácil, por que se ela comeu sozinha aquela galinha, o bucho dela vai tá tão grande que ela não vai agüentar correr, e Onave pega ela até andando de quatro pé, e mais uma, a danada comeu os ovos também, só pode ser uma raposa muito grande, por que tinha mais de vinte ovos e eu quero saber se essa danada ainda deu conta de comer a galinha.
- Eu acho que você ta ficando doida Vicência.
- Doido é você que só vive ai sentado cuidando do que não é da sua conta.
- Vamos pra dentro de casa por que se não você também vai ser comida por essa raposa.
- Ela vai comer é alicate nos dentes.

Enquanto isso Onave tava revirando tudo quanto é loca de pedra, oco de pau, buraco de ticaca, e botava Ventania pra enfiar as ventas lá dentro, e nada de sinal que indicase a passagem da tal raposa por ali, foi no serrote do Tanque Grande, passou pelo pé de chique-chique, comeu uns caroços de favela na faveleira da lagoinha, passou na catingueira grande, de lá foi a casinha do jumento gipão, desceu pra represa do açude, chegou no sangrador, comeu uns tomates do canteiro de dona Vicência, já era quase noite, e ele foi pra casa.

- Ventania tá aqui Vicência, Onave deve tá chegando.
- Então eu vou fazer logo o angu do cachorro, depois eu boto a janta, e você Onave viu algum rastro daquele satanás por ai?
- Nem sinal tia Vicência.
- Pois assim que você saiu ela veio no ninho da galinha vermelha, comeu todos os ovos, e ainda levou ela, mais não tem nada não, a faca tá amolada e o alicate guardado junto com ela, e venham logo jantar que eu já vou botar o angu pro cachorro, chega Ventania cuidado que tá quente, e você queima a língua, dos preás só sobrou o caldo mais amanhã deve ter mais lá no fojo, aí então eu faço pra você entendeu, e amanhã cedo eu vou lhe dar um litro de leite, que é pra você farejar uma raposa com uma légua de distancia.
- Quem é que tá aí com você Vicência?
- Ninguém Mané Roldão.
- Então traga o café pra cá.
- Tá lá no fogão, vá pegar você.
- Pegue ali Onave que Vicência tá com uma preguiça danada.
- Preguiça é você, Mané preguiça, tá aqui o café.
- E agora eu vou pra casa.
- Mais venha cedo que é pra você ir até no Arapuá e passar o pente fino em tudo que é buraco.

E no outro dia logo cedo Ventania bebeu um litro de leite e logo na saída acuou no pé do serrote, e Onave correu pra lá, e dona Vicência pegou a faca e o alicate e foi atrás dele, mais ao chegar lá viram que o bicho tinha entrado num buraco muito fundo, que ficava de baixo de uma grande pedra. Remover a laje era impossível, mas dava pra cavar por baixo dela, e talvez chegar no fim, onde estava a raposa, e dona Vicência ordenou.

- Onave vá lá na casa de Pedro de Lalá e diga a ele que eu mandei dizer que ele venha trabalhar hoje pra mim, e traga uma chibanca uma pá, uma enxada, uma foice, um machado, uma lavanca, e uma marreta grande, pois dependendo da necessidade nós vamos quebrar essa pedra por que dessa vez eu pego essa raposa dos diabos, e vá logo que eu vou ficar aqui de tocaia e se ela botar a venta pra fora. Finada raposa.
- Era o que Vicência?
- O que era não, Mané Roldão, é a raposa que entrou de baixo dessa pedra, e eu já mandei chamar Pedro de Lalá pra cavar, até o meio dia eu pego ela.
- Vá pra casa fazer o almoço, home!
- Não, hoje ninguém vai comer enquanto eu não pegar no rabo dessa danada.
- Vá que eu fico tocaiando enquanto Pedro chega.
- Não, não eu não vou. Ah lá vem Pedro mais Onave, trouxe tudo que eu pedi Pedro?
- Trouxe, Dona Vicência.
- Então vá cavando com todo cuidado, por que eu vou querer ela viva, agora eu vou pra casa, e você Onave venha comigo, pra trazer a corda pra amarrar ela, e você Ventania vai almoçar hoje angu com preá.

E chega meio dia e nem sinal do fim do buraco, foi trazido o almoço pra boca da loca e o trabalho continuou até as três da tarde sem que nada aparecesse, finalmente lá pela tardinha apareceu um rabo, que pra aumentar a contrariedade de Dona Vicência se constatou que não era de uma raposa, era de um timbu. Dona Vicência ficou algum tempo calada e depois falou:

- Pedro, amanhã você venha receber o dinheiro de seu trabalho.

E no outro dia Onave foi pro Arapuá muito cedo, pegou um tejo no córrego do juazeiro do engenho, mais adiante pegou uma ticaca, lá na frente tirou o couro do pintado, e deu um banho em Ventania, e dali foi pra casa, chegando lá encontrou Dona Vicência toda contrariada, por que a raposa tinha lhe enganado mais uma vez.

- Ah se eu te pegasse danada dos diabos, eu ia te mostrar como se faz uma arapuca, perdi o dia de serviço que paguei a Pedro de Lalá, e Onave já tá ganhando dois dias mais os litros de leite que eu dei a Ventania, eu era quem devia ter comido os preás, e não ele e eu acho que Onave em vez de caçando tá é dormindo de baixo do pé de juazeiro do engenho, amanhã Ventania não vai beber leite, e no almoço se ele quiser comer vai ser angu puro, e se não quiser que se dane.

E no dia seguinte Onave fez uma volta completa no açude, e não achou sinal que a raposa viesse beber, e a tarde quando voltou Dona Vicência mandou suspender a caçada, Onave ganhou as diária, mas não ganhou os capões conforme o prometido, caso ele pegasse a raposa. A seca persistia em fazer seus estragos, o sinal verde que dava passagem a um futuro melhor tinha se fechado, e o vermelho estava aceso impedindo assim o transito das boas esperanças pois onde a chuva não é pontual ninguém frutifica em perene, a safra do algodão estava comprometida, e os compradores de algodão na folha não comprava nenhum capucho, e o milho e o feijão plantado já estavam morrendo, e Dona Vicência toda hora dizia pra Mané Roldão:

- Eu bem que dizia que esse ano ia ser seco.

E ele olhava pra ela e ficava calado, e Onave que tinha perdido o emprego de caçador vivia dias difíceis, ia pescar traíras nos açudes dos outros, a tarde ia botar as ovelhas no chiqueiro. João Nunes precisou vender as vaquinhas e bois mansos, e a única saída era cortar lenha pra vender e fazer carvão, a madeira já era escassa, e pra praticar essa atividade, tinha que ir aproveitando tudo que tinha sido refugo no primeiro corte, mas como a necessidade supera obstáculos, Onave amolou o machado e a foice e foi a luta, fazia carvão, vendia lenha às padarias, pois não tinha outra coisa pra levantar dinheiro. Certo dia ele estava dentro da carvoeira, quando ouviu os latidos persistentes de Ventania, correu pra lá e o encontrou muito animado na entrada de um buraco que ficava debaixo de uma coivara, à medida que ia afastando os garranchos, deu de cara com uma grande raposa, e Onave viu ali oportunidade de ganhar os dois capões de Dona Vicência, apesar de Ventania ter acuado muito longe do raio de ação da raposa comedeira das galinhas de sua tia, mas como pegar um bicho daquele, com tanto dente na boca que fazia inveja a qualquer tubarão branco lá das costas da Austrália. A raposa não dava espaço, com um olho olhava pra Onave, e com o outro mirava o cachorro, Onave conhecia os capões e sabia que eles estavam gordos, a oportunidade estava ali, era só correr o risco, mas cadê a coragem, tinha que haver um jeito, um descuido da parte da raposa, Onave gritou e o cachorro avançou, como tinha que se defender do cachorro, a raposa esqueceu Onave, e este saltou no gógó dela, e segurou-a firme com as duas mãos, e o resto não foi muito fácil, puxou-a pra fora do buraco, mais teve que levantar ela acima da sua cabeça, porque o cachorro pulava pra pegá-la no ar. Onave segurou-a naquela posição mas a raposa mijava na cara dele que molhou-o da cabeça aos pés mas Onave não soltou-a, portanto tinha que levar ela naquela posição até no rancho onde tinha uma corda, e lá amarra-la, mas como passar na cerca de varas? Levantou-se na ponta dos pés, e passou a raposa por cima, mas esta fincava os pés na cerca, mijava, cagava, grunhia, mais Onave não a soltava nem danado, apoiou os dois cotovelos em cima da cerca, passou uma perna pro outro lado, e ficou escanchado em cima das varas, o cachorro não podia alcançá-la por causa da altura, e nessa posição ele descansou um pouco, mas tinha outro inconveniente, era o mau cheiro, pois a roupa de Onave tava toda cagada, mijada, rasgada, e ainda o próprio mal-cheiro da raposa, que em si já é insuportável, porem Onave não podia mais voltar atrás, tinha que ganhar os capões desse no que desse, firmou às costas numa estaca, passou a outra perna pro outro lado, pulou no chão, e seguiu por dentro da caatinga até chegar no rancho, o resto agora foi fácil, sentou em cima da raposa, prendeu o pescoço dela com os pés, e com as mãos desocupadas, cortou a corda em dois pedaços, um para amarrar a raposa, e outro o cachorro, pois esse não estava disposto a deixá-la em paz e quando terminou de amarrar a ambos, saiu dali levando os dois, a raposa na mão esquerda, e o cachorro na mão direita, pulou cercas de varas passou por baixo de arame, contornou a represa do açude de Dona Vicência, e chegou a casa dela pelo caminho do tanque grande, e de longe gritava:

- Tia Vicência, peguei ela bem ali na casa velha do engenho.

Mané Roldão saiu na porta, e Dona Vicência passou por ele igual uma bala.

- Me dê essa danada pra cá, gritou ela.

Em seguida jogou milho no chão e chamou as galinhas, e começou a passear no meio delas puxando a raposa que de tanto desejo, fechava um olho abria o outro, e a baba escorria no canto da boca, depois dona Vicência, mandou Onave segura-la. Entrou em casa e voltou com um alicate numa mão e na outra uma faca peixeira, tão afiada que se uma mosca sentasse em cima do gume seria dividida em duas, mas Mané Roldão interveio:

- Deixa isso pra amanhã Vicência, e vá cuidar da janta que eu tô com fome.
- Dessa vez eu vou tomar seu conselho Mané Roldão.

Esfregou o alicate nas ventas da raposa e com a faca cortou o bigode dela, e depois leu a terrível sentença:

- Hoje você vai dormir debaixo do poleiro, que é pras galinhas cagarem em cima de você a noite toda, e ainda vou botar um capão bem gordo amarrado bem pertinho que é pra você passar a noite toda olhando pra ele viu sua diaba, e amanhã depois do café eu vou saber quantos dentes você tem nessa sua boca comedeira de galinhas, e depois vou lhe pendurar pelo rabo no pé de maitá, e tirar seu couro bem devagarzinho, e boa noite.
- Onave venha pegar seus capões amanhã cedo, e traga Ventania pra beber leite até empanzinar.

Mas no outro dia quando Onave veio buscar os capões, encontrou a tia as turras com Mané Roldão.

- Se eu não tivesse tomado seu conselho não tinha acontecido o que aconteceu, quanto tem me custado tudo isso, num sei quantos dias de serviço de Onave, um de Pedro de Lalá, não sei quantos litros de leite pro cachorro, não sei quantas pratadas de angu com preá, dois capões, isto é, um hoje e o outro depois.
- Abença Tia Vicência.
- Deus te dê sorte Onave que eu não tenho tido.
- Cadê o café, Vicência?
- Joguei fora Mané Roldão, e você Onave só vai levar um capão hoje, por que eu ainda vou capar uns frangos e depois eu lhe dou o outro.
- Mais tia Vicência! Essa noite eu tive que ir lá na venda comprar sabão, pra lavar minha ropa que tava toda suja de mijo e bosta da raposa, como não tinha dinheiro eu tive que vender os dois capões, e tenho que entregá-los hoje.
- Ah meu filho você não sabe o que aconteceu, a raposa cortou a corda com os dentes, e eu tinha amarrado outro capão perto dela, e quando cheguei lá de manhã só encontrei os dois tocos de corda.

PEDRO PIECUCA OU CUECÃO

Já era fim de fevereiro e a esperança de haver uma safra de algodão regular, já se frustrara, pois a chuva era escassa e esparsa, o milho plantado nem germinou, o arroz e o feijão também não nasceu, e a expectativa de uma calamidade já se via no rosto das pessoas, alguns, prejudicados já vendiam seus animais, por que não iam ter como alimenta-los, e com a venda destes, podiam comprar alimentos, pois as reservas guardadas da colheita do ano anterior em pequenos silos, já estavam se esgotando, e sem chuva não iam ter o que botar no silo, e conseqüentemente não ia ter também o que botar na panela, e logo mais a inclemência da seca já se estalava com todo seu séqüito, pra fazer o seu estrago com o requinte, que faz o sertanejo tremer dos pés a cabeça, pois esse não tem onde procurar outra saída, a não ser alistar-se num serviço do governo, sem chuva ninguém vai lhe pagar um dia de serviço, porem a sua família precisa comer, aí começa o desespero. Por que até o governo abrir uma frente de trabalho, alguém já passou fome, e mais uma vez, Onave se ver enrolado, na malha do horroroso pavoroso e do tenebroso, alistado para trabalhar numa frente de serviço, onde ganhava meia diria, tinha que responder a chamada, de presença duas vezes ao dia, como já dito anteriormente, e permanecia no trabalho durante oito horas, as turmas eram compostas por trinta homens, comandados por um feitor, que tomava as decisões e ordenava a cada um o que fazer, cada turma ficava num grande barracão feito de garranchos sem folhas, pois a seca tinha tirado a roupa da vegetação, tanto o sol como o frio da noite tinha passagem livre para entrar naquela coivara, quando o dia amanhecia cada penitente colocava dentro de sua panela um pouco de feijão, um pedaço de jabá, e a entregava ao cozinheiro para cuidar dela, e em seguida iam para o aterro com suas ferramentas, que consistia de um carrinho de mão ou padiola, uma picareta, uma enxada, e uma pá. O tempo ia se arrastando lentamente, misturado com o calor dos dias e o frio das noites. Mais uma daquelas chuvas esparsas caiu na roça de João Nunes, o algodão brotou floriu e ficou carregado de cazulas, que prometia, meia safra, que não era mais esperada, agora era só esperar pra colher, e João Nunes que tinha ficado em casa pra cuidar dos poucos pertences, mandou dizer a Onave que viesse embora, e trouxesse com ele Pedro Sergio, e mais uns dois companheiros, para catar algodão, que ele pagava por arroba. João Nunes estava muito animado, e Onave livre da emergência juntamente com Pedro, veio Alfredo Putruco e seu Antonio Alves. Pedro Sergio e os seus dois companheiros que tinham vindo, para ajudar na colheita do algodão, levantavam pela madrugada faziam café, tomavam, e quando o dia clareava, já estavam dentro da roça, cada um levava uma cabaça com água, pois essa ficava muito longe do trabalho, assim como também a casa. Onave ia mais tarde e levava o almoço, que ele mesmo fazia, e esse era sempre rubacão, porque não tinha panelas pra fazer o arroz separado do feijão, e quando isso tinha que ser feito, o feijão era cozinhado primeiro, depois disso colocado numa cuia e a panela estava desocupada pra fazer o arroz, depois do almoço. Onave aproveitava um pouco da tarde pra catar uns quilos de algodão, e às quatro horas da tarde ele voltava para casa, onde ia fazer a janta dos trabalhadores. O algodão que Onave catava naquele pequeno intervalo, ia sendo junto e guardado num monte lá mesmo na roça, e só no fim de semana ele era levado pra casa, apesar de ser colocado alguns quilos todos dias no mesmo monte, Onave notava que o volume não crescia, pelo contrario as vezes diminuía, contou o caso a João Nunes mais esse achava que os trabalhadores eram honestos, mas frisou:

- Só se for Alfredo Putruco, mais voltou atrás, não Alfredo eu conheço a muitos anos não pode ser ele, Pedro Sergio também é um cabra direito, e seu Antonio Alves coitado, só tem remela nos olhos, e só tem esses três pra se suspeitar, bem mais Pedro Sergio, é quem cata o maior numero de quilos por dia, mais não podemos afirmar que é ele

Mas Onave que já tava de orelha em pé, em vez de ir pra casa às quatro horas, ficou escondido perto de seu monte de algodão, pra ver quem era o sabidinho, e pegá-lo com a mão na cumbuca, e na hora de ir pra casa, Pedro Sergio foi lá no monte de algodão de Onave, e pegou uma parcela. Quando Onave reclamou, ele ficou muito brabo, e disse que tinha ido pegar uma parte que ele tinha por engano botado ali, por tanto tava pegando o dele, e esbravejou:

- Se você ainda pegar, algodão no meu monte, eu vou contar pra João Nunes, que é pra ele lhe dar uma boa surra, viu seu moleque.

Mas Onave não ficou satisfeito com aquela ameaça, ficou dias remoendo sobre aquilo, catar algodão com os pés descalços, dentro de um carrapicho empestado dos diabos, e o malandro levar, não era mole não, tinha que recuperar aquele prejuízo, mais como, tirar do monte dele era impossível, porque daquele dia pra frente, ele ficou desconfiado, não virava as costas pra lá nem a pau, e quando ia beber água lá onde estava a cabaça, andava de costa pra não tirar o olho do monte de algodão, mas Onave Estava decidido não deixar por isso mesmo.

- Malandragem comigo, malandragem e meia com ele.

À tardinha quando voltavam da roça para casa, todos passavam pelo açude de Mané Roldão, para tomar ali o banho do fim da tarde, em seguida iam pra casa pra pesar o algodão colhido naquele dia, dormiam cedo, pra acordarem cedo no dia seguinte. No sábado Onave não levava o almoço, pois todos paravam o serviço ao meio dia, e vinham almoçar em casa. Onave fazia o almoço logo cedo, e ia buscar o algodão colhido por ele durante a semana, e voltava junto com os trabalhadores, na passagem pelo açude todos iam tomar seu demorado banho, e neste sábado não foi diferente dos outros, seu Antonio Alves foi o primeiro a ir embora, por que só tirou as remelas dos olhos, Alfredo Putruco tomou banho, esfregou com força, às ventas e a barbas, fungou nas palmas das mãos, saiu pegou sua trouxa e foi andando. Pedro Sergio com seus olhos de boi de canga, permanecia dentro d’ água, Onave também saiu depois deles, levando seu saco de algodão, como também as roupas de Pedro Sergio, inclusive os currulepos, e esse ato provocou um distanciamento entre os dois por muito tempo. Seu Antonio Alves almoçou e espichou sua rede debaixo do pé de pereiro das galinhas, e pediu a Onave pra botar colírio de sapiranga nos seus olhos, que naquele momento estavam sem remelas, deitou-se de papo pro ar, e dormiu um sono de chumbo. Alfredo Putruco também almoçou, fez um grosso cigarro de fumo, deitou na rede e ficou soltando baforada de fumaça pelos buracos da venta, parecendo uma fornalha de engenho de fazer rapadura. O sol descia rumo ao poente e nem noticia de Pedro Sergio. Putruco levantou-se escovou os dentões, mas não mudou em nada, pois sua dentadura era espichada pra fora dos beiços, e tinha pouca diferença da boca de um cavalo, tinha um pescoço de touro, e o nariz era maior de que o bico de um tucano, olhando-se para o bigode dele, tinha-se a impressão de que ele tinha engolido um anum preto pela metade, e esse tinha ficado com as asas pelo lado de fora, e ainda tudo isso distribuído numa cara muito feia. Pedro Piecuca com toda certeza estava dentro do açude com água até pescoço, por que ali passava muita gente e as mulheres da redondeza iam lavar roupas no açude nas tardes de sábado e ele só podia sair dali com segurança lá pela meia noite, pois o caminho dali até o seu destino era muito movimentado, passava na frente da casa de Mané Roldão. Dona Vicência não saía da janela alta, botando vigia nos coqueiros pra menino não bolir, outra coisa, o campo ali em volta era muito limpo, se alguém o visse nu pelo caminho ia querer explicação, outro problema era o frio naquela época do ano, pois a água fica gelada nos açudes, devido ela ser turva, os raios do sol não penetram nas profundezas para aquece-la. Piecuca só tinha aquela roupa, e ele cuidava dela com muito cuidado, para não estragá-la, ele ficava o dia todo na roça, só de cueca, e sem camisa, e mais, quando ele chegasse em casa naquela noite, quem iria entrega-las pra ele, por que Onave tinha ido pra casa da irmã mais velha, que era muito longe dali, de onde só voltava na segunda, Seu Antonio Alves e Putruco não sabiam onde encontra-las. Mas Pedro Cuecão não era nada burro, pegou um saco, cortou o fundo, e entrou pra dentro dele, fez uma costura entre uma perna e a outra formando assim um cuecão, pegou outro saco furou o meio do fundo enfiou o pescoço, deixando a cabeça pra fora, cortou os cantos e enfiou e os braços formando assim uma camisa, e ficou aguardando a chegada de Onave lá pela segunda feira, mas esse só apareceu depois que ele tinha ido pra roça, cortando muitos caminhos, para não ser visto daquele jeito, pois ele não queria mostrar aquela roupa pra ninguém, e João Nunes não estava em casa naqueles dias.

SEU ANTONIO ALVES DAS REMELAS

Seu Antonio Alves das remelas era um pobre diabo. Poderia ser comparado com um piteco bimanuado, ou seja, um intermediário entre o homem e o macaco.Tinha o corpo todo cabeludo coberto por um pelo amarelo sujo, e isso lhe dava uma aparência com um latagão pré-histórico do tempo da pedra lascada. Esse pithecanthropo não melhorava dos olhos, apesar de tanto colírio que ele usava pra ver se curava a sapiranga. Sua pele era amarela, enferrujada, às ventas eram tão grande que lhe dava aparência de um abutre. Os dentes eram tão gastos que parecia ter sido limados até o meio. E às orelhas parecia muito com as de um elefante. O bucho era pendurado dando uma impressão de que ele escondia um saco de algodão de baixo da camisa. Tinha setenta e tantos anos de idade e vivia comido de desilusões e cheio de hemorróidas. Seus olhos pareciam muito com os do conde Dracula lá da Transilvania, os pés eram chatos, e as unhas não eram cortadas há anos, cujas pontas eram viradas por baixo das cabeças dos dedos, o cabelo era pixaim, barba e bigode do mesmo teor, e pente não entrava neles, sua cara era igual à de Golias, e seu pescoço era igual ao de um touro cretense. E tinha quase a mesma largura dos ombros, tinha um papo de baixo dos queixos que o impedia de abaixar a cabeça, e quando ele tentava fazer isso, o cachaço ficava mais grosso ainda. Para pegar capuchos de algodão no chão, tinha que ficar de quatro pé, e por isso catava poucos quilos de algodão por dia. Não gostava de tomar banho, os cabelos do sovaco davam pra fazer vassouras pra esfregar cavalo. E o pituin que exalava tinha uma catinga de macaco molhado e sapecado no borralho. Até maribondos fugiam à aproximação dele. Tinha um metro e oitenta de altura, suas mãos pareciam remos de galeras romana, e as unhas pareciam com garras de aves de rapina como também sua voz era grossa e sonora, acordava muito cedo para ver se catava mais uns quilos de algodão, pois amargava o dia todo uma tristeza de impotente vencido, só porque Pedro cuecão e Alfredo Putruco, catavam muitos quilos de algodão a mais do que ele. E isso fazia que ele vivesse numa implacável amargura, e num desespero impotente. E essa surda tristeza, o mantinha contra tudo e contra todos. Às vezes ficava possesso e vomitava frases terríveis, para a direita e para a esquerda como quem dispara tiros sem fazer pontaria. Amaldiçoando todos aqueles que catavam mais quilos de algodão do que ele. E dos seus olhos vermelhos irradiava todo ódio acumulado dentro dele, pois tinha ódio de quem fazia o que ele não aprendera a fazer. O seu rancor contra a Pedro Cuecão e Alfredo Putruco era sem limite. E o motivo de tudo isso, era só os quilos de algodão que eles catavam mais do que ele. E por isso os seus dois companheiros de catação de algodão se transformaram no objeto do seu ódio. Olhava para eles com desdém e asco, e não descobria nele mesmo uma besta parasita que, estava deixando o couro nos garranchos dos algodoais. Todo dia quando se levantava pela madrugada, para ir pra roça catar algodão, pedia a Onave pra botar colírio em seus olhos, que essas horas estavam com as pestanas pregadas pelas remelas secas que escorrera durante a noite, na hora do almoço, e à tardinha também colocava o colírio, mas a melhora nunca vinha. João Nunes gostava muito de molho de pimenta, principalmente da malagueta miúda, e quando essas acabavam ele ia busca-las longe para botar nas traíras, que sempre estavam no cambito. Certo dia o molho tinha acabado, e João Nunes foi à casa de suas irmãs Alcinda Nunes e Severina, lá se abasteceu de sua matéria prima, e trouxe também meio litro de álcool pra misturar no molho, a proporção pra fazer uma boa mistura era meio litro de álcool pra um litro de pimenta malagueta madura, tudo foi bem machucado no pilão, e em seguida o álcool foi despejado dentro, e depois tudo ficou em infusão por três dias, passado esse tempo, a mistura foi bem exprimida coada, e guardada num frasco grande, e dali era retirada às porções pra fazer o molho. No dia que a mistura ficou pronta, João Nunes tinha pescado e ia ter traíra fresca na janta, e ele foi preparar o molho com soro de leite azedo, e na hora que Onave foi pegar o frasco da mistura no caritó, onde estava também o vidro de colírio de seu Antonio Alves, e ao puxar o recipiente que tinha a pimenta, derrubou o frasco de colírio que se espatifou no chão, e só ficou inteiro o conta-gotas, agora seu Antonio vai ficar uma fera pensou Onave, do jeito que ele é enjoado vai querer outro e urgente, e pra isso tinha que ir a farmácia e essa só na cidade, já era quatro horas da tarde, e duas horas mais ele chegava da roça, João Nunes ia jantar cedo por que tinha que ir a casa de seu amigo Gilberto, e por lá dormiria, e sem a sua presença seu Antonio ia ficar mais agressivo ainda, pois ele não gostava nem um pouco de menino, tinha que ser encontrada uma saída pra evitar tanto aborrecimento. Passando os olhos pelo caritó Onave viu um frasquinho igual ao que tinha se quebrado, estava seco pois tinha sido substituído pelo o que tinha se espatifado no chão, a poucos instantes atrás, a tampa foi retirada às pressas, e seu interior foi cheio com a mistura de pimenta e álcool, se o colírio arde quando colocado no olho certamente ele não vai notar a diferença pensou Onave. Seu Antonio foi o primeiro a chegar, pois pPutruco e Piecuca tinham ficado no açude tomando banho, chamou Onave pra pesar seu saco de algodão, e em seguida sentou-se em um tamborete, meteu o dedo nos cantos dos olhos, tirou as remelas, esfregou as mãos na camisa, e pediu a Onave pra botar o colírio em seus olhos, e esse um pouco nervoso já veio com o frasco numa mão e o conta-gotas já bem cheio na outra. Seu Antonio inclinou a cabeça pra trás e abriu um olho com ambas mãos, e Onave na pressa de acabar logo com aquilo, apontou o bico do conta-gotas no olho e apertou a bomba com tanta força que o esguicho saiu de dentro igual uma bala, mas acertou em cheio; Seu Antonio soltou uma urra e pediu pra botar logo no outro, e acabar rápida com aquilo, e Onave carregou a bomba e fez pontaria no outro olho. E apertou-a também com força, o resultado foi igual a o anterior e sem poder abri os olhos seu Antonio começou a dar voltas pelo terreiro, esperneando e reclamando, do colírio, tropeçou no tamborete, e nesse desando foi enfiar a cara lá dentro dos pratos da balança, com medo de cair outra vez, seguiu de quatro pé pelo terreiro, com uma mão no chão e a outra esfregando a cara, pois não agüentava ficar parado, chamava pelo diabo, e praguejava que aquele colírio dos infernos só podia estar vencido. Pedro Cuecão que há dias não falava com ninguém, chegou logo querendo ajudar, segundo ele lavar os olhos com água de sal, bem forte era bom pra colírio vencido, e pediu a Onave pra providenciar isso. Foi dissolvida uma xicára cheia de sal em outra cheia de água, e Putruco que lá do caminho tinha ouvido a lamentação de seu Antonio, acudiu na hora, com as duas mãos abriu um dos olhos dele, e Piecuca fez o mesmo com o outro, e mandaram Onave despejar dentro aquela solução que estava numa cuia; quando a mistura bateu dentro dos olhos, Seu Antonio deu um pulo bateu a cabeça na cuia e sua boca que estava escancarada, recebeu o resto daquela solução que desceu de goela adentro, pediu água pra passar na cara, mas não deixou mais ninguém chegar perto dele, como não podia abrir os olhos, pediu a putruco pra leva-lo no açude, onde passou a noite dentro da água, e três dias depois, seus olhos não mais pareciam com os do conde Dracula lá Transilvania

ALFREDO PUTRUCO

João Nunes fumava um cigarro de fumo da grossura de um dedo, parecia um charuto Havana, daqueles bem grosso. A tralha deste vicio, era uma faca, uma caixa de fósforos, um pacote de papel Colomy, uma tabua pra cortar fumo, e por fim um pedaço de fumo da marca Arapiraca, e nunca boró, tudo isso bem arrumado em cima da tabua, e guardado no caritó que ficava perto dos potes, e alem dessas coisas, tinha sempre um cigarro feito junto com elas esperando ser queimado, mas aqui acolá esse cigarro sumia misteriosamente, e seu legitimo dono ficava furioso.

- Quem foi que pegou o cigarro Onave?
- Não sei pai, era sempre a resposta.
- Mais você não vê quem é? Do preço que ta fumo, principalmente o meu, que vem lá das bandas das Alagoas, e eu só compro dele na banca de Dedé Fumeiro, ou é você que tá aprendendo a fumar? Se eu lhe pegar com um cigarro na boca eu faço você engolir ele, era só o que faltava, se não for Onave que tá aprendendo a fumar, só pode ser, aquele Putruco da ventona, pois os outros não fumam, é o diabo mesmo home, toda vez que eu tomo o café, e vou pegar o cigarro, já não tá lá, e lá vai o besta fazer outro, e o prejuízo do fumo do papel do fósco, eu não gosto nem de pensar, tudo isso é dó de gastar o fumo dele, e vai ser ele mesmo, porque lá onde ele tá trabalhando hoje, na casa de Zé dos Cocos ninguém fuma, e ele todo dia passa aqui tocando as vacas de Zé dos Cocos, e entra aqui pra beber água, por isso é que ele quando trabalhava aqui, passava duas semanas com um dedo de fumo, desse jeito eu vou quebrar.
- Venha cá Onave. Quando putruco passar amanhã, tangendo o gado de Zé dos Cocos, e entrar aqui em casa pra beber água, você preste bem atenção, no meu pedaço de fumo, por que se não eu vou ficar doido, diabo homem, primeiro foi Pedro Cuecão, aquele peste ficou dois dias nu aqui em casa por que não tinha roupa pra vestir, estragou os sacos de butar algodão, pra fazer roupas pra ele, depois vem seu Antonio Remela com aqueles olhos vermelhos, da cor de olho de xorró passou três dias sem trabalhar, só comendo sem fazer nada inventando que os olhos tava ardendo por causa do colírio vencido, ainda bem que ficou bom, agora eu quero saber o que irá acontecer, eu já sei o que é, por que se eu pegar Putruco roubando meu cigarro, ele vai aprender com quantos paus se faz uma arapuca, a por falar em arapuca já tá na hora de armar as aratacas, só que eu não vou mais armar elas lá no riacho do meio, por que aquele cachorro de Antonio Lucena vai lá roubar a isca, e cai na arataca e me morde todo na hora de tirar ele dela, ainda bem que Antonio Lucena nem sabe que ele quebrou a mão na minha arataca, já pensou se ele sonhasse que zuada danada ele ia fazer, mesmo assim eu vou armar elas, couro de gato maracajá tá caro, e eu vou ver se pego pelo menos uns dois, o diabo é a raposa, ela vem na frente cai na armadilha e fica cagando e mijando, e no outro dia o gato nem passa perto, por causa da catinga, eu me lembro do ano passado só peguei raposa, agora eu vou ali na casa grande, mas primeiro eu vou esconder a tabua de fumo debaixo da cantareira, e eu quero ver Putruco achar ela, e eu vou logo, se não quando eu chegar lá, cumade Alcinda, mas cumade Severina, já tão deitadas.
- Onave preste bem atenção em Putruco, quando ele passar aqui, se não quando eu chegar e achar o fumo mexido vai dar coisa, eu acho que tá na hora de falar com Zé dos Cocos pra mandar Putruco ir embora, por que Piecuca e Seu Antonio remela não fuma, por tanto só pode ser Alfredo que tá me roubando, eu vou esperar o Putruco passar aqui e mandar ele ir morar lá na Arapiraca, só assim ele mata a vontade de fumar, eu já sei o que eu vou fazer segunda-feira, eu vou comprar um pedaço de fumo pacaia, e botar lá no lugar de sempre, e ele se quiser que fume boro, Pedro Sergio ée outra praga, passa o dia todo vestido naquela cuecona feita de saco, devia ter vergonha. Seu Antonio das remelas é outro que não tem nem coragem de tomar banho, ainda bem que ele ficou bom da sipiranga, mas não corta as unhas, agora o que me aborrece mesmo, é o tal do Putruco, com aquele bigode todo melado de sarro de fumo, aquela ventona de bico de tucano, por isso é que aquele bicho não arruma uma muié.

E no domingo João Nunes pergunta.

- Seu Antonio quer alguma coisa da feira?
- Quero.
- O que é?
- Um canivete.
- Já sei, vai cortar as unhas.
- E você Pedro?
- Quero um espelho,, um pote de brilhantina, uma calça uma cueca, uma camisa.

Na segunda-feira à noite, Pedro recebeu a calça. a camisa. a cueca, o espelho e o vaso de brilhantina, e seu Antonio o canivete, e quando o dia clareou na terça feira, Pedro tava na frente do espelho, e seu Antonio por trás dele tentando ver como estava seus olhos, em seguida Pedro Piecuca vestiu sua roupa nova e foi passear no terreiro o dia todo, e João Nunes todo dia ia lá ver se alguém tinha mexido no cigarro, mas Alfredo tinha ouvido algum zunzunzun e andava de orelha em pé. Pedro Piecuca não saía da frente do espelho, aparou as unhas, cortou os cabelos dos buracos da venta, e a empurrava pra um lado e pra outro, media o tamanho dos dedos. Seu Antonio olhava pros pés com as unhas já cortadas, pegava o espelho de Pedro e olhava pros seus próprios olhos e sorria, Pedro olhava pras pernas certamente pra ver a cueca nova, e trabalhava com cuidado pra não rasga-las. E terminada a cata de algodão, seu Antonio e Pedro Cuecão foram cortar lenha pra fazer carvão, e Alfredo Putruco há dias que trabalhava pra Zé dos Cocos, mas todo dia ele passava na frente da casa de João Nunes, tangendo o gado de seu novo patrão, pra ir beber na cacimba dos bodes, pois quem vinha do Arapuá pra dar de beber a animais neste bebedouro, tinha que passar por ali, os animais seguiam pro cacimbão, e ele fazia uma parada para beber água, e ver se surgia uma oportunidade pra surrupiar um cigarro do fumo de João Nunes, que botava a culpa em Onave por se descuidar da casa na hora da passagem dele por ali. Onave reclamava, mas Putruco dizia que um cigarro de fumo não valia nada, mas João Nunes não queria saber disso, e Onave pagava o pato, e para afastar Putruco deste vicio tinha que fazer alguma coisa concreta, por que ele não recuava com as palavras, e pra fazer isso, Onave foi lá no bisaco que ficava atrás da porta da frente, tirou de dentro deste um polvarinho cheio de pólvara elefante, foi ao caritó onde estava a tabua com o fumo, picou uma porção deste,e em seguida pegou o papel Colomy, colocou o fumo picado nas duas pontas, encheu o meio com a pólvara elefante, e enrolou formando um cigarro bem grosso, colocou em cima da tabua junto com as outras coisas, inclusive uma caixa de fósforo, e devolveu tudo ao lugar de costume, (isto é no caritó) e no dia seguinte no horário de sempre, o barulho da chucalheira das vacas já se ouvia de longe, o gado sentia o cheiro da água e começava a correr na direção dela, e Putruco vinha na rabeira, quando a ultima vaca passou na frente da casa e a poeira assentou, Alfredo apareceu na porta, sem dar um bom dia, foi direto ao pote, enfiou o copo lá dentro encheu-o de água e o levou direto à boca, repetiu a operação, e ao terminar de beber olhou pro caritó, e a cobiça apareceu em seu rosto, não se contendo, pegou o cigarro botou-o na boca, pegou também a caixa de fósforo, riscou um palito, e o acendeu, chupou uma baforada, e botou pra fora pelos buracos da venta um tufo de fumaça que parecia uma locomotiva, deu outra chupada e, naquele momento ouve uma inflamação sem explosão, e tudo sumiu no meio da fumaceira, e Putruco saiu do meio daquilo, deixando para trás o seu bigoddão pestanas e sobrancelhas; e pra acertar com o caminho de volta, ele teve que ir segurando no rabo de uma vaca que ia atrás do rebanho pois não conseguia abrir os olhos para enxergar o caminho.

OS CEGOS DA CAIÇARA

-O Severina venha cá, vê quem é aqueles dois que vem ali com aqueles sacos na cabeça.
- Ah, Alcinda é os cegos da Caiçara, conheço pelos sacos que eles carregam e o chicote de bater em cachorro.
- Valei-me Deus eles vão querer passar o dia por aqui, e talvez dormir como das outras vezes, e essa noite nos temos que ir as santas missões em Santa Teresinha, e se a gente não for Frei Damião não vai perdoar nossos pecados
- É mesmo Alcinda! Nós temos que ir ver frei Damião, vamos pelo menos dar o almoço a eles, e à tarde eles tão descansados e vão embora.
- Ô de casa.
- Ô de fora.
- È Dona Alcinda.
- È seu Patrício.
- Patrício não! Eu sou Pedro.
- Ah, seu Pedro, o senhor é muito parecido com seu irmão.
- Eu e Patrício somos gêmeos Dona Alcinda.
- Tá-se vendo seu Pedro, e o senhor Seu Patrício, como vai?
- Eu vou bem Dona Alcinda, meu pai mandou lembranças.
- Obrigado seu Patrício, tão indo pra onde desta vez?
- Nós vai pra Misericórdia, e de lá vamos pra Cajazeira de onde vamos descendo até o Cariri.

Os cegos da Caiçara eram conhecidos em todo o Estado, pois eles faziam um roteiro que iniciava no Cariri, e ia rumo a oeste até a divisa com o Ceará, de lá voltavam ao ponto de partida, sempre viajando a pé, e passando por cidades, vilas, povoados e toda zona rural, do Cariri desciam rumo ao leste até chegar ao litoral, e vice-versa, recebendo como esmolas tudo o que as pessoas quisessem lhes dar, por que para cada coisa que ganhavam tinham para isso um saco pra coloca-las separadas das demais, e pra carregar toda essa carga eles contavam com um aliado que era sua própria força, ambos eram muito fortes e a altura deles beirava os dois metros, como também seu peso não era menos dos 100 quilos. Eram famosos por serem comedores, e ninguém queria lhes oferecer um almoço, ou uma janta, por que alem de comer muito, ainda reclamavam da quantidade e da qualidade. Quando os seus sacos estavam cheios dos cereais que ganhavam, eles os vendiam por que era mais fácil carregar o dinheiro, e envia-lo pra casa de seus pais que também eram cegos e velhos. Cada um carregava um chicote feito de uma tira de couro cru com dois metros de comprimento, e essa amarrada na ponta duma vara que também tinha dois metros, que alem de trazer a correia amarrada na ponta, também servia de bengala. Os meninos que se aproximavam deles para atenta-los sentiam na pele o gosto daquele instrumento, e os cachorros ficavam de longe por que aquele chicote varria um raio de quatro metros. Devido ao tamanho de seus pés eles não usavam sapatos, e sim alpercatas de currulepos feitas de couro cru, e gastava quase um couro de boi zebu pra fazer um par, por que um jabuti grande passava folgado por dentro de uma pracata daquela sem tocar nas correias, e de longe se ouvia o arrastar delas pelo chão espalhando seixos miúdo e graúdos. O cabelo deles era crespo e espetados pra cima como se fosse espinhos de mandacaru. Só tomavam banho quando algum bem feitor se propunha a lhes fazer esse favor, e mesmo assim tinha que usar uma vassoura com o cabo bem comprido, por que o cheiro era insuportável, e não era pra se comparar com perfume francês, e por isso os cachorros sentiam a sua presença de longe e começavam a latir.
Dona Alcinda os recebeu, porem sem que pegasse nas suas mãos, porque estas pareciam patas de dinossauros.

- Seu Patrício, mais seu Pedro sentem-se na calçada que nós vamos fazer o almoço pra vocês.
- Muito bem Dona Severina, por que tem muito tempo que nós não mata a fome, é tanto que nós nem gosta de parar na casa desses miseráveis, agora aqui eu sei que nos vamos tirar a barriga da miséria.
- Vai mesmo seu Patrício e é daqui a pouco, aguardem aí sentados que é já já sai comida, ainda bem que nos matamos aquela porca, Alcinda.
- Você bote pra cozinhar dentro do tacho grande e no fogão grande.
- E o que é que eu boto pra cozinhar, Alcinda?
- Ah, você bota a cabeça junto com o espinhaço, as orelhas, o rabo, mocotó, garganta, os bofes, o fígado, os rins, coração, e mais o que tiver por aí, junto com a língua e até os olhos, que eu vou pegar uma parte pra fazer um sarapatel, e do sangue eu faço um chouriço, com muita castanha de caju misturada com gergelim, e amendoim, e eu vou butá tudo isso na mesa junto com o arroz, o feijão e a farinha, que eu quero ver esses dois cegos matando piolho no couro do bucho, e sairem por ai dizendo que nós não demos comida pra eles.
- Mais Alcinda, vai demorar muito.
- Porque Severina?
- É que eu ainda vou limpar a língua, e arrancar os dentes da queixada.
- Nada disso Severina, vai pra panela do jeito que tá aí, com dente, com olho, com a tromba do focinho às ventas e tudo, e eu tô com vontade de butá também até a tripa do cu da porca, pra misturar na panelada, e eles que comam.
- Ô Dona Alcinda, me dê ai um tição de fogo pra nos acender nossos cachimbos, por que me parece que o almoço vai demorar.
- Toma seu Patrício, acenda seu cachimbo.
- Patrício não, eu sou o Pedro.
- O almoço sai já seu Pedro.
- Me parece que aqui tem carne de porco cozinhando, por que daqui eu tô sentindo o cheiro.
- Tem mesmo seu Pedro.
- Pedro não, eu sou o Patrício.
- Perdão eu me enganei.

Enquanto isso na cozinha as coisas andavam a todo vapor.

- Vamos botar as coisas na mesa e chamar logo esses cegos pra vir comer, e depois mandar eles irem logo embora, lá pra casa do diabo, traga o espinhaço, junto com a cabeça na tigela grande, que eu trago as outras coisas, assim pronto, vá chamar eles pra almoçar.
- Seu Pedro e Seu Patrício, me acompanhem, e venham almoçar.
- Ô Palavras... Santas.
- Vêm seu Pedro por aqui, e cuidado com a porta.
- Pedro não, eu sou Patrício.
- Pronto seu Patrício sente aqui, e seu Pedro sente ali, e podem pegar a carne com as mãos.

E na frente de cada um tem duas tigelas, uma com arroz e outra com feijão.

- Pode deixar com nós dona Severina, ah aqui tem uma cabeça de porco, não é Dona Alcinda?
- É seu Pedro.
- Pedro não, eu sou Patrício, nós vamos logo é comer essa cabeça de porco, não é Pedro, então você pega o queixo de cima, que eu pego no queixo de baixo, assim vá puxando, vá força, mais força, pronto, cada um vai comendo seu pedaço, as orelhas Patrício, você ficou com as duas, eu vou querer uma.
-Já comi Pedro.

E pouco tempo depois só restava os ossos, e para limpa-los das carnes eles tinham boa ferramenta, pois cada um só tinha quatro dentes na frente, sendo dois em cima e dois em baixo, ou seja, dois superiores e dois inferiores, e esses entravam nas cavidades dos ossos, indo buscar o tutano, onde ele estivesse, e tudo entrava de goela a dentro sem ser mastigado.

- Ô Dona Alcinda.
- Pronto Seu Patrício.
- Não, eu sou Pedro.
- Pois não seu Pedro diga o que é.
- Aí tem cuscus?
- Tem não seu Pedro, pra que era?
- Pra misturar com esse caldo que ficou na tigela.
- Mais ai tem farinha seu Pedro.
- Acabou Dona, um caldo desse só presta com cuscus.
- Então é, já eu levo a farinha.
- Depois a senhora trás uma rapadura, pra gente poder beber água, ou então um prato desse chouriço, que a senhora disse que fez.
- Mais é um prato pra cada um, tá bem, comam logo o chouriço, e depois quando terminarem vão aí pro alpendre, que nós vamos tirar as coisas da mesa.
- E o café?
- O café eu levo lá pra vocês.
- Bora Pedro deitar lá no alpendre, pra que lado fica a porta Dona Alcinda?
- È por ai mesmo seu Pedro.
- Seu Pedro não, eu sou Patrício.
- Seja lá como for seu Patrício, e a porta tá bem na sua frente.
- Chega pra cá Pedro.
- Caim, caim, caim.
- Você pisou no cachorro, Patrício.
- Ai, ele mordeu o meu pé.
- Acode aqui Dona Alcinda, o cachorro tá querendo me morder também.
- Sai pra fora bradamante, vai deitar lá no alpendre, venham os dois por aqui, e cuidado que a calçada é alta, vá mais pra lá bradamante, vão ficando por aí que eu vou buscar a rapadura.
- Traga água também e farinha, por que rapadura só presta com farinha.
- Ô Severina vá levar a rapadura, e essa botija grande, com água pra aqueles dois amaldiçoados, porque senão eu vou botar o cachorro neles agora mesmo.
- Caim, caim, caim.
- Volte aqui correndo Dona Alcinda.
- Tô aqui, pronto seu Pedro, o que foi?
- Ora o que foi, o cachorro me mordeu todo.
- Como foi isso, Seu Pedro.
- Eu sentei bem em cima dele.
- E cadê seu Patrício?
- Não sei não.
- Tô aqui embaixo todo machucado.
- O cachorro lhe mordeu também?
- Não, quando ele tava mordendo Pedro, eu pulei de costa e caí da calçada.
- Espere só um pouco, que eu vou logo amarrar esse cachorro, se não ele vai engolir vocês dois inteiros, ainda bem que sua gordura amorteceu a queda, Seu Patrício.
- Foi mesmo Dona Alcinda.
- Ajude aqui Severina.
- Por aqui Seu Patrício, pise no batente e suba.
- Cadê o cachorro?
- Tá amarrado.
- Tá perto daqui?
- Tá não, pronto fique aqui.
- Tá doendo muito, Pedro?
- Tá não já passou, e você?
- Tô todo arranhado, nos cotovelos.
- Tome, bebam cada um de vocês um copo dágua.
- Cadê a rapadura?
- Trás aí Alcinda.
- Tá aqui, e já tá toda quebrada dentro da cuia misturada com farinha.
- Ah tá bom.
- Vai sair um cafezinho também?
- Vai, vá coar Severina, a água já deve tá fervendo.
- E o cachorro tá bem amarrado.
- Pode ficar sem medo seu Pedro.
- Pedro não, eu sou Patrício!
- Mas Alcinda você tava falando que ia botar o cachorro neles, e nem fechou a boca em?
- Pois é, e agora eu vou ali gritar, pra Onave vir aqui, que eu vou mandar ele levar esse dois satanás pra lá da baixa da égua, você sabe que a santa missão começa às sete horas da noite, e daqui lá é duas léguas.
- Ô Onave, Onaaave!
- O que é ,tia Alcinda.
- Venha cá.
- Já vou!
- Toma, leva logo o café pra eles.
- Bla, bla.
- Você quebra essa porta, Alcinda.
- Você parece que foi criada comendo carne de serpente.
- E os diabos desses cegos foram criados comendo carne do diabo, ou do satanás, olha lá pros dois deitados, já almoçaram, comeram uma rapadura, beberam duas botijonas cheias de água, tomaram café, agora é só dormir, eu vou é dar um cheiro no meu cachorro.
- Droga, logo hoje que é à noite das missões com Frei Damião.
- Os filhos de seu Badu Nogueira já devem tá prontos, e nós aqui, ainda fazendo o óleo de coco pra passar no cabelo.
- Pronto, tia Alcinda, o que é que a senhora quer comigo?
- É pra você rebocar, essa pareia de cegos dos diabos até lá na entrada da estrada que vai pras cacimbas de Berto Leite, e quando chegar lá na entrada, você apruma eles pra lá, e diga a eles que o inferno é praquelas bandas.
- Ô dona Alcinda, dona Alciiiinda!
- O que é seu Patrício?
- Mande seu menino me levar ali no mato, que eu e Pedro tamos com uma dor de barriga danada.
- Eu bem que lhes disse Alcinda que você não desse aquela cabeça da porca pra esses cegos comer, tá vendo aí o resultado, eles já cagaram na roupa, a catinga já chegou aqui.
- Onave, vá puxar esses diabos, até lá na moita de mufumbo da beira da estrada que vai pros Porcos, deixe eles lá, e volte aqui pra você levar um balaio de sabugo que é pra eles irem limpando o cu pelo caminho, e eu tô aguardando Alfredo Putruco passar com o gado de Zé dos Cocos pra beber, e ai eu mando ele levar um dos sacos deles e deixar em cima da cerca do cofobó da cacimba dos bodes, e enquanto o gado bebe, ele pega o outro e deixa no mesmo lugar, e quando o gado voltar da bebida, você vá puxando seu Pedro pela vara dele, e seu Pedro puxa seu Patrício com a vara deste, e quando você passar na cacimba dos bodes mostre a eles onde estão os sacos deles, e vá logo se não fica tarde, porque eles andam muito devagar.
- Dos dois quem é seu Pedro, tia Alcinda?
- Ah Onave, o mais ruim.
- E seu Patrício, é qual?
- É o pior.
- Ô Alcinda, o óleo de coco queimou, e agora você vai passar o que no cabelo?
- Nada, nada, nada, dá-me vontade de pegar um cipó de jucá e arrancar o couro daqueles dois cegos no chicote.
- E eu vou logo lá na casa de Vicência, pegar meia xícara de óleo emprestado que já tá quase na hora dos nós se arrumar pra ir pras missões.
- Vala-me deus, Onave vem voltando, e agora, o que foi Onave?
- Foi o cego que cagou em cima da roupa do outro, tia Alcinda.
- Vá puxando eles nus até aonde Alfredo deixou os sacos deles em cima da cerca do cacimbão, e lá eles se viram.
- Mas tem que levar água e um vassoura, eles estão todos cagados.
- Tem nada não, lá na cacimba dos bodes você lava eles, você arranca uns pés de vassourinha, insfrega eles e joga água com uma cuia que tá na ponta da estaca, e pelo amor de deus me deixe eles no mínimo lá na encruzilhada que vai pros Porcos.
- Tia Alcinda, ô tia Alcinda.
- Ela foi na casa de Vicência, e o que foi?
- É Alexandrina de Seu Badu, que vem mais duas mulheres, e os cegos tão nu lá dentro do corredor, e elas vão sair bem em cima deles.
- Ô Onave você não me fale mais desses cegos, e faça do jeito que sua tia mandou, e se elas não quiserem ver os cegos nus que fechem os olhos, e você vá logo levar eles.
- Já tou indo.
- Durante toda a minha vida eu nunca tive um dia como esse.
- Foi mesmo Severina, ainda bem que Vicência me emprestou o óleo.
- E ela vai também?.
- Vai não!
- Por que?
- Porque Mané Roldão não quer ficar só!
- Até nisso ele quer atrapalhar, por isso que eu não me casei.
- E eu também.
- Mais você anda atrás de Artur de Seu Badu.
- Oxente, lá vem você com essa historia.
- Vá abrir a porta, que Alexandrina vem ali correndo por dentro dos matos.
- Entre Alexandrina e me diga porque você vem correndo.
- Ah Severina, aqueles cegos da caiçara tavam nu lá no meio do corredor e eu tive que passar no meio dos dois.
- Foi mesmo muié.
- Ah Alcinda, graças a Deus daqui eu vejo Onave puxando aqueles dois diabos lá na ladeira, tomara que nunca mais voltem aqui.
- Cuma é seu nome menino?
- Meu nome é Onave, seu Pedro.
- Pedro é o outro.
- É por que o senhor se parece muito com ele, seu Patrício.
- Tá bom tá bom, me leve num lugar de mato fechado, que eu já tou pra cagar na roupa.
- Aqui por perto tudo é mato ralo, Seu Patrício.
- Então é aqui mesmo no meio da estrada, e você fica olhando se vem gente.
- Eu também tô que não me agüento mais, Patrício.
- Então cague logo, Pedro, isso tudo foi por causa daquela cabeça de porco que nos comemos.
- Foi mesmo, nunca mais eu como carne de cabeça.
- Eu também não.
- Avia seu Pedro mais seu Patrício, vem vindo um caminhão ali.
- Trás aqui o balaio de sabugo, menino.
- Acabou e eu vou logo mandar parar o carro ali na curva senão ele passa por cima de vocês.

Mas antes que Onave andasse dez metros, o velho caminhão já apontava no cotovelo da estrada, e os dois cegos saíram se arrastando de quatro pé pra dentro do mato e tiveram que vestir as calças as pressas com as bundas por limpar.
Como a estrada era estreita, Onave teve que puxar os sacos deles para dentro do mato para dar a passagem pro caminhão, cujo chofer ficou muito aborrecido, pois vinha acompanhada de sua esposa e três filhas mocinhas, e todas viram os dois cegos vestidos de Adão.
O caminhão foi embora e a caganeira continuou, e parecia uma disputa, pois não se podia calcular qual dos dois cagava mais, e quando o monte de merda ia subindo eles davam um pequeno passo pra frente, por que estavam de cócoras.
O dia ia finando e eles pediam água, pois suas cabaças já tinham secado, e Onave teve que voltar ao cacimbão dos bodes pra enchê-las, e ao retornar os encontrou desfigurados, pois o sol das quatro horas da tarde dava pra cozinhar até carne de carcará. Beberam aquela água misturada com mijo bode e a melhora foi instantânea, atribuindo-se isso as duas coisas, primeiro foi à água que na sua composição metade era mijo de cabra, ou foi a casca dos marmeleiros que eles comeram, por que ao redor deles estava tudo descascado, mas na opinião de Onave, foi por que dentro do bucho deles não tinha mais nada, porque tudo já tinha saído por baixo.
Continuavam de cócoras, por que ainda estavam fracos, e para limpá-los, Onave teve que recorrer aos garranchos de malva branca, fazendo deles pequenas vassouras, pra usa-las no lugar dos sabugos, pois como se viu logo atrás, estes já tinham acabado, mas quando Onave passava a vassoura na bunda de um deles, este pulava pra frente por que a ponta dos garranchos furava a trouxa deles, que formava uma rodilha no chão dentro de suas pernas, pois aqueles dotes só jumento tinham e mais ninguém.
Depois de limpos e vestidos, Onave puxou os dois e aligeirou o passo, pois já era quase noite, e ele também queria ir assistir as santas missões, e ver frei Damião de Bozana, pois esse era muito milagreiro, dizia o povo.
Seguiam em direção ao sul, e logo mais toparam com a outra estrada que tinha o sentido leste-oeste, e nesse cruzamento Onave os encaminhou no sentido oeste, que vai dar nas cacimbas de Berto Leite, e os cegos puseram às mãos na Cabeça de Onave e disseram:

- Meu bom menino, Deus te abençoe, e adeus.

O BICO DOCE

- Onave, ô Onave onaaaave, ô onaaave, ô cumpade Mané Roldão, você não viu Onave por ai? Eu já tô rouco de gritar por ele, vê se ele não ta aí mais comade Vicência, ou nos coqueiros dela, ah menino danado do diabo.
- Eu vi ele passando aqui com uma xibanca na mão.
- Pra que lado?
- No caminho da casinha do jumento gipão.
- Já sei, foi caçar preá lá pros lados do tanque grande.
- Ah eu escutei Ventania latindo pras bandas de lá.
- Mas ele passou aqui foi cedo.
- Bem eu fui plantar batata lá no açude dos Porcos e quando voltei não o encontrei, é bom ir atrás dele.
- Não vai dar tempo, eu vou ter que ir concertar o cancelão, que o boi de Cícero Amorim derrubou, e as cabras de compadre Pedro Nunes estão entrando por lá, e comendo toda a flor do algodão da roça de pau-de-leite, mas se ele passar por aqui, diga a ele que vá pra casa, butar água nos potes que tão tudo secos, e não tem um pau de lenha pra fazer o café amanhã.
- Ah menino danado podia tá aqui pra me ajudar carregando essas varas, eita tamiarana danada, tá me queimando essa tamiarana danada e ainda chegar em casa e não achar janta feita, eita vida do diabo, amanhâ cedo eu vou lá na cabaceira pedir Idelvita, irmã de Severino Leonardo em casamento, por que eu já não agüento mais essa vida, pronto, tudo concertado e já tá na hora de ir embora, ver se aquele danado já chegou, o pior e que Idelvita não tá querendo casar comigo só por causa de Onave, se eu morasse só, ela me queria, eita sede danada vou beber um copão de água na casa de comade Vicência.
- Boa tarde compadre Mané.
- Já é quase boa noite cumpade João.
- Cadê comadre Vicência?
- Tô aqui cumpade João, você vá logo pra casa que Onave tá doente.
- Doente de que, Comade Vicência?
- Um bico-doce mordeu a língua dele.
- Mas como isso, comadre Vicência, como um bico-doce vai morder a língua de uma pessoa?
- Compade João, o senhor já sabe que Onave é curioso e presepeiro, desde ontem que ele tava cavando um buraco pra pegar um bico-doce que Ventania acuou, e hoje à tardinha foi que ele chegou onde tava o calango.
- Mas como esse bicho mordeu a língua dele?
- Ora compadre, não sei por que o povo chama aquele calango pintado de bico-doce, e Onave cavou aquele buraco todo pra pegar o calango só pra experimentar se o bico-dele era doce mesmo, e o bicho quase que arrancou a língua dele com uma mordida, se não fosse Mané Roldão, que escutou os gritos dele.
- E aí como foi isso compade Mané?
- Eu ouvi os gritos e corri pra lá, e quando eu me aproximei dele, vi o bico-doce agarrado na língua dele, tentei puxá-lo, mas ele só vinha com a língua dele, e o único jeito foi enforcar o calango, pra forçar ele a soltar língua de Onave.
- Mas o estrago foi grande?
- Ora se foi, e ele vai passar muito tempo sem falar.
- E foi perto daqui?
- Foi bem ali onde era o engenho velho.
- E como ele não ouvia meus gritos, quando eu tava chamando ele.
- Compadre João, ele tava todo enfiado dentro do buraco, por isso é que ele não lhe ouvia.
- Então foi bom pra ele deixar de ser danado.

A VIDA NAQUELE TEMPO NO NORTE DO NORDESTE

A seca no nordeste é um espetáculo monumental, é também um monumento representativo da miséria, mas os povos desta região são resistentes, e a prova está aí, pois a espécie ainda não se extinguiu; vale a pena conhecê-los, porque são alegres, fazem festas, dançam forró, trabalham, são criativos, são unidos, acreditam nos milagres do padre Cícero do Juazeiro do Ceará, acreditam nos milagres de frei Damião de Bozano, entre eles não há racismo; o moreno claro é a cor predominante, a sua altura mediana é um pouco abaixo de media nacional, são calorosos quando recebem alguém nas suas casas, se for o caso dormem no chão pra dar a rede pra sua visita deitar; fazem grandes sacrifícios para agradar as pessoas, pois são muito simples, humildes, e não exaltados; sim e ali também se encontra muita gente bonita, e Onave é um produto daquele meio humilde, mas vivia sempre alegre e festivo, fazia travessuras, ia às festas de São Pedro na casa de Pedro Nunes lá no Arapuá, ia também às novenas na casa de Chiquinha de Mané Canuto, onde o velho papagaio, de sessenta e quatro anos, vivia num torno enfincado na parede por cima da mesa que servia de altar, de onde cantava junto com as mulheres os hinos de louvor aos santos, ia também às festas da igreja lá em santa Terezinha, assistia às santas missões pregadas por frei Damião de Bozano, não perdia às animadas festas da casa de Zé Oliveira lá no Jardim, principalmente as de são João.
Dona Vicência às vezes também fazia festinhas e Onave se fazia presente, pois morava perto, e era amigo dela e de Mané Roldão
Inácio Nunes também era muito amigo de Onave, e gostava muito de brincar com ele, e Onave chamava ele, Inacio Lapilango.
Na casa de Zé Alves, também havia festas animadas, e sanfoneiro era o que não faltava na redondeza, o forró era o que havia de mais moderno, e a cabrochada dançavam numa carraspana arrochada e desmedida, pois o que não faltava ali por perto era cabrochas do cabelo de xerém, mas sabiam balançar o esqueleto como ninguém.
Onave era molecote, mas prestava atenção a tudo, Chiquita Bacana lá da Maguinita tava na moda, andava pelas estradas vestida numa casca de banana nanica, e pedindo carona aos caminhoneiros.
Outro por exemplo, era Zé Serafim que tocava sanfona batendo o pé no chão, porém quando bebia umas quatro ficava conversador, porque a cachaça lhes tirava às peias da língua
Já Inácio Lucena quando via uma moça ficava todo intronchado, arrastava a asa no chão como faz um peru, arreganhava os dentes e arregaçava as ventas que dava pra ver os miolos.
Abigail de Zé Pajaraca tinha o bucho quebrado de tanto parir e trabalhar na cama, vivia sentada numa pedra junto as trempes de pedras onde acendia o fogo para cozinhar os preás e a panela de angu de xerem que era a comida predileta do marido. Enfiava a saia dentro das coxas, jogava o buchão por cima e ali passava o dia chupando o canudo do cachimbo e Pajaraca vivia aperreado com aquele bucho que nunca diminuía o volume. Comentava com os amigos tomava conselhos com catimboseiro, e nada do bucho diminuir.

- Como pode uma muié tão bonita com um bucho daquele tamanho, comentava ele com os visinhos.

Mãe Rosa rezava que os ramos ficavam murchos e nada do bucho baixar, disseram que chá de folhas de mandacaru era bom, mas Pajaraca andou o sertão todo e não encontrou as tais folhas milagrosas.
O velho Zé Pio que também era bom na reza, nada pode fazer, mas garantiu que conhecia uma raiz que se ela tomasse um só chá ficava curada pra toda vida e seu corpo ia ficar de fazer inveja a qualquer modelo lá das passarelas de Paris, mas primeiro tinha que combinar o preço da receita, pra depois ele ensinar onde encontrar a tal raiz.
Pajaraca se lamentou dizendo que nada possuía, mas o velho Zé Pio fincou o pé na parede dizendo que só ensinava se recebesse adiantado.
Como o caso envolvia a saúde de sua esposa, Pajaraca resolveu dar como pagamento quatro capão e três galinhas que estavam engordando no chiqueiro guardado pro resguardo de Bigaí que já tava pra parir mais uma vez.

- E eu vou comer o que no meu resguardo, Pajaraca pergunta Bigaí.
- Eu dô um jeito muié! Eu quero é ver você boa desse buchão,esse ano tem muito preá e punaré e você come eles com angu e pronto.

Depois de tudo acertado o velho Ze Pio ensinou tudo direitinho a Pajaraca como encontrar a raiz da pedra branca que segundo ele só tinha lá na serra da Catingueira e depois pegou o caminho de sua casa com quatro capão na ponta de uma vara e três galinhas na outra ponta e recomendou que quando ele encontrasse as raízes mandasse lhes avisar que ele em pessoa viria fazer o chá pra dar a Bigaí.
Pajaraca procurou, procurou e não encontrou as raízes, e o velho Ze Pio falou pra ele que as pedras brancas só criavam raízes em ano bissexto,e este já tinha acabado, portanto ele tinha que esperar outro e esse só vinha daqui a quatro anos, portanto ele que esperasse.
Bigaí pariu duas crianças, mas o buchão não baixou, e o povo dizia que dentro daquela barriga ainda tinha mais uns dois meninos grandes como aqueles que tinha nascido, e estes juntos tinham pesado meia arroba e um quilo na balança de pesar algodão fora o fiel.
Bigai ficava o dia todo sentada na pedra junto da trempe, o bucho em cima das pernas e um menino pendurado em cada peito, e a única coisa que fazia era chupar o canudo do cachimbo e as bochechas já estavam fundas de tanto chupar aquele troço entupido de tanto sarro.
Pajaraca continuava triste e aperreado, a noite sentava no batente da porta da frente e ficava olhando pras estrelas até que o sono chegasse, acordava cedo, ia buscar água na cacimba, na volta passava no fojo para pegar os preás, às vezes ia ao açude pescar algumas traíras, ao chegar em casa tratava tudo, salgava, botava no cambito pra enxugar, botava o gato pra fora de casa pra não ficar roubando as coisas e roçando nas pernas dele e miando suplicantemente para ganhar um pedaço do peixe, fazia promessas, andava ajoelhado em volta da casa, jogava água quente no gato que tinha voltado e tava tentando roubar um preá do cambito, foi na cidade, confessou os pecados a frei Damião, foi a pé no Juazeiro do Padin Cisso e o ano bissexto tava longe.
Tudo tava longe mesmo, falava ele, para ele mesmo:

- Uma muié tão bonita, meu Deus.

E ali ficava ele sentado na pedra da frente da casa, murcho olhos fitando o nada, igual um gato cagando na chuva. Olhou para um lado e viu que vinha muita gente seguindo pela estrada, uns montados em cavalos, éguas, jumentos, burros e muitos outros a pé.
O cavaleiro da frente chegou até ele e deu bom dia, aí foi que Pajaraca reconheceu o chegante, era o cigano Ismael que vinha com seu bando.
No apertar das mãos o cigano foi logo falando que o amigo tava muita trapaiado, e Pajaraca confirmou com um aceno de cabeça, o cigano quis ver Bigaí e esta devido os rinchos dos jumentos tinha vindo até a porta para saber o que estava acontecendo, e ao ver que era ciganos ela soltou os meninos no chão e foi pro fundo da casa onde o jumento tava amarrado, sua intenção era esconder ele lá no fundo da roça, mas era tarde, pois alguns do bando se aproximaram puxando uma jumenta velha toda pelada e propuseram trocar ela pelo jumento e pediram cinco galinhas de volta.
Bigaí botou o jegue pra dentro da cozinha fechou a porta e falou pra eles que podiam levar o gato, mas o jumento não. Já informado da doença da dona da casa, o chefe dos ciganos, que tinha ouvido a proposta que os do seu bando tinham feito à Bigaí, entrou na conversa dizendo que não aceitava aquele negocio daquela troca, alegando que a jumenta tinha dois jumentinhos dentro da barriga, e tava pra parir logo naquela semana, portanto não ia dar três por um. De jeito nenhum.
Fazia o negocio assim, ia ler a mão da mulher para descobrir a doença, e cobrava cinco galinhas, depois ensinava o remédio, e recebia o jumento como pagamento. Bigaí pulou lá fora,e disse, morria mais o jumento nem pensar.
Bigai tava braba, e Pajaraca já via naquilo uma melhora ou um milagre, pensou em frei Damião pensou no Padim Cisso.
O cigano falou que se ele não aceitasse o negocio a muié ia morrer, e quem ia dar de mamar aqueles dois meninos velhos sujos que tavam ali no chão lambuzados de bosta misturada com barro
Bigaí ficou mais braba ainda com aquela conversa do cigano, e este viu que ali não ia da negocio, por fim propôs:

- Você dá uma galinha pra eu almoçar hoje, e eu ensino o remédio pra curar sua muié.
- Tá feito, gritou Pajaraca.

O cigano receitou para ele comprar bicarbonato de sódio, e mandou ela engolir um pouco, todo dia em jejum, mas Pajaraca trocou a palavra, por carbureto pra solda, e a sorte foi porque as pedras de carbureto eram grandes, e tiveram que ser quebradas para poder descer goela abaixo, e quando o primeiro cavaco de pedra desceu, a fumaceira subiu goela acima.
Sufocada e sem poder respirar, Bigaí caiu no chão, e seu marido correu a buscar ajuda dos vizinhos, que provocaram vômitos, e a pedra saiu, rasgando tudo que tava no seu caminho. Naquela situação o jeito era ir a um medico, para que ela fosse internada, e quem ia dar de mamar aos dois meninos?
Pajaraca botou a cangalha no jumento, colocou dois caçuás, botou um menino dentro de um e o outro dentro do outro, botou Bigaí sentada entre um cabeçote e o outro da cangalha e tocou pra cidade.
e o irmão de pajaraca que se chamava carrôla foi junto com eles,e chegando a o hospital, carrôla bateu na porta do consultorio e o medico gritou la de dentro,quem tá batendo aí? e pajaraca que estava do lado respondeu é carrôla dotor! e o medico,bata com a mão rapaz.
o medico ficou espantado com o tamanho daquela barriga, não tinha como fazer um raio x para ver o que tinha ali dentro, pois tudo indicava que ela tava entupida, e o jeito era procurar saber o que ela comia, mas Bigaí não entendia aquelas palavras que o medico falava, e mandaram o marido entrar para responder por ela as perguntas, ai o medico perguntou:

Seu Pajaraca! Sua mulher tem apetite?
- Tem dotô, o pititão dela é bem gandão.

Vendo que o marido também não entendia as perguntas, o medico resolveu perguntar na linguagem paruara.

- Quando sua muié chupa manga ela engole o caroço?
- Não dotô, ela agora só tá comeno é juá.
- E o caroço do juá é grande?
- Não dotô, dá pra entrar em cima e sair embaixo.
- Sua muié come muito?
- Inté que ela agora anda biqueira no dicumê dotô.
- Sua muié tem esse problema da barriga e mais o que?
- Ela anda duente dotô, inté jurô dotô, sim me lembrei, ela engoliu ua peda de cumprido e quando foi pra sair ela vei travessada rasgando tudo que era guela.
- E que peda foi essa seu Pajaraca?
- Foi a peda de remedio que o cigano mandô ela tumá pa fica boa do bucho.
- Não estou entendendo seu Pajaraca!
- A peda tá aqui na mia gibeira dotô, oi ela aqui!
- Seu Pajaraca isso não é remédio.é uma pedra de carbureto
- É dotô, o cigano disse que era remeido pa sará do bucho, e ela inté ficou mais mió com esse remeido, e inté hoje ela tá mais boa do que onte.
- e que mais asneiras esse cigano lhe disse?
que fosse me consultar com o siô!
- Seu Pajaraca por pouco sua mulher não pegou fogo, mesmo assim ela ainda está cheia de gás. Agora o senhor se retire que eu vou examinar ela com mais detalhes.

E logo ficou provado que o caso dela era mesmo um caroço da manga enganchado na saída.pajaraca foi informado do caso e perguntou,dotor quando o siô puxar o carôço o buraco vai ficar aberto? O medico retirou aquilo e Bigaí tava boa pouco tempo depois. E os parentes dela sempre procuravam saber como ela ia passando.
Certo dia Zé Pajaraca foi à casa de Mané Roldão pedir uma ajuda, tinha recebido uma carta de um irmão de Bigaí, mas como não sabia ler bem, pediu ao cumpade Mané, para decifrar aquela escrita complicada, pois já tinha ido à casa de Joaquim Profiro, que era o homem mais sabido que tinha por aquelas bandas, e este tinha virado o papel de perna pra cima, de perna pra baixo, de banda, de lado, rezou três vezes o pai nosso de trás pra frente, mas não tinha conseguido decifrar o que tava escrito naquele papel, tinha ido também procurar o velho Zé Pio, e este também, tinha ficado muito tempo tentando ler aquele texto, que segundo ele, aquela carta não tinha sido escrita e enviada pelo irmão de Bigaí, e sim pelo faraó Tutancamom para a irmã deste, pois segundo ele, aqueles hieróglifos era da época do tal faraó, e este também tinha tido uma irmã chamada Biga, daí essa confusão toda, porem Mané Roldão tinha chegado a uma conclusão diferente, segundo ele, a linguagem da carta, era em tupi guarani, e tinha sido escrita e enviada por padre José de Anchieta, que era grande conhecedor daquele linguajar todo, e assegurou, se não foi ele, foi um morubixaba, lá do Iapóque, ou do Chuí, mais que foi, foi, porem achou por bem enviar Pajaraca à casa do velho Chico Barandão, que era outro sabichão e letrado, e quando este olhou pro papel, estremeceu e caiu do tamborete, deram pra ele beber um copo de água adoçada com rapadura preta, e minutos depois ele voltou a falar, e disse pra Pajaraca, que aquela carta, não tinha sido enviada para a mulher dele pelo irmão dela, e sim, tinha sido um engano do correio, pois o destinatário era dona Bigorna a irmã de Homero que morava lá pras bandas de Tróia e este a tinha enviado pra ela, e não pra Bigaí, mas como Tróia tinha sido destruída, e os sobreviventes tinham fugido em navios e ninguém sabia pra onde, a carta tinha sido entregue a Ulisses, que fez aquela Odisséia toda com ela no bolso, mas no dia daquela ventania terrível, que tinha empurrado os navios de Ulisses lá pras bandas das cucuias, a carta tinha sumido no meio daquele redemoinho e agora aparecia ali, e batendo o pé no chão disse que garantia o que estava dizendo, com toda garantia, porque, aquela escrita, cheia de garatujo, e com aquela verborréia toda, só podia ser coisa de grego daquele tempo.
E Zé Pajaraca que tinha um vocabulário pequeno ficou mais embatucado ainda sem ter mais a quem recorrer. Nisto chega Inácio Lucena, acompanhado de Teofin, seu cunhado, e a conversa mudou de rumo, pois era época de colheita de algodão, e todos queriam saber qual era o preço do quilo.
E Teofin que sempre vivia bem informado saiu com essa:

- Eu não sei quem foi que disse, que não sei aonde, o preço do quilo de algodão tá não sei de quanto.

A velha Maria das Queimadas irmã de Teofin, que também tinha vindo para saber o resultado da carta, completou:

- Eu bem que falei! Antonio Lucena dixe isso, Josina dixe isso, Inacinha dixe isso, Camila dixe isso, e eu dixe é.

O CASO DOS MELÔES E DAS MELANCIAS QUE A RAPOSA NUNCA COMEU

Um belo dia Dona Vicência saiu com mais uma que deixou Onave de orelha em pé. Passando pelo corredor ela viu uns rastros estranhos, e resolveu investigar pra descobrir que bicho era aquele, pois esse mesmo tipo de rastro já tinha sido visto algumas vezes lá na beira do riacho, onde dona Alcinda e dona Severina plantavam melancia, melão e outras coisas.
Com muito argumento e ameaças de não fazer mais café pra ninguém, ela finalmente conseguiu levar Mané Roldão, até no lugar que tinha encontrado os tais rastros, e este logo desvendou o mistério.

- Ora Vicência, você me trazer aqui só pra ver esses rastros.
- Então você me diga que bicho passa por aqui e vai no rumo dos coqueiros.
- Aqui não passa bicho nenhum, Vicência, isso que você acha que é rastro de bicho, é rastro do bicho menino, que anda de quatro pé, pela beira da cerca pra não ser visto por você que fica o dia todo lá na janela alta olhando pra cá.
- Aaa agora eu tô entendendo, é por isso que eu fico o dia todo, olhando pra cá e não vejo ninguém passar pros coqueiros, e em pleno dia os cocos desaparecem, olhe aqui onde o rastro passou por baixo da cerca, e foi na direção dos coqueiros, isso só pode ser Onave, agora eu não sei como é que ele anda de quatro pé dentro desse carrapicho dos diabos, já sei, quando ele não vem por aqui, vem lá do alto por trás do pé de manga, e eu lá da janela alta não consigo vê-lo, nem por trás da cerca, e nem por trás da mangueira.

- Ah menino danado.
- Deixa isso pra lá, Vicência, Onave é um menino bom e trabalhador, eu gosto muito dele.
- Eu também gosto dele, Mané Roldão, eu só não acho bom é ele pegar meus cocos sem minha ordem.
- É assim mesmo, Vicência, Onave tem boas qualidades, e você misturando às boas com as ruins, vai descobrir que ele é um menino mais ou menos ou menos bom.
- Eu sei disso Mané Roldão, sei também que ele não tem quem cuide dele, porque cumpade João só vive fora de casa, e a morte da mãe, foi muito ruim pra ele.
- Outra coisa Vicência, eu não queria que você só visse os defeitos dele não, mas também visse às boas qualidades que ele tem, tem mais outra, Vicência, é que Onave acaba de sair da casca do ovo, e entra no casulo da adolescência, portanto vamos esconder os defeitos com as cortinas das virtudes, porque quem equilibra a balança dessa existência, são os defeitos e as virtudes, ambos juntos e bem misturados um com o outro, e dessa mistura sai a personalidade.
- Ah Mané Roldão, eu conheço duas coisas que não se mistura.
- E o que é Vicência?
- Ah, você que quer ser tão sabidão diga o que é.
- Eu num sei não.
- Então eu vou lhe dizer.
- E quem é, home?
- É deus e o diabo, home.
- E onde foi que você aprendeu isso?
- Eu aprendi com frei Damião, ele disse que tem uma parede muito grande e muito muito alta, dividindo o mundo no meio, e Deus mora de um lado, e o satanás do outro.
- Ah Vicência eu tô achando que você não entendeu nada do que ele falou, ele quis dizer que a arvore que produz os frutos do mal cresce muito e as galhas passam por cima dessa parede e os frutos caem do outro lado, porem a arvore que produz os frutos do bem, também cresce como a outra, e os galhos dela passam também por cima da parede, e seus frutos caem do outro lado, e a balança continua equilibrada, porque se não fosse assim, Deus ficava bom bom bom de maaaais, e o satanás mais ruim do que é.
- Mais Mané Roldão, cada dia que passa, o diabo fica mais ruim.
- Porque é em cima dele que se descarrega todas as mazelas do mundo, mas é aí que tá o equilíbrio Vicência, pois o mal pra não ser tão mal, tem que ser temperado com a bondade, não é fato? A Bíblia nos ensina que caluniar é pecado, e para nós, o satanás é a lixeira do mundo, será que nós ao jogarmos todas as mazelas do mundo em cima da cacunda dele, não o estamos caluniando?

E Onave que tinha se escondido em cima da oiticica escutou toda a conversa entre sua tia e Mané Roldão, e isso o deixou satisfeito, desceu da arvore foi pras bandas da casa grande, e de longe já ouvia sua tia Severina arengar por causa dos jatobás que sumiam misteriosamente, e lá pras bandas da cacimba dona Alcinda também arengava por causa de seus melões que a raposa nunca comeu.

- Eu não sei o gosto da água dos cocos do coqueiro do açude velho, planto meus pés de melancia na beira do riacho, e para irriga-las, tiro latas e latas cheias de água da cacimba, carrego todas na cabeça numa distancia danada, já tô com os espinhaços todo envergado de tanto carregar peso, e quando os frutos tão inchados se evaporam não sei pra onde, e não fica nenhum cambute, com os melões acontece a mesma coisa, mandei fazer essas arapucas pra cobri-los, e ainda boto essas pedras em cima delas pras raposas não levanta-las, mas não deu certo, a raposa cava por baixo leva às frutas e só deixa o talo, sim deixa outra coisa o trabalho perdido, e a raiva que eu passo, que já tô pra estourar debaixo do sovaco que nem calango cego, agora eu não entendo é porque essas raposas não comem esses melões aqui mesmo do lado da arapuca, o que me encabula é isso.
- Vem cá Severina.
- O que é Alcinda?
- Não tem jeito não, Severina, agora já tão bolindo nos jatobás, e raposa não sobe em pé de pau.
- Pois é Alcinda tem mistério.
- E tem mesmo, porque hoje cedo quando eu fui buscar água na cacimba, aqueles dois melões bem grandes que ficavam juntos debaixo daquela arapuca estavam no lugar, e bem madurinhos, vim pega-los agora só achei os talos, e raposa não gosta de fazer essas coisas no sol quente, como já se sabe raposa só gosta de moleza não é mesmo, logo os dois melões, que eu ia entregar a Alzira Nogueira pra ela dar a frei Damião, mas não tem nada não, frei Damião há de proteger os outros com o seu milagre.
- Eu não sei se vai ter milagre pra isso não Alcinda, quanto nos gastamos pra mandar fazer essas arapucas e deu em nada, vamos lá conferir esses rastros de raposa que você tanto fala; olhe aqui esse é diferente desse, a raposa foi por aqui, por ali, por acolá, opa, rastro de menino, eu bem que pensei, isso é coisa daqueles moleques de cumade Maria de Cumpade Antonio Gino, eita bando de cabrochos danados dos diabos, e eu vou fazer uma promessa com frei Damião, e você vai ver eles entupidos sem poder cagar, logo os melões que eu tinha guardado pra mandar pra frei Damião, tanto que frei Damião gosta de melão, vai custar caro, muito caro, eu já fiz a promessa, e você vai ver Sá Maria de cumpade Antonio Gino, vir aqui atrás de azeite de carrapateira pra dar purgante neles pra desentupi-los, mas você não dê nenhum pingo, ah moleques danados. Principalmente, o das canelas de sibito, o danado quando aperta a correia da calça, o bucho sobe pra dentro das costelas, e fica parecendo bucho de cachorro.

E a arenga se enveredava pra outros rumos, mas terminava desembocando no mesmo caminho.

MINERVINA

Já Mãe Rosa pegadeira de menino, fazia muitas coisas curiosas. Por exemplo, com as unhas ela cortava fumo para botar no cachimbo, cortava umbigo de meninos que ela pegava, e até carne para botar na panela. Curava com rezas brabas, espinhela caída, vento caído, espinhaço torto, má-olhado, arrancava catimbó nas porteiras dos currais, botava cobra pra fora das roças, curava bicheiras no rastro com dois paus cruzados, rezava nas gambarras das vacas velhas, só não sabia tirar os cravos dos seus próprios pés.
Talvez por serem muito grandes e chatos, e que raramente apareciam por baixo da barra da saia que parecia uma tarrafa, que durante o dia servia como roupa e à noite como lençol para se enrolar na cama de varas.
Junto com a filha mais nova, vivia lá na sua casinha, não se preocupava com nada do mundo, já galgava quase o cimo de um século, mas irradiava tanta simpatia e tanto calor humano, que atraia às pessoas para a sua órbita. Seu pixain era suspenso para o alto do casco, olhava pras pucumãs do teto, afastava as teias de aranha com as mãos, enchia as bochechas de vento, e soprava o fogo, dentro das trempes que ficavam no chão, de onde uma nuvem de cinzas voava dos tições e cobria-lhe a cara, e a fumaça fazia-lhe arder os olhos inundando-os com lagrimas que escoria pelo nariz pingando pela ponta das ventas e caindo dentro da sua panelinha cheia de feijão que chiava em cima daquilo que ela chamava de fogão.
Puxou a ponta do rosário que tinha caído dentro da panela, afastou o cabeção com a mão esquerda e com a direita enfiou ele de volta entre as pelancas dos peitos velhos que ficaram lambuzados com o caldo do feijão. No sopra-sopra, a lenha de jurema preta pipocava soltando faíscas que pareciam estrelas essas subiam e na descida caiam em cima dos seus pés, dali ela se esticou sacudindo os chinelos e batendo os pés no chão que a poeira levantou, pegou uma brasa com as unhas, botou na boca do cachimbo, aprumou o espinhaços e foi lá pra fora onde ficou sentada na pedra grande soltando baforadas de fumaça, e ali ficou esperando Minervina que tinha ido à bodega do vendeiro que botava água no querosene, e quando às pessoas reclamavam ele dizia que tava ruim das oiças, enfiava os dedos nos ouvidos e dizia que não ouvia nada.
Minervina que era a filha mais nova de Mãe Rosa, já era uma balzaquiana, não tinha arranjado casamento talvez pelo fato de ser muito feia. Olhando-se para seu rosto nariz e seus olhos, era ver uma curuja em cima de um toco. Chegou e sentou-se na pedra menor; que ficava ao lado de sua mãe, sua saia comprida estava toda tisnada,  pegou uma tesoura sega e começou a cortar os cabelos dos sovacos que já saiam pelas mangas do vestido, depois do rapa rapa dos sovacos ela foi passar sebo de tripa de carneiro capado no cabelo, e com o garfo tentava desembaraça-lo, para fazer um cocó; e nessa luta já tinha quebrado dois pentes feitos de casco de tracajá, mas tinha que haver um jeito de arrumar aquele cabelo, pois ia haver uma festa de casamento, e ela ia ajudar a fazer às comidas para os convidados, e nesse embalo podia aparecer alguém que se interessasse nela, e foi pensando nisso que ela passou três dias desembaraçando o cabelo, porque o velho Zé Pio tinha lhe dito que o sebo das tripas do carneiro capado espichava qualquer tipo de pixaim, e ainda atraía os homens por causa do cheiro que exalava.
Ana Bagocha sua sobrinha veio pra lhe ajudar a repuxar aquela saroba que nunca tinha visto um pente. Mandou ela segurar bem firme com as duas mãos num pé de jurema preta que tinha na frente da casa e com um garfo começou a desembaraçar aquele ninho de cajaca de couro. Minervina forçava o pescoço pra frente e a Bagocha puxava o pixain pra trás, e lá se vai naquela luta contra a natureza cabeluda. Pois ela não gosta que alguém desfaça o que ela fez. Mas o espicha espicha, puxou muito o cabelo pra trás, e com ele veio o couro da testa, também junto com este veio as sobrancelhas e às pestanas, e Ana Bagocha amarrou tudo bem amarrado com com um arame e recomendou que ela só desfizesse aquilo depois da festa.
E por isso na hora de dormir os olhos não se fecharam, mas como a festa era no dia seguinte, ela resolveu passar a noite em claro pra não mexer no cocó que tinha lhe custado um trabalhão da peste pra faze-lo, e que segundo Mãe Rosa tinha ficado muito muito bonito, e quem sabe lá no rega-bofe ia pintar um namorado, e tira-la do caritó.
A festa aconteceu e Minerva passou mais uma noite acordada e no dia seguinte o trabalho foi dobrado, lavando pratos, panelas, tachos, limpando a casa, carregando água e outras coisas mais foram feitas, mas o sacrifício tinha valido a pena, pois fora cortejado a noite toda por Zé Caburé, e esse tinha prometido a ela que no sábado aparecia na casa dela.
Terminada a arrumação das coisas, foi pra sua casa, e Mãe Rosa que já sabia que ela tinha arranjado um namorado, a esperava sentada na pedra grande, e quando avistou a filha com aqueles beiços envernizados de tanta gordura que tinha comido foi logo dizendo, que o cocó continuava muito bonito, e aqueles olhos repuxados completavam o que antes faltava, e ainda aconselhou-a a aprender dormir de olhos abertos, pra não mexer mais naquele penteado, até o dia que Chico caburé viesse visitá-la, como de fato tinha ficado combinado.
Mas as duas noites de sono, somados com o trabalho cansativo do dia, derrubou-a em cima da cama de varas, e só se levantou no outro dia à tardinha, e Mãe Rosa espantou-se ao ve-la aparecer na porta, e exclamou!

- Cadê o seu c c co cócó Minervina? Ah já sei, minha filha, os gatos mastigaram todo, por causa do sebo do carneiro.

INACIO NUNES

Já Inácio Lapilango vivia envolvido, com suas idéias de um dia fazer grandes plantações de algodão, P-46 e cruzeta, e enfiava o dedo grande do pé no chão para ver como estava a umidade da terra, mais na frente levantava as galhas dos pés de algodoeiros pra ver como estava o carrego, passava pela oiticiquinha, ficava um pouco na sombra, tentava distinguir que tipo de borboleta passava por ali.

- Seria as que põem ovos nas folhas do algodão? Se for eu já tenho o veneno guardado, e eu vou logo lá na roça de pau de leite, por que se lá também tiver borboletas, eu já começo a pulverizar amanhã cedo, e quando eu chegar em casa vou mandar logo os meninos arrumar os pulverizadores, e as vasilhas de carregar água, o diabo dessas borboletas não me deixam sossegado, tanto trabalho tanta despesa, Rita que já é preta, tá ficando mais preta ainda, de tanto viver naquele pé de fogão, cozinhando pra aquele horror de filhos, e agora ainda pior, por que as meninas vão casando e trazendo os maridos e os filhos lá pra dentro de casa, tem hora que me dá vontade de fazer como João Nunes, que não liga pra nada, deixa as roças dele virar capoeira, se não fosse...
- Se não fosse o que Inácio.
- Ah é você, João Nunes, pra onde é que você vai.
- Eu vou pra casa!
- Uma hora dessa?
- É por que eu vou lá nos Porcos visitar Gilberto mais Natalia.
- O quê? Visita a gente faz é no domingo, João Nunes, e não no meio de semana, você devia tá agora era limpando a sua roça de feijão, que já tá virando capoeira, e eu acho que lá tá cheio de camaleão e potó, veja também se você me trás aquele feijão que eu lhe emprestei.
- Ora essa, Inácio, você só fala em feijão.
- Falo mesmo, por que você me toma emprestado e não vem me trazer de volta.
- Ora home venha ver minha roça de feijão.
- Vou nãão, eu já conheço suas capoeiras cheias de tamiarana e capim rabo de raposa, cadê Onave.
- Eu mandei ele ir botar a cabra no chiqueiro, porque?
- Eu quero que você me mande ele amanhã cedo aqui.
- Pra que?
- Pra carregar água pra meus meninos pulverizar algodão.
- E cadê as lagartas Inácio?
- Ora você não viu como tá o cheiro de borboleta por aí a fora.
- Tá bom, eu mando ele vir.
- Mais mande cedo. E você venha também, que é pra tirar aquele bodoco lá do toco de imburana lá da beira da cerca, porque toda vez que eu passo lá as abelhas me botam pra correr com tanta ferroada.
- Eu só vem se tiver mé, será que tem?
- Ora João como é que eu vou saber se tem mé, pois ninguém pode chegar perto, porque Onave joga pedras na boca dele todo dia, e as abelhas só vivem assanhadas por causa das pedradas, mas pela brecha do oco dá pra ver a casa.
- Tá bom amanhã eu venho mais Onave até por cá.
- Mais venha cedo.

A CAJACA DE COURO

- João Nunes, eu quero que você fale com seu menino, pra ele deixar de mexer nas minhas coisas.
- Mas que coisas são essas que o senhor tá falando seu Quincas?
- Ora seu João, todo dia eu boto meu fumo junto com o papel, a caixa de fosco e o canivete, tudo junto, bem ali no tronco do pé de cajueiro, mas quando eu vou fazer meu cigarro, só encontro o canivete.
- Mas seu Quincas, o Onave não fuma, será que é ele mesmo que tá mexendo nas suas coisas?
- Só pode ser, seu João, porque aqui não anda outro menino.
- Tá bom, seu Quincas, eu vou falar com ele.

Dias depois.

- Seu João, seu menino continua mexendo nas minhas coisas.
- Que dia foi isso seu Quincas?
- Foi ontem seu João, logo o dia que eu queria completar cinco mil telhas.
- Mas seu Quincas? O que tem a ver, uma coisa com a outra?
- Ora seu João, quando eu vou fazer a contagem das telhas, tenho que acender um cigarro, senão eu me atrapalho todo.
- Então quer dizer, que o senhor não conseguiu contar as telhas ontem?
- Foi seu João, e se o senhor não dé um jeito no seu menino, eu vou parar de fazer telha.
- Aqui, Seu Quincas eu tô achando isso muito estranho.
- Porque seu João.
- Porque Onave não tava aqui ontem.
- E quem foi que pegou meu fumo, e às outras coisas?
- Não sei seu Quincas, o senhor observa pra ver quem é, que tá bulindo nas suas coisas.
- Mas seu João! Só seu menino anda por aqui, procurando castanhas e caju, e nesse embalo minhas coisas se evaporam.
- Mas seu Quincas, o senhor já o viu pegando suas coisas?
- Não seu João, mas eu sei que é ele.
- Tá bem seu Quincas, mas o senhor preste bem atenção, na hora que ele chegar por aqui, porque se o senhor pegar ele mexendo nas suas coisas, eu vou dar dez muxicão no quengo dele.

E dias depois a mesma historia.

- Seu João, eu vou parar de fazer telhas aqui.
- Seu Quincas me diga uma coisa? Qual é o motivo?
- É o mesmo seu João, o senhor sabe que fumo é caro, e eu todo dia trago um pedacinho, mas na hora que eu vou fazer meu cigarro, só acho o canivete.
- Seu Quincas, vamos fazer assim, amanhã, o senhor vai ficar o dia todo sentado, e observando, pra ver quem é que vai bulir nas suas coisas.

E no outro dia seu Quincas não fez nada, Onave chegou, subiu no cajueiro, tirou caju, catou castanhas no chão, atirou pedras no galo de capina, bebeu água no pote do Quincas, e foi embora, então o Quincas resolveu amassar um monte de barro pra deixar pro outro dia, mas quando foi procurar o fumo este já não estava lá, aí seu Quincas ficou ainda mais encabulado.

- Este menino tem o diabo no couro, pois é só eu virar as costas ele vem e pega minhas coisas.

E no outro dia cedo, Onave aparece, mexe pra lá mexe pra cá, caçando castanhas dentro das folhas secas do chão, levanta um pé, tira um espinho, levanta o outro, tira outro espinho, torna a levantar um pé, tira outro espinho, olha pra cima, e diz:

- Seu Quincas, Vamos desmanchar estes ninhos de cajaca de couro? Eu subo, jogo no chão, e o senhor queima.

E seu Quincas que já vivia com os pés todos furados de tantos espinhos que caiam dos ninhos das cajacas, resolveu ajudar a Onave desmanchar aquelas coivaras de espinhos, que era os ninhos das cajacas de couro.
Seu Quincas concordou, mas como já era à tardinha, resolveram fazer aquilo no outro dia.
Seu Quincas chegou cedo, e Onave também, e quando se aproximaram do pé de cajueiro, notaram que estava havendo algo estranho do cotidiano, se aproximaram na ponta dos pés, e viram a coitada da cajaca, se lamentando e no maior chororó do mundo, pousada lá num galho, de onde assistia impassível, a invasão da sua casa, pois o concris, vulgarmente conhecido como sem teto, tinha chegado ali muito cedo, juntamente com a sua companheira, e como esta estava em vésperas de botar seus ovos, mas não tinha aonde, estes resolveram despejar a coitada da cajaca, e utilizar a casa dela para isso, e Onave que ia atrás de seu Quincas, notou que ele estava sorrindo.
A curiosidade o fez olhar para o ninho da cajaca, e entendeu o porque daquele sorriso: o sem teto que já tinha jogado no chão os filhos da cajaca, tornava a entrar no ninho, e saia com um pedaço de fumo no bico, jogava fora e repetia a operação, e voltava com uma caixa de fósforos, entrava novamente no ninho saia com um pacote de papel de fazer cigarro, nisso seu Quincas Ferreira foi lá, pegou um dos pedaços de fumo, puxou o canivete do bolço, picou uma porção do Arapiraca, enrolou no papel, fez um cigarro bem grosso, sentou num monte de telhas, pegou a caixa de fósforo, riscou um palito, acendeu-o e ficou soltando baforadas de fumaça pelos buracos das ventas.

INÁCIO LU da silva CENA

Era conhecido como Inácio Ganga, e pela maneira como se comportava, se notava logo que, faltava muitos parafusos na cabeça dele. Tinha os dentes espichados pra frente, finos e pontudos, igual dente de cão. Altura mediana, corpo grosso e arredondado, as mãos eram como pranchas, os pés pareciam muito com uma tartaruga marinha. E os dedos pareciam cabeça de cobra jibóia. Pois esse tipo anatômico era característico da família Lu da Silva cena, que para se identificar um membro deste clã bastava olhar pro pé e logo já se sabia de que família era esse exemplar. Outra característica marcante era a brutalidade e a maneira de falar com as pessoas. Aparentava ter muita força, mas a preguiça do mundo todo estava com ele. Era muito enxerido pro lado de mulher, e quando via uma bonita ele ficava todo entronxado pro lado dela. E muitas vezes elas eram obrigadas a ser grosseiras com ele. E numa certa feita, uma moça chegou pra ele e disse assim!

- Inácio você pra mim é igual o mar!

E com isso ele ficou lisonjeado, e perguntou pra ela!

- É por causa da onda que eu ando na crista dela.

Ao que a moça respondeu:

- Não! Você é igual ao mar, porque você me dá enjôo.

Ganga criava um cachorro, que se chamava Javali e nunca alguém tinha visto um igual naquela redondeza. Se sumia uma cabra de alguém, mandavam logo chamar Inácio Ganga junto com o Javali e logo o cachorro encontrava a tal cabra. Se o jegue de fulano saia da roça pra ir atrás das jegas de sicrano, bastava botar o Javali no rastro dele, e logo o jumento fujão tava no cabresto. Dizia o povo que um homem tinha morrido afogado no açude grande, e Javali tinha ido buscar ele lá na lama e assim a fama do cachorro achador corria mundo. Quando Ganga ia fazer suas caçadas, já se sabia o que ia acontecer, pois Javali passava o pente fino em tudo que era bicho do mato e só escapava os que voavam alto, pois os que vivem no chão, tais como coruja, caburé de buraco, bacurau, cordoniz, nhambu, seriema e outros ele pegava tudo. Isso já gerava uma preocupação muito grande entre os caçadores daquela região, porque até o calango bico doce já era dificil ser encontrado ali e até as lagartixas de parede só escapava aquelas que ficavam lá na cumeeira das casas, pois o tal cachorro pegava todas aquelas que se atreviam a andar nas paredes baixas.
A fama do Javali já era conhecida até em outros municípios e já se comentava que se botasse ele no rastro de um peba que tinha passado por ali no ano anterior, podia contar com ele na panela, pois mesmo que este já estivesse morando em outro Estado, o cachorro só voltava pra casa com ele na boca. E por isso Inácio Ganga levava a vida que tinha pedido a Deus, porque o cachorro fazia tudo isso pra ele, e nos acertos de contas o coitado só ganhava os ossos das caças que pegava. O tempo foi passando e já não tinha mais caças lá pelas bandas daqueles sertões, pois o cachorro tinha pegado tudo e Inácio foi obrigado a mudar de lugar.
Como a cidade grande era o eldorado daquela época, ele resolveu ir embora pra lá. Não podia levar o cachorro, pois ia procurar emprego. Tinha que ir até lá a pé, pois não tinha dinheiro para pagar passagem no pau de arara. E para levantar uns trocados para comprar comida pelo caminho, vendeu uma banda do jumento pra Nego Germano de Benvina, e deixou javali com seu pai, o velho Lu da Silva cena, que morava num lugar chamado Filipe e que nesta época ainda era um homem muito forte, porem muito parecido com o filho. O velho Lu não calçava sapatos, pois não havia no mundo uma forma que desse naquele pé, cujo os dedos eram regaçados uns para o lado direito e os outros pro lado esquerdo, atingindo uma distancia de vinte e três centímetros entre o dedo grande e o pequeno de cada pé, portanto ele mesmo fabricava suas pracatas de couro cru, e para isso gastava quase um couro de um boi zebu.
Inácio Ganga ao chegar lá na cidade grande arranjou um emprego de vendedor de picolé, mas o clima nesta época por lá estava muito frio, e não estava bom pra vender tal produto, mas Inácio precisava de ganhar alguma coisa, pois os trocos que tinha levado já tinham acabado.E o dono dos picolés era um português daqueles que gosta mesmo de dinheiro, mandou ele se afastar para outros bairros mais distantes, pra ver se vendia alguma coisa por lá, porque ali por perto tinha muitos concorrentes.
E no outro dia muito cedo Inácio Ganga encheu o carro de picolé até na tampa, e pegou o caminho de não sei de onde, mas ao invés de oferecer seus picolés, ele só olhava para as mulheres bonitas que encontrava pelo seu caminho e esse descuido quase o levou pra breca.
Andou, andou, andou, até que a noite chegou e quando deu por si estava perdido, no meio daquela louca cidade. No carrinho que ele empurrava não tinha um nome que indicasse o endereço do dono e por isso ficou mais difícil de voltar para a sorveteria de onde ele tinha saído de manhã.
Como também não tinha gravado alguma referência, tais como, placas, lojas, e etc, pois não sabia ler, pergunta a um, pergunta a outro, e ninguém tinha uma resposta para as perguntas dele.
Passou o primeiro dia, o segundo, o terceiro e o quarto dia e nada de Inácio saber onde se encontrava, pois cada dia ficava mais distante do ponto de onde ele tinha saído naquele dia com o carrinho cheio de picolés, que nessas alturas já tinha tudo virado água.
Mas para quem não tem o que comer, tudo serve para botar na boca. Lá pelo quinto dia de andanças, ele caiu de tanta fraqueza, pois não comia e nem dormia por causa de tanto frio que botava qualquer sertanejo nordestino forte pra correr, veja lá um do calibre dele.
Logo alguém se prontificou a ajuda-lo, pois viu que ele ia morrer ali e ninguém ia suportar a catinga quando ele estivesse podre. Apareceu mais outras pessoas, que logo queriam saber de onde ele era e este foi respondendo as perguntas que lhes faziam, porém ninguém entendia o que ele dizia, até que apareceu um nordestino, que também tinha vindo das bandas que Inácio tinha vindo, mas esse também não entendeu nada, pois Inácio batia o pé no chão e dizia que era filho do velho Lu da Silva cena, aquele que mora lá no Filipe, e quando alguém o questionava, este perguntava se eles não conheciam o velho Lu da Silva cena lá do Filipe, aquele do pé grande, e dos dedos longe um do outro, que mora lá no Filipe.

- Onde é que fica isso seu Inácio? Alguém perguntou!
- Lá no Filipe, respondeu ele!
- O senhor é batizado seu Inácio?
- Sou, respondeu ele.
- Em que igreja?
- Na igreja do padre.
- Fica em que cidade?
- Na cidade dos pato.
- Em que Estado?
- Lá perto do Filipe.
- Quer comer alguma coisa?
- Não eu quero é ir embora lá po Filipe.
- O senhor tá sem apetite?
- Não! Quem tem pitite é muié.
- O jeito que tem é levar ele no IBGE, pra ver se localiza essa cidade dos Pato, e esse lugar chamado Filipe e em seguida levar o perdido no correio, pra ver se ele se comunica com a família através de carta, alguém sugeriu

E chegando lá, depois de muitas perguntas, e muitos vai em cima e vai em baixo o funcionário conseguiu localizar a cidade dos Patos, onde naquele município se localiza o tal Filipe tão questionado por Inácio Ganga.
Lá no correio ficou acertado que Inácio ditaria uma carta para seu pai e este encontraria um jeito de mandar buscar seu filho, que estava perdido naquele lugar de doido. E também só seria escrito no papel, o que Inácio falasse porque se não o povo de lá não ia entender nada, A carta seria enviada para a igreja dos Pato, e pedia ao padre para localizar o velho Lu da Silvacena, através do batistério, e em seguida seria entregue a seu destinatário legitimo
E quando a carta foi entregue lá no Filipe, a casa do velho Lu não coube tanta gente que foi saber se Inácio tava bem de vida lá na cidade grande. Mandaram chamar Joaquim Profiro para ler a carta, pois este era o único sabido que tinha por aquelas bandas. E quando as primeiras letras foram traduzidas em palavras, e saíram da boca do Joaquim, o chororó se fez ouvir de longe e tia Chiquinha a mãe dele foi a primeira a chorar e se lamentar.
O Joaquim fez uma pausa, e pediu a atenção de todos, para ouvirem o que ele mandava pedir ao pai. Era mesmo de cortar coração em pedaços e dizia assim!

- Meu pai, tô perdido nas rua deste lugar de doido Peço que o senhor mande Chico Lu da Silva cena trazer Javali pra me procurar, pois só o cachorro Javali será capaz de me achar. Vou ficar esperando sentado aqui na porta do correio, mande ele esfregar a carta nas ventas do cachorro, que é pra ele achar o correio pelo cheiro da tinta que foi escrita a carta. Eu esfreguei o envelope debaixo do meu sovaco que é pra Javali sentir o meu cheiro de longe, e não vou tomar banho enquanto eles não me acharem. Peço que não demore senão eu morro de frio, pois aqui nesse lugar de doido, ninguém dá um pingo de água a um pinto. O dono dos picolé que eu tava vendeno é um português muito miserave, daqueles que olha por cima do óculo pra não gastar o vidro. Aí no Filipe a gente usa sabugo pra limpar o cú, aqui pra limpar a bunda a gente usa papé porque não tem sabugo. O português dos picolé mandou que eu usasse o papel de limpar bunda pelo os dois lados e eu fico com as mãos todas sujas quando vou usar ele pela outra banda. Desde de quando eu cheguei aqui ainda não tomei um banho, pra tomar um banho aqui tem que pagar, não é como ai no Filipe, que quando a lagoa de Loreto tá cheia, a gente toma banho e bebe água até esticar o couro do bucho. Os picolé que eu tava vendendo, já viraram água, mas eu ainda to bebendo dela. Diga pra ele andar em linha reta que fica mais perto e quando ele me achar, nóis vorta vendendo picolés pela estrada, pra levantar dinheiro, pa nóis cumê no camim. Porque nós tem de vortá de pé, pois eu não ganhei nem um dinheiro aqui.

Terminada a leitura da carta, o velho Lu entrou em ação, mandou Doca seu filho, ir urgente buscar Chico das Queimadas! Assim era conhecido o Chico Lu da Silva cena . E ele em pessoa foi arrumar o matulão, onde o Chico levaria a traia, que ele usaria na grande viagem. E esta era composta de um costal de rapaduras, farinha de milho, carne de quatro bodes bem seca, café, sal, oito jerimuns dos grandes, duas cabaças grandes, uma cuia grande pra botar comida pro cachorro, uma panela de barro pra cozinhar o rubacão, um copo de barro pra beber café e água, uma cuié, duas culeiras, dois palmos de fumo Arapiraca, dois grandes pacotes de palha de milho pra fazer cigarro, um currimboque feito de chifre de boi, com a tampa feita de caco de cuia presa numa correia de sola, quatro par de pracatas feitas de couro cru, quatro chapéu de palha bem grande para parar chuva na estrada, e mais outras coisas úteis numa viagem daquela.
E quando.Doca voltou acompanhado de Chico das Queimadas, tudo já estava pronto para que fosse iniciada a grande viagem. Javali já estava amarrado no pé de pereiro da frente da casa, dava grandes pulos e mordia a corda, mas o Chico Lu era um cabra acostumado a viajar, e conhecia muitos lugares, inclusive São Paulo, por isso não concordou em fazer uma viagem daquela a pé, e ainda por cima puxando um cachorro no cascalho quente das estradas daqueles sertões áridos. Pediu pra ver a carta, e nela estava escrito o endereço do remetente, concluiu portanto que não precisava levar o Javali para localizar o tio, pois este dizia na carta que estava esperando ele na porta da agencia do correio, portanto ele estava resolvido a fazer a viagem num pau de arara. Porem o velho Lu não queria concordar nem danado, pois segundo ele, se o Javali não fosse, seu filho já mais seria encontrado naquele lugar de doido, mas depois de muito puxa pra lá e muito puxa pra cá, o velho Lu se rendeu, mas quem arranjava o dinheiro para pagar a passagem. De ida era um, e de volta era dois. Inácio nada tinha ganhado lá, portanto o Chico tinha que levar o dinheiro para pagar às passagens de ida e de volta, e a única coisa que tinha para ser vendido era o jumento, mas Inácio tinha penhorado uma banda dele a Nego Germano de Benvina para completar o dinheiro das despesas quando da sua ida para a cidade grande. E se penhorassem a outra banda, o dinheiro levantado com isso não dava nem pra comer rapadura com farinha e cocorote pela estrada, veja lá pagar passagem pra dois na volta.
No entanto, Pedro Lu da silva cena, que a tudo escutava, sugeriu que seu sobrinho fizesse a viagem montada no jumento e este arreado com uma cangalha e um par de caçuá que iriam servir para butar as caças que o cachorro pegasse pelo caminho, inclusive couros de gatos e até de onças pintada, e que segundo ele, essas peles lá nessa cidade grande valiam ouro. E quem sabe! Se eles não iam voltar de lá cheios de dinheiro da venda de tanta carne das caças, e de tanto couro de onças pintadas e de gatos maracajás que o Javali ia pegando durante a viagem.
Mas Nego Germano que era dono de uma banda do jegue não concordou, argumentando que o preço de aluguel de jumento era muito caro, e que ele tinha o direito de receber uma metade deste aluguel pela parte dele.

- Não dá, Pedro, falou o velho Lu.
- Porque não dá meu pai?
- Porque quando chegar lá o jegue já tá estropiado e não vai agüentar os dois montados nele, pra fazer a viagem de volta.

Nisto Joaquim Profiro que tinha sido chamado para ler a carta, entrou na conversa, aconselhando que a viagem fosse feita no jegue, e que segundo ele, jumento lá nessas cidades grandes valia ouro. E esse podia ser vendido lá por um preço muito alto, e olhe lá se o dinheirão apurado com a venda dele não desse pra comprar dez cavalos esquipador.

- Será Joaquim, perguntou Nego Germano, já imaginando vender por um dinheirão a sua banda de jegue.
- Será que da mesmo, perguntou Doca.
- Ora se dá, responde ele

E ainda reforçou dizendo que o povo desse lugar que Inácio estava tinha paixão por jumento, principalmente os do nordeste, que são criados comendo sabugo e papelão pelos monturos.

- Mas esse povo lá desse lugar tem tanta paixão por jumento? É pra andar montado nele? perguntou Doca.
- Não, respondeu Joaquim, é só pra ouvir ele rinchar de madrugada.

Finalmente ficou tudo acertado que a viagem seria feita no jumento. Combinaram com Nego Germano que se o jegue fosse vendido lá ele receberia a parte dele, e se não houvesse negocio ele receberia um bom aluguel pela sua parte. Botaram as coisas dentro dos caçuás, amarraram a corda da coleira do Javali no rabo do jumento. O Chico Lu se escachou no meio da cangalha entre um cabeçote e o outro, e saiu antes da barra do dia clarear. Os juazeiros estavam com seus frutos maduros e o lanche das manhãs era seguro, pois não era preciso acender fogo pra fazer comida enquanto tivesse juá maduro pela beira do caminho.
O primeiro e segundo dia de viagem foi sem problemas, mas no terceiro dia lá pela tarde, o Javali pisou numa garrafa quebrada, e isso fez um corte muito fundo numa das patas traseira, e por isso ele não mais pode andar.
E Chico Lu só achou uma saída para resolver este problema, pegou o cachorro e o colocou dentro de um dos caçuás, mas o Javali era muito pesado, puxou para o lado, virou a cangalha, na queda um saco rasgou e foi farinha pra toda banda.
Mas o Chico Lu era decidido! Cortou uma forquilha, escorou o caçuá com ela, calculou que seu próprio peso era igual a soma do peso do cachorro e o das coisas que levava, botou tudo que tinha dentro do caçuá que estava escorado, jogou o cachorro em cima, e ele entrou dentro do outro caçuá e tocou o jegue pra frente.
Na tarde do quarto dia chegaram no tronco da serra do Medo, e ali Chico Lucena fez uma parada. A estrada dobrava para esquerda acompanhando a cordilheira até um ponto mais baixo, onde contornava a ponta da serra e dali tomava o rumo da direita seguindo para o poente. Chico Lu escorou com a forquilha o caçuá que ia com as coisas e o cachorro, e saiu do que ele ia dentro, tirou a cangalha do jegue e resolveu descansar aquele resto de tarde, enquanto isso o jumento ia encher a barriga de capim que tinha muito ali por perto.
Foi a um riacho ali perto, tomou um banho, encheu as cabaças com água, fez uma janta rápida para ele e o cachorro, e se preparou para dormir aquela noite ali mesmo. Armou a rede debaixo de um pé de canjerana e ficou ali se balançando enquanto a noite chegava. Podia dormir a sono solto, pois se o cachorro latisse ou o jegue soprasse pelas ventas, era sinal de que tinha algo estranho ali por perto.
Porem essa noite não foi como as anteriores, o Javali levantava a cabeça, torcia as ventas prum lado e pra outro, procurando captar no ar um cheiro que para ele era estranho. O jegue murchava as orelhas, arregaçava as ventas, e dava sopros. E outras vezes apontava as orelhas pra frente, como se estivesse vendo ou sentindo algo estranho ali perto.
Enquanto isso Chico traçava um plano, para seguir a viagem pela estrada cavaleira que serpenteava por dentro do boqueirão, atravessando a serra em linha reta e saia na estrada que continuava pelo outro lado da cordilheira. Com isso ele ia ganhar quase dois dias de viagem, caso fosse contornar a ponta da serra.
O dia clareou ele encagalhou o jumento botou as coisas dentro de um dos caçuás, botou o cachorro em cima, e ele entrou dentro do outro, e tocou o jegue pra dentro da garganta da serra. O inconveniente era o caminho que era muito estreito, e tinha muitas pedras que muitas vezes enroscavam nos caçuás. Mas ele foi tocando assim mesmo, e ao se aproximar do espinhaço da serra o jumento parou, apontou as orelhas pra frente arregaçou as ventas e deu um sopro que levantou poeira e folhas secas do chão. Javali que ia cochilando, levantou a cabeça ficou em pé na beira do caçuá, torceu as ventas procurando um cheiro no ar, e soltou um latido daqueles que indica medo. O jegue deu mais dois sopros pelas ventas, deu dois passos atrás, rodando e tentando pegar o caminho de volta. Nisso um rugido ensurdecedor fez toda a montanha tremer, Javali pulou no chão e entrou debaixo do jumento, o peso desequilibrou, a cangalha virou levando também o Chico pra debaixo da barriga do jegue, que nessas alturas já fazia carreira serra abaixo, e para se livrar da cangalha dos caçuás do Chico e do cachorro que estavam debaixo da barriga dele, o jegue deu um coice com as duas pernas, deu uma descarga com a boca traseira, e largou um bocado de coisas lá no meio daquela pedreira terrível.
Mas o Chico ainda estava dentro do caçuá segurou firme a corda que estava amarrada no pescoço do jumento, e este desceu a serra arrastando tudo de ladeira abaixo. Ora o Chico tava de papo pra cima, ora de barriga no chão, e as cordas que amarrava os caçuás nos cabeçotes da cangalha foram se quebrando quando agarravam numa pedra, e por fim só restava o Chico na rabeira do jegue, que por nada deste mundo queria parar de correr. E Javali que já tinha tomado a dianteira nem parecia que tinha uma perna ferida, como também não era besta para enfrentar uma fera daquela que nem se deu ao trabalho de descer atrás deles, pelo contrario correu para o outro lado, com medo da barulheira daquelas coisas arrastando pelo chão.
Finalmente o Chico conseguiu ficar em pé, mas não tentou fazer o jegue parar, pois ele também não queria parar. E ao chegar no lugar que tinham dormido, o jumento freou de vez, e o Chico passou por ele igual uma bala. A corda esticou e ele também parou. Aí foi que ele notou que o seu estado era lamentável.
De todos os seus pertences só lhes restava a cueca assim mesmo toda rasgada. Olhou pro sol e calculou o tempão que tinha gasto para subir aquela montanha, e tão pouco para descer. Pois a uns vinte minutos atrás ele estava lá em cima da serra. E porque tinha gastado quatro horas para subir? Se pra descer foi tão rápido. Voltar lá pra pegar as coisas nem em sonho, o certo era sair daquele lugar o mais rápido possível, ia voltar pro Filipe, e quem quisesse que fosse atrás de Inácio Ganga, ele era quem não ia.
E para não ser visto naquele estado de lástima que se encontrava, ele foi se desviando das pessoas que encontrava pelo caminho, mesmo assim a volta foi muito rápida, porque se um jumento gastar quatro horas para ir a um lugar, na volta para casa ele só gasta uma hora pra fazer o mesmo trajeto.
Mas ao chegar no Felipe, o velho Lu pediu a ele encarecidamente que fosse procurar seu filho naquele lugar de doido, pois entre toda a parentela só tinha ele que era viajado, mas o Chico tava irredutível.

- Como é que eu vou? Porque eu não tenho mais minhas roupas.
- A gente vende a outra banda do jumento e compra algumas!
- E o dinheiro pra pagar minha passagem de ida e as duas na volta?
- Eu vou vender umas arrobas de algodão na folha a Severino Canuto e levanto esse dinheiro.
- Tá bem, meu avô, eu vou. Só porque o senhor tá me pedindo, se não eu nunca mais ia pensar em sair de casa. Só eu sei o medo que eu passei lá naquela serra.

Finalmente tudo foi feito às pressas e Chico Lu viajou num pau de arara até onde estava Inácio Ganga, e lá chegando logo localizou o tio, que não tinha arredado o pé da porta do correio, porém tava magro de fazer dó, mas Chico Lu era decidido e logo o levou a um hospital, para fazer algum tratamento antes de voltarem lá para o sertão. E enquanto esperam na fila a sua vez, Inácio Ganga não parava de olhar para uma senhora muito jovem e bonita que estava a sua frente. Não mais suportando a curiosidade Inácio se aproxima da mulher e pergunta, na maior cara de pau.

- Você é da família Lu da Silva da silva cena Lá do Filipe?
- Não, mas porque o senhor me pergunta isso?

Ao que Inácio responde:

- É porque pés grandes como os seus só tem nessa família.

A mulher não gostou nem um pouco da brincadeira, tirou o sapato do pé, e jogou com toda força na cara de dele, que foi sangue pra todo lado. E quem gostou muito disso foi Chico Lu, pois ele foi levado na mesma hora para o pronto socorro medicado. E três dias mais tarde estava de alta, e viajaram de volta no mesmo pau de arara que tinha levado Chico Lu seu sobrinho. E quando chegaram no Filipe a festa já estava pronta, e Inácio Ganga depois de descansar alguns dia voltou às sua antigas atividades de caçador.
















Capitulo final



Nego germano de dono bevina.


Ele era alto, magro, e um pouco curvado pra frente, só tinha dois dentes amarelos, na parte superior da boca, e dois na inferior, e ambos eram bem separados um do outro e espixados pra frente, venta chata e bem espragatada, e no lugar das narinas tinha dois buracos grandes.Por onde o vento entrava e saia. Testa de touro cretense, olhos pretos e grandes com as beiradas amareladas, mãos grandes, pés chatos e grandes, calcanhar tipo casco de burro virado pra traz, dedos separados uns dos outros, com membranas entre eles tipo pé de pato. Pele escura bem ritinta. Dizia chamar-se germano, e tinha o apodo de nego.
Sua companheira também era alta, sarará, magra, muito magra mesmo, pernas tipo palito, cabelo pixain, olhos de macaca. Unhas de carcará, ventas tipo bico de gavião, E se chamava benvina.
E também como seu marido tinha o apodo de dona sibita. Coisa que ela não gostava nem pouco, e se alguém tocasse neste nome, ela mandava o mundo todo pra P Q P
Esse casal era conhecido em toda região, como os melhor dançador de mazurca, e onde havia uma pandega eles estavam presente, e para isso eles andavam léguas e léguas montados num jumento, nego germano era zabumbeiro e dono benvina era pifeirira, assim eles se intitulavam,
Nego germano montava no meio da cangalha com o zabumba pendurado de um lado, e dono benvina ia montada na garupa com o seu pífaro pendurado no pescoço.
O zabumba era feito de um grosso tronco ôco de carnaubeira, e que depois de bem limpo o seu interior, foi colocado numa das bocas uma carapuça do couro de guaxinin e este esticado por varias correias de couro cru, e esse instrumento quando era esquentado numa fogueira de são João, liberava um estrondo tão forte que fazia balançar as latadas, onde debaixo das quais acontecia às pandegas e os dali dançavam numa carraspana arrochada.
O pífaro que dona benvina tocava, era feito de uma grossa vara de taboca com vários furos a o longo da sua extensão,e que quando ela soprava numa ponta e dedilhava aqueles furos, saia um som parecido com aquele que faz os carros de boi, quando estão com os cocões bem lubrificados com sebo misturado com carvão, e bem machucado no pilão
E com aquele instrumento ela tocava rumba, balada, e principalmente a mazurca do trapià que è aquela que tira o pè daqui e bota praculà.
E o som do arrasta pé misturado com o dos instrumentos, parecia com o de uma serraria quando está funcionando.
E assim eles levavam uma vida sem preocupaçãos, pois para levantar um dinheirinho eles inventavam de tudo.
Os dois usavam um só cachimbo que dentro dele cabia palmo e meio de fumo boró,E quando os dois estavam pitando, o fumaceiro era avistado de longe, Nego germano andava com um patuá pendurado debaixo dos queixos, e sabia fazer todo tipo de mandinga, sabia fazer catimbó fazia adivinhação, fazia burro sumido aparecer, desmanchava casamento, juntava casais separados, e quando ia fazer suas caçadas, as caiporas passavam sebo nas canelas, sumiam dos matos com medo dele.
E dona benvina sabia tudo que era rezas brabas,
Rezava pra fazer cair pulgas de gato,
Cair piolhos da cabeça dos meninos
Cair carrapato de cachorro,
Cair tapurú das bicheiras,
Fazia percevejos sair das camas de varas,
Rezava espinhela caída,
Olho gordo.
Ma olhado,
Curava mordidos de cobras,
Rezava pra Arca caída, dor de dente, dor de espinhaço torto, botava cascaveis e jaracas pra fugir das roças,
E às vezes quando as suas rezas não tava dando certo, nego germano ajudava com o catimbó dele, e aí tudo dava certo.
Quando alguém ia queimar os brocados, eles eram chamados para rezar e evitar que o fogo passasse pras roças dos vizinhos, e quando esse ameaçava passar, eles colocavam um santo Antonio na cabeça de um toco e logo a lavareda amansava.
Às vezes o fogo ficava brabo de mais, e o santo Antonio por ser muito corajoso não saia da frente, terminava morrendo queimado, mas logo eles mandavam mané santeiro fazer outro, de pau de cumarú verde, que è um pau cheiroso e ruim de fogo.
E assim o povo daquela redondeza se servia das sabedorias do nobre casal, mas tinha um porem, tudo isso tinha um preço.
Esse casal gostava muito de cachaça, e pouco de trabalhar. Andavam sempre acompanhados de duas cachorras, e traziam com eles uma espingarda lazarina, um bizaco atiracolo, onde era guardado um chumbeiro, um polvaririno, uma caixa de espoleta, um rolo de bucha e o inseparável currimboque. Que era um chifre de boi crioulo,cheio de lã de algodão, tampado com uma rodela feita de caco cuia, com um furo no meio onde era enfiada uma correia de sola com um nó na ponta, e a outra ponta desta era enfiada num furo existente na ponta do chifre, de onde também saia uma outra correia, e na ponta desta era amarrado um pedaço lima, e uma pedra preta, chamada pedra de fogo. E na hora de botar fogo no currimboque pra ascender o cachimbo nego germano não pedia explicação a ninguém.
Retirava a tampa de caco de cuia, que ficava pendurada na correia, segurava a pedra com uma das mãos junto à lã de algodão, e com a outra, ele esfregava com muita velocidade a lima na pedra, e esse atrito gerava faíscas que caiam dentro do algodão e o fogo tava feito.
alem das duas cachorras eles possuíam também a jumenta velha, mais o jegue antes já citado que diziam ser tataraneto dela. E as duas cachorras, garantiam com folga a sobrevivência do casal, que vivia num rancho no meio do mato, num lugar deserto chamado loreto onde o tempo não andava.
A o redor do rancho eles tinham de tudo que era ervas milagrosas.
Pimenta chodó,
Rabo de carimbó,
Trança de mamãe sacode,
Alecrim capeta,
Pixain do sovaco da mãe de pantanha,
Catuaba vermelha,
Rama de mãrãcãcã,
pó nico,
quebra feitiço,
comigo você não vai poder,
pixain de mãe Joana,
trombeta de papai xangô,
um pé de espanta tudo
e muitas e muitas outras plantas que serviam para curar até dor de cabeça em prego.
E o dinheiro para comprar cachaça, farinha, rapadura, sal café fumo, e outros, vinha da venda dos couros dos serelepes, dos caxinguelês, e outros bicharocos que as cachorras pegavam nas sarobas.
As cachorras comiam os ossos os rabos e as fussuras dos bichos,
E benvina e nego germano comiam a carne. E a vida seguia do jeito que eles gostavam, pois não tinham filhos.
Mas numa certa feita essa tranqüilidade tinha fugido deles, e tudo tinha mudado dali prá frente E a vida tinha ficado mais difícil.
Nego germano tinha ficado com mais de uma centena de caroços de chumbo espalhado pelo corpo, devido a um acidente que ele mesmo provocara.Tinha armado um bacamarte para matar uma onça que tinha comido a sua jumenta velha, mãe de todos os bons jumentos daquela ribeira. Mas, quando foi ver se a onça tinha caído na armadilha, não conseguiu encontrar o lugar que ele tinha armado aquela coisa danada, roda pra lá roda pra cá e bruuuuummm o miliê disparou nele. Enchendo seu corpo de chumbo. A sorte foi que ele estava longe do cravinote na hora do disparo daquela arma terrível se não ele tinha transformado nego germano em carne de fazer pastel. Aí foi que nego germano ficou com raiva da onça. Alem de ter comido minha jumenta velha, ainda acontece isso com eu, lamentou-se ele. Benvina teve sorte era muito magra, e tinha as pernas muito finas, É tanto que o chumbo não conseguiu encontrar ela no seu caminho de destruição. Benvina correu pra casa, pegou dois pintos novos jogou dentro do pilão machucou tudo bem machucado com pena, bico, olhos, bofes coração, misturado com tripas e tudo mais, depois foi no bisaco onda nego germano guardava suas mandingas, pegou dois olhos de caboré, um rabo de calango sego, dois bofes de lagartixas, uma mão cheia de bosta de gato preto, meia garrafa de mijo de macaco, meia garrafa de azeite de carrapateira, jogou tudo dentro do pilão,e meteu a mão de pilão pra dentro até que tudo virou mingau.Botou tudo aquilo dentro de uma cuia, e despejou dentro das goelas de seu marido que já estava virando os olhos, nego germano engoliu aquela mistura danada, a cara ficou mais feia do que já era, torceu as ventas prum lado e pra outro, mais aquela coisa de doido já tinha entrado goela adentro. Como não tinha forças para levá-lo nas costas benvina foi a casa trouxe uma tabua larga, colocou ele encima e arrastou no jumento, até no rancho onde o tratamento continuou.
As visitas vinham de longe para saber se nego germano estava melhorando com os remédios que benvina lhes ministrava.
Ave Maria, ave Maria, ave Maria se nego germano morrer dizia seu amigo Chico pacatonio
Mané pretin lá da cachoeira grande era outro que não parava de se lastimar, pois nego germano tinha tirado dele um catimbó que o velho Zé pio tinha butado nele.
Severino sem cueca também não arredava o pé de perto do seu amigo doente.
Maria cobra de cipó, que era amigona de benvina, cuidava de pegar água na cacimba, Maria calanga pelava os preás que as cachorras iam pegando, moia o milho para fazer o angu, torrava a massa no caco para fazer a farinha, pilava o milho pra fazer mucunzár,e outros serviços mais. Ze pajaraca e sua mulher, Bigaí do buchão vinham pela manhã e a tarde para saber como ia às melhoras do amigo.
Severino capa tudo também aparecia regularmente, Chico cajobão cuidava do jumento,
E assim o tempo foi passando, nego germano foi melhorando,Como de fato em poucos meses ele tinha sarado, pois devido a distancia que ele estava na hora disparo o chumbo não tinha penetrado muito no seu corpo.
E logo ele já falava em se vingar da onça que tinha comido sua jega velha Que a essas alturas já tinha virado bosta de onça.
Segundo ele a jumenta já tinha sessenta anos, e já tinha parido cinqüenta e seis vezes, e cada vez sempre nascia dois machos. Portanto ela já tinha parido cento e doze jumentos machos, é tanto que ninguém sabia a o certo quantos parentes, entre filhos, netos bisnetos, tataranetos, e escanxa netos, ela tinha deixado para trás.
Como se viu atrás o casal tinha muitos amigos e nem todos foram listados aqui.
E o único conhecido dele que não foi fazer-lhes visitas, foi o velho Zé pio, pois também era catimbozeiro, e não via com bons olhos, a concorrência que nego germano e dona benvina, lhe fazia.
Pois era dois contra a um, e a coisa não andava bem para mestre zè pio.Mas como sabia a arte de ferreiro e carpinteiro, foi arrastando o bucho pelo chão, amolava um picareta pra um, apontava uma chibanca pra outro, fazia uma cuié de pau aqui, fazia uma mão de pilão acolá, e assim ia levando a vida.
Nego germano esbravejava todo dia, e dizia que aquela onça, também ia saber o gosto do chumbo do bacamarte dele.
Mas a onça continuava fazendo seus estragos, comia uma vaca lá na serra da Borborema,
comia um boi lá na serra do texeira na serra preta comia outro tanto de bichos. E assim nunca se sabia o lugar certo que ela estava.
Mas nego germano era caçador antigo e conhecia como ninguém, a maneira certa e o dia certo de encontrar com ela.
Estava fazendo seus planos quando ele ouviu o latido das cachorras, da porta da cabana ele viu alguém vindo muito apressado no seu rumo, e logo notou que era João brabo que vinha às carreiras lá das bandas da lagoa do loreto.
E esse foi logo dizendo, seu germano eu vi uma onça e um onço, lambendo a lama na beira da lagoa.a procura de água,
E foi naquele mesmo lugar que você matou aquele jacaré e aquela jacarôa.
dona benvina correu lá fora, trouxe o jumento, e o trancou dentro do rancho, e nesta noite não dormiram com medo daquelas feras que rondavam por aquela bandas, e a única coisa que tinha por aquela redondeza, que servia de comida de onça era o jegue, e nego germano sabia disso.
O dia clareou, mas ninguém teve coragem de abrir os canixos que feixavam as duas entradas do rancho, João brabo que tinha dormido debaixo da cama de nego germano junto com as cachorras ainda estava ferrado no sono, benvina ascendeu o fogo botou água pra ferver, e quando tava raspando a rapadura para adoçar o café foi que ele acordou.
E benvina foi a primeira a falar nos perigos que estavam expostos naquele lugar.
João brabo olhava para o teto do ranchinho, e nego germano olhava pelas brexas da parede de taipas, pra ver se via alguma coisa, as cachorras latiam sem parar e o jegue arregaçava as ventas e dava sopros que a poeira levantava do chão. E assim se passou o primeiro dia.
O bacamarte estava carregado e bem azeitado, a espingarda também, as cachorras davam sinal que tinha alguma coisa estranha ali por perto, e o jegue continuava soprando pelas ventas e peidando pelo pé. A noite chegou e a lenha que tinha dentro de casa estava pouca, pois durante o dia ninguém tinha tido coragem de ir lá fora pegar um fecho.A água estava sendo regrada, o fedor dentro do rancho era horrível, pois pra todo lado que se olhava só se via mijo e bosta das cachorras do jegue e de gente também.
Finalmente chegou o terceiro dia e nada de onça mostrar cara, e nego germano não soltava o bacamarte nem danado, lá pelo meio dia João brabo apontou o dedo pelo o buraco das varas da parede, e disse ter visto uma onça fêmea muito grande passar na frente da casa.
E já escurecendo benvina correu pra perto do marido, e disse ter visto um onço macho muito grande passando no oitão da casa. .
O jegue soprava pelas ventas, batia com os cascos no chão, torcia o rabo, murchava as orelhas, rinchava, e o que mais benvina fazia era tentar acalma-lo naquelas horas que nunca passavam.E nego germano como bom caçador que era já sabia que onça quando ta com fome, tenta comer tudo que estiver na sua frente.
Dona benvina rezava, cruzava dois paus na entrada do rancho, João brabo tava muito manso, e nego germano beijava o patuá toda hora.Pois a situação já era desesperadora
Não tinha mais lenha e nem água dentro do rancho, e a cede e a fome se juntou com o medo e dominavam a situação. Tinha que haver um jeito pensou nego germano, subiu no teto do rancho abriu uma brecha e ficou ali observando para ver se aparecia alguma das onças, como nada avistou, ele resolveu ir pegar água na cisterna, que ficava lá no baixio do filipe não muito perto dali, e mandou João brabo pegar lenha seca que também não se achava tão pertinho do rancho.João brabo argumentou que tava muito fraco, mas benvina lembrou-lhe que só teria comida se tivesse lenha para cozinhar, portanto não tinha outra saída a não ser correr o risco, de ser comido pelas onças, ou ser comido pela fome.
A assim com muito cuidado nego germano pegou o bacamarte atravessou nas costas, pendurou o bisaco no ombro, butou a peixeira na cintura, calçou as pracatas de currulepos, e tomou o caminho da cisterna, olhava pra frente pra traz e pros lados, João brabo também pegava sua lenha com os mesmos cuidados,
Mas quando nego germano se aproximava da cisterna, olhou pra traz, e viu que as duas onças lhe acompanhavam, pois com certeza também estavam com cede e com fome e estavam sentindo o cheiro da água e da comida.
O lugar ali era limpo de qualquer vegetação, pois já tinha sido roça de plantação,
E nego germano disparou numa gritaria e numa correria, que passou pela cisterna igual uma bala.
Mas subir em quê?
Olhando por cima do ombro ele viu que as onças vinham a mil, mas ainda dava tempo dele fazer meia volta e chegar na cisterna pular dentro antes que elas chegassem,
Girou em cima dos pés e voltou a mil, mas a o chegar na boca da cisterna as onças também chegaram, e uma delas pulou pra pegar ele no exato momento que este pulava dentro cacimba e os dois desceram buraco abaixo. Foram no fundo do poço e a o subir a tona, cada qual procurou salvar a sua pele.
Porem a onça tinha uma vantagem em relação a nego germano, ali ela tinha comido e água, e seu adversário só tinha água.Mas não estava disposto a se deixar comer tão facilmente,
E cada um permanecia de um lado do poço. João brabo quando ouviu a gritaria de germano subiu num pé de angico, e ficou nas pontas das galhas mais altas.
Quando nego germano gritava, Pensando ser ouvido por alguém que por acaso passasse por ali, a onça se agitava e turrava, como se fosse uma ordem que mandava ele calar, e quando ele olhava pra cara dela mudava o olhar, pois não agüentava fitar aquela coisa tão feia.
virar as costas pra ela nem pensar,
Pra não ficar olhando praquela cara ele mergulhava na água, mas não agüentava muito tempo, e quando vinha a tona a onça se espantava, e assim o tempo foi passando.
Inácio ganga que a dias estava caçando lá pras bandas do serrote branco, foi pegar água na lagoa do loreto,mas a o chegar lá viu que esta tinha secado,e agora pensou ele, eu vou buscar água lá no cacimbão do Filipe, se não eu e meu cachorro vamos morrer de sede, e se encaminhou pra lá, passou na casa do seu pai que morava ali perto, e depois seguiu pro cacimbão. Mesmo estando muito longe o cachorro sentiu o cheiro da água e seguiu na frente. E a o se aproximar da
cisterna topou de cara com a onça que tinha ficado na beira da cacimba, e esta não contou conversa quando viu o cachorro, entrou na capoeira e pegou o rumo da casa de nego germano, pois por ali não tinha pau pra ela subir.
Javali ganiu, ganiu, ganiu e latiu longe, muito longe, e acuou, acuou, e Inácio ganga já conhecia pelo latido que aquela caça, já estava encima do pau, e o cachorro demonstrava medo no seu latido, ele correu pra lá, correu, correu,correu com a espingarda lazarina em punho, e em ponto de disparar, logo que visse o bicho que estava acuado.
Quando se aproximou do lugar que o cachorro acuava, ele viu dois vultos trepados num pé de angico muito alto, sendo um num galho e o outro em um outro galho mais afastado.
Observando com cuidado, ele pode distinguir uma onça num galho, e logo o medo se apoderou dele, a o ponto de enxergar um macaco no outro galho.
Mas como couro de onça naquele tempo valia ouro, e Inácio ganga vivia de caçadas,
Mesmo tremendo de medo, ele fez pontaria nela e disparou a lazarina que estava carregada com chumbo grosso, e a onça despencou de lá de cima.E enquanto ela fazia sua decida Inácio ganga fazia sua subida num outro pé de angico que tinha ali perto, e quando ela chegou lá embaixo, Inácio ganga já tinha chegado lá encima, nas pontas das galhas do pé de pau, mas javali já tava agarrado no gogó dela, pois não era cachorro que deixava onça comer seu dono.
Quando viu que a onça tava morta, Inácio desceu de lá ainda tremendo, carregou a lazarina e resolveu matar também o macaco para fazer dele comida pro cachorro, mas quando estava com ele na mira, descobriu que era uma pessoa,
A onça era valente, Inácio ganga tinha enfrentado ela, javali estava de dente enfiado no pescoço dela.
E por causa de tanta valentia, João brabo tava bem mansinho, morrendo de fome, morrendo de sede, e morrendo de medo, tinha perdido a fala e estava todo encolhido lá encima na ponta das galhas, e sem poder acreditar no que tinha visto durante aqueles dias terríveis.
Inácio ganga mandou que ele se agüentasse ali enquanto ele ia à cacimba buscar água, pois ele próprio já estava pa morrer de sede, pegou a lazarina e desceu no rumo da cisterna, e a o chegar lá não contou conversa, soltou a corda com a lata na ponta, e essa desceu no rumo da água, mas antes que a lata chegasse na água, ele ouviu um grito que não pode atinar de onde vinha.
E sem poder imaginar que tinha alguém dentro da cisterna, ele ficou confuso, mas como a gritaria era ensurdecedora ele viu que aquilo vinha lá do fundo do poço, perguntou quem era, e a resposta veio logo, me tire daqui e depois eu te conto a historia.
Então você segure na ponta da corda e eu te puxo pelo sarilho, mas tem que ser logo veio a resposta.
Vamos, vamos, vamos, até que Inácio ganga descobriu que era nego germano que estava subindo pendurado na ponta daquela corda. E este Logo que se viu livre da boca da cisterna foi logo pedindo rapadura com farinha, pois sabia que dentro do bizaco de Inácio estas coisas não faltavam.
Como a onça tava bem guardada lá no fundo do cacimbão, eles resolveram ir logo socorrer bevina e João brabo que estavam na lastima da fome e da sede.
Nego germano era um nego de aço, chegou no rancho deu água a benvina e foi ajudar a Inácio tirar João brabo de cima do pau.
E mais tarde depois do café, todos estavam cheios de coragem, matar a onça que estava dentro da cisterna foi moleza pra Inácio ganga, pois germano não queria mais voltar lá.
Para não furar o couro dela com chumbo, Inácio ganga laçou-a pelo pescoço, pois a cabeça dela estava fora Dágua, e enquanto ele a içava pelo sarilho, esta ia morrendo enforcada, e quando saiu fora já estava morta.
Tirar os couros nem se fala foi outra moleza, agora era só vende-los bem vendidos.
Mas logo houve um desentendimento entre nego germano e Inácio ganga,
Nego germano queria metade do dinheiro que fosse apurado na venda dos couros,
E Inácio ganga queria ficar com tudo.
João brabo ainda estava em estado de choque, e dizia que ficava gasturado quando eles falavam em onça.
Benvina entrou pelo meio, mas Inácio ganga não queria acordo.
E dizia que se não fosse ele, nego germano tinha morrido afogado no cacimbão, ou tinha sido comido vivo pela onça.
Nego germano argumentava que se não fosse ele não havia couros de onça,
Argumentava também que, no dia que as onças tinham corrido atrás dele, ele tinha perdido as pracatas, a espingarda, e o bisaco com as coisas que estavam dentro,
Que era o chumbeiro, o polvarinho, um pacote de buchas, uma caixa com as espoletas, e principalmente o currimboque, que ele não vendia por dinheiro nenhum. Por ser um bem de uso diário e de muita utilidade.
Inácio ganga já estava nervoso e chamou nego germano de nego mole, e disse que ele fosse procurar suas pracatas, ispingarda,espoleta chumbo pólvora buchas e bisaco, lá no fundo do cacimbão.
E esbravejou que já tinha matado duas onças, e não tava ligando para o que desse e viesse.
Benvina entrou lá dentro e voltou com uma foice na mão, e nego germano falou que não era mole, tinha corrido porque eram duas onças, mas se fosse uma só ele tinha pegado ela de unha, mais lá dentro da cacimba só tinha uma com você disse Inácio, é, mais se eu tivesse pelo menos com um quicé na mão eu tinha abrecado ela pelo gogó. E saiba você que eu sou primo de lampião, E que de homem eu não tenho medo.
Benvina disse que era sobrinha de Maria bonita, e quem se metesse com ela caia na foice.
Inácio ganga ficou mais manso e disse que ia vender os couros e depois voltava para acertar.
A fama dos matadores de onças se espalhou do sertão a o cariri velho, e foi até a o cariri novo, subiu pro cariri de cima e depois desceu até a o cariri de baixo.
Mas quando algum fazendeiro procurava nego germano para ir matar uma onça que estava comendo seus bizerros, ele dizia que estava muito ocupado e não podia ir, e não adiantava oferecer dinheiro, porque ele não ia mesmo por dinheiro nenhum.
João brabo vivia escondido,
Inácio ganga ninguém sabia onda ele andava, Pois tinha vendido os dois couros por um dinheirão. Meteu a grana dentro da gibeira e ninguém via mais ele caçando ticaca e Tejo lá pras bandas daqueles cafundós dos Judas.
Quando nego germano soube que Inácio ganga andava rasgando dinheiro a torto e a direito e não tinha dado pra ele nenhuma nica, ficou furioso.
Mandou alguém que sabia entender porque a soma de dois mais dois não da cinco fazer um calculo, pra saber quantas cabras boas de leite dava pra comprar com esse dinheirão, que o povo tanto falava.
E tefoin calculou que esse dinheiro dava pra comprar num sei quantos costais de rapaduras do cariri de baixo,
Num sei quantas bruacas de farinha do cariri de cima,
Num sei quantas cuias de feijão gurutuba sem gorgulhos,
Num sei quantos fardos de jabá do sertão,
Num sei quantos caçoais cheios de espigas de milho seco
Num sei quantos jegues arriados com cangalha e tudo,
Num sei quantas cabras Canindé boa de leite
Cinco bodes merêrê,
E ainda sobrava num sei quanto de dinheiro.
E pra deixar nego germano mais confuso, ainda falou assim!
Eu num sei quem foi que disse,
Que num sei aonde,
Um couro de onça pintada tava sendo vendido num sei por quanto de dinheiro.
Nego germano especulava aqui, especulava ali, especulava acolá, até que teve uma vaga noticia que Inácio ganga tava lá pras bandas do outro lado da serra dos doidos.
Chamou João brabo, mandou que ele ficasse ali tirando resina de angico pra dar pras cachorras comer, enquanto ele fazia uma viagem.
Botou a cangalha no jegue, montou no cabeçote, botou benvina na garupa e tocou pra lá.
Atravessou a serra pro outro lado e virou tudo ali de pernas pra cima e de pernas pra baixo e nada de Inácio ganga.
Mas Inácio ganga sabia que era melhor dormir num colchão velho de palha, cheio de percevejos famintos, e ainda com a cueca cheia de pulgas de cachorro, do que dever um tostão a o casal germano etc benvina.
O casal andou pela caiçara, passou por cocorobó tiveram muitos dias em são José do pau furado, e de lá voltaram pro loreto, onde tiveram noticias que Inácio ganga tinha gastado todo dinheiro no jogo e nas farras com chiquita bacana lá da maquinita, e só não tinha vendido o cachorro javali, porque o velho lu pai dele não tinha deixado, e como estava sem dinheiro tinha voltado pros carrascos lá da vea Ana, onde continuava caçando. E pra encontrar ele tinha que fazer tucaia la no fim da represa do açude do serrote branco, onde ele ia buscar água altas horas da noite.
E nego germano prometia vinganças terríveis, dizendo que ia mandar as caiporas botar ele pra correr do mato.
Quem é que vem ali Benvina? Paresse que é cumpade zé pajaraca, e cumade bigaí do buchão! Mande eles entrar muié.
Bom dia cumpade geimano mais cumade benvinda, cuma vai vomecês?
Bom dia cumpade pajara mais cumade bigaí, nois tamo mais mió,
Me falaro que o siô passou um aperrei danado la dento do cacimbão em?
Foi cumpade! Eu tava muito aperriado carecendo de gente pá me tirá de lá,
Pois é cumpade, onça é bixo arteiro,
É cumpade eu já tava pa indoidar,
Eu ficava gasturado quando oiava pa onça,
Aqueles dentão grandão,
Cada uiona gradona medoinha,
Tinha hora que eu pensava que não ia ver a quaresma chegá cumpade.
não tinha nem um trinchete na mão cumpade, se não eu tia sangrado ela ali mesmo,
E o pió foi quando ela caiu por riba deu, fumo Pará lá no fundo do poço cumpade, e ela abrecada cum eu, e só me sortô proque ja tava bebenno água, se não seu cumpade tinha virado bosta de onça.
Ave Maria cumpade qui aperrei o siô passô,
Pois é cumpade inda hoje eu tô todo chei de rasgão nos coro.Não gosto nem de falá em coro, Inácio gastô o dineiro dos coro.
Era um onço ô ua onça?
Era um onço macho cumpade! E quando ele rosneava me dava uma gastança nas tripas do bucho cumpade, e quando rodeava no poço eu desrodeava pro outro lado cumpade,e a pió hora era quando tava fuscando cumpade, ele ficava com aquela misturação de turrado com miado de gatão grandão,
Diz os sabido cumpade, que esses bixos brabo só anda a párea,
Cuma assim cumpade?
É assim cumpade,
A onça anda junta com o onço dela,
O jacaré anda junto com a jacarôa dele,
A cobra anda junta com o cobro dela.
O tubarão anda junto com a tubarôa dele, e assi pro diante.
Intidi cumpde, vomecê é muito sabido, pois é cumpade eu não aprendi a leitura pro causa da suletração, mais eu já curei até soluço em cavalo.Mais agora tá tudo dimudado cumpade,
Vomecê rezava cumpade?
Cuma cumpade? Pois se eu não pudia fazer o pelo sinal,
Eu falava as palava, mais não pudia espaiá as cruz na cara, proque as mão tava tudo ocupada sigurano no barranco pa não afundá, e de ôi na onça.
Pois eu não podia demudar os zoi dela.
O tempo ia passando e Inácio ganga sempre sumido, nego germano não caçava mais como medo de encontrar onça lá pelos matos, e Inácio ganga era quem achava bom, pois não tinha concorrente.
Certa feita ele tinha ido as escondidas vender uns couros de bichos lá na cidade, e lá ele foi informado que o velho Zé pio, estava a procura dele para comprar-lhe um couro de lubezome pra fazer dele uma batina de catimbozeiro, pois tinha sido informado que naquela redondeza só tinha um cachorro que pegava lubezome, e este era o tal do javali de Inácio ganga.
quando Inácio ganga soube que a sua fama de caçador corajoso e matador de onças, já tinha se espalhado até por outros estados, ficou muito orgulhoso, a o ponto de mandar recados atrevidos, pra nego germano e dona benvina, nos quais ele dizia que não tinha medo dos feitiços deles. Portanto quando lhe falaram que o velho Zé pio estava lhe procurando, para comprar-lhe um couro de lubezome, ele viu logo que ia levantar um dinheirão para fazer outra farra daquela que ele tinha feito junto com chiquita bacana lá na maquinita.
Depois de tantos desastres nego germano quase não saia mais de casa, e o povão passou a contratar os serviços do velho Zé pio.
E este logo comprou um jumento para fazer suas muitas viagens, montado nele, pois todos os dia recebia novas chamadas,
Ora para botar cobras pra fora de roças,
Outras vezes para rezar para desviar fogos que ameaçava passar pra roça do visinho,
Outras vezes era pra chamar a chuva que não queria vir,
Outras vezes era para rezar para mandar os carrapichos pra roça do visinho,
Outras vezes era pra mandar a seca ir embora, o por aí vai,
E ele que já sabia de muitas maracutaias, aproveitou essas oportunidades para cobrar mais caro.
E logo às pessoas comentavam que o homem mais sabido, e que ganhava mais dinheiro naquela redondeza era o velho Zé pio. E isso deixava nego germano se comendo de inveja.
Mas como todo macumbeiro, engana até ele mesmo, o velho Zé pio vivia com a agenda lotada de tanta consulta marcada. E como dinheiro também sobe pra cabeça de gente besta, o velho Zé pio estava decidido a fazer uma batina de couro de lubezome, para ele usa-la nos seus rituais de feitiçaria, porque Chico belzebu barba de bode tinha falado pra ele que os poderes aumentava quando ele vestisse a tal roupa E Inácio ganga sabendo disso aproveitou para cobrar um preço bem alto, e pediu logo metade adiantada.
O velho Zé pio argumentou que tinha aprendido umas maracutaias com Chico belzebu barba de bode marido de jesebel barba de cabra, mas esses tinham lhe comido um dinheirão, para lhe encinar umas mandingas, portanto estava com pouco dinheiro.Mas Inácio ganga não cedeu nem um tostão.
Argumentando que tinha que pagar dois companheiros para lhe ajudar a laçar o lobisomem pelo pescoço, e não podia deixar o javali morder, pra não rasgar couro.e ainda tinha que ir lá longe, na casa do caçador que sabia onde morava os lubesomes, portanto o preço que estava cobrando não era axagerado.
Como estava precisando do tal couro o velho Zé pio não tinha outra saída a não ser ceder, pois só o cachorro javali era capais de acuar um lubezomem. Portanto mandou que Inácio voltasse na semana seguinte que o dinheiro estaria pronto.E Inácio dali foi direto lá pra maquinita onde chiquita bacana morava.
Como já era conhecido ali, as portas foram abertas para ele, jogar comer beber até se empanturrar.
E no dia combinado ele passou na casa do velho Zé pio, pegou o dinheiro pagou as contas lá na maquinita comprou um jumento encangalhado, e foi procurar uma maneira de ir enrolando o velho Zé pio até ele desistir do couro do lobizomem.
O tempo foi passando, e certo dia nego germano recebeu uma visita de quem ele nem imaginava, Manoel baiano um amigo seu que tinha vindo lá dos campos gerais da Bahia e há muitos anos ele não o via.Foi uma alegria e tanto.
Pois ele imaginava que esse seu amigo tinha voltado para a sua velha Bahia.E a conversa quase não termina mais.
Cuma vai vosmecê cumpade mané? Eu tô bom, e o siô mais cumade benvina cuma vai? Nois tamo mais mió, cumpade mané cadê cumpade migué? Cumpade miguele anda muito ocupado, todo dia ele tem que botar as vacas no currale, e o que é currale cumpade?é o lugar de prender as vacas cumpade, Aaa benvina o que ele chama de currale é o currá, ele cria poico também cumpade? Cria cumpade, ele cria os poico é sorto ou é seicado? É cercado cumpade, ele ta morando aonde cumpade?É bem no arraiale cumpade, Aaa é no arraiá que ele mora em? cumpade geimano, o siô me chama de mané mais meu nome é manele, discuipe cumpade eu só sei chamar assim! Tem nada não cumpade.
Benvina contou pro cumpade baiano o caso do acidente com o bacamarte, falou tambem das onças que tinham jogado nego germano dentro da cisterna, falou que Inácio ganga tinha dado uma rasteira neles no negocio da venda dos couros das onças,nego germano falou que agora o negocio dele era armar quixó, tirar mé de bôdôco e tirar arapuá pra vender o mé e a cera.
E as sua caçadas cumpade?
Aaa cumpade aqui pras bandas dessa redondeza não tem mais nada de caça, Inácio ganga e o cachorro javali já acabou cum tudo que era bicho cumpade.
E as pescarias?
Aaa cumpade poraqui não tem mais nem piraca e nem suvela pra gente butá na imbiricica, e a maia do landuá já acabou a muito tempo.
E por fala in tempo, naquele tempo a gente jogava um anzó dento do açude e ele fisgava duas ou três trairas duma vez cumpade.
E o que é anzó cumpade? Aaaaa já sei é o anzole de pegar peixe, isso mesmo cumpade.
Cumpade e siô ainda aima quixó?
Ainda cumpade! Hoje mesmo eu aimei um mais sua camade pa pegar os timbú que ta cumeno as galinha daqui.
E o siô ainda come timbú?
Não cumpade!
Pui quê?
Pro mode qui inaço ganga e o cachorro javalí ta acabando cum tudo qui é bicho qui tem pro aqui.
E suas cachorras ainda acôa bicho?
Quase mais não cumpade, nun tem mais bicho aqui nesses cafundós de Judas cumpade.
Quem é aquele qui vem vindo ali cumpade?
Aaa é o veio zé pio cumpade! O que ele vem ver aqui cumpade? Nun sei cumpade, pois eu num me dou bem com ele cumpade.
Pro que cumpade? Pro causa das macumbas que ele fez pa matar eu e sua cumada bevina.
Cuma assim cupade?
Depois eu te conto.
Bom dia geimano,
Bom dia seu Zé piii emboque, cuma vai o siô?
Eu por exemplo tô mais mió, e o siô cuma tem passado? Eu tambem tô mais mió.
Seu geimano por exemplo o siô tem visto inaço gamga poraqui?
Não seu Zé ele anda sumido lá pras bandas dos mato lá da vea ana, sim! Por exemplo Isso fica longe daqui?
Fica!
É pra lá da lagoa do loreto,
Por exemplo, pra que lado fica?
É no rumo do sol da tarde,
Benvina ficou calada lá num canto, e nego germano já estava desconfiado por causa da presença inesperada do seu temível inimigo.
Mudou de assunto, e para intimidar o velho ze pio, ele passou a contar casos de onças que ele tinha matado durante suas caçadas.
E logo as onças tomaram formas grandiosas na imaginação dos que ali estavam.
Bichão do dentão grandão
Das uionas grandonas
Do rabão, cada uma mãozona medonha.
O velho Zé pio perguntou como tinha sido o caso da onça que tinha caído dentro da cisterna, e nego germano rebateu dizendo que a onça não tinha caído dentro da cisterna,


E como ela foi, por exemplo, foi parar lá no fundo do poço? Perguntou o velho Zé pio,
Aaa foi uma luta terrível respondeu nego germano.
Eu fui pegar água na cisterna, e quando cheguei lá topei de cara com duas onças, que já foram pulando pra cima de mim pra me pegar na cabeça.
Derrubei uma com uma rasteira, e dei um murro no pé do ouvido da outra que foi cair lá no fundo da cisterna.
E por exemplo como foi que você também tava dentro da cisterna? Perguntou o velho Zé pio,
A primeiro eu corri atrás da que tava fora, e matei ela de paulada, aí eu voltei e desci na cisterna e fui matar a outra lá embaixo.
Como por exemplo, Inácio ganga andou falando por aí que tinha sido ele o matador das onças?
É mentira daquele molenga seu Zé, outra coisa, ele não paga a ninguém,
Eu mandei ele vender os couros e ele gastou meu dinheiro.
Então por exemplo ele não vai me entregar minha encomenda falou o velho Zé pio,
Que encomenda é essa? Perguntou germano,
Eu paguei pra ele pegar um lobizomem e tirar o couro pra eu fazer uma batina,
Nego germano que também a tempo procurava um couro deste, já ficou de orelhas em pé,
Falou pro velho Zé pio que o ultimo lobizomem que tinha naquela ribeira ele tinha pegado.
E, portanto só ele tinha um couro de tal bicharoco.
E na hora que ele falou assim o velho Zé pio ficou tenso.

E por exemplo o siô quer me vender ele?
De jeito nenhum respondeu nego germano.
Por exemplo, porque?
Se eu lhe vender eu perco meus poderes respondeu nego germano.
E agora pensou o velho Zé pio, eu vou fazer o que?
Nego germano com esse couro de lobizomem tem mais poder do que eu, Como vou receber meu dinheiro que Inácio ganga surrupiou de mim? Inácio ganga certamente não tinha medo de catimbozeiros, pensou ele, pois também tinha deixado nego germano na tanga e chupando o dedo,
Mas vai ter uma saída, eu quero receber o meu, e germano quer receber o dele, e vai ser assim.
Eu vou tocaiar Inácio lá na cidade, e quando ele for vender couro de bichos eu pego ele,
E vou falar pra nego germano ir procurar ele lá pelos matos.
e assim tudo ficou acertado.
E benvina que já tinha pensado com seus botões e falou assim pro marido, nos vai procurar Inácio, e se ele tiver pegado o lobisomem nos pega o couro, como pagamento do dinheiro que ele deve a nós e o velho Zé pio que se dane.
Mas, Inácio ganga já não mais vendia os couros de suas caças na mesma cidade de sempre. E cortava caminho para não ser visto.